Companheiros de jornada intelectual… (artigo de Manuel Sérgio, 256)

Espaço Universidade 02-09-2018 16:03
Por Manuel Sérgio

Não sou um astro, não emito luz própria. Por isso, amiúde, preciso do convívio e do diálogo, mais ou menos hebdomadários, principalmente do Gustavo Pires, do José Lima, do Vítor Serpa, do Miguel Real, do José Eduardo Franco, do António-Pedro de Vasconcelos e da minha Mulher e dos meus Filhos, Netos e Bisneto. Quero eu dizer: preciso de sacudir as minhas teses com as antíteses e as sínteses de Amigos meus que também já chegaram à conclusão que a vida deve ter um sentido que, antes de ser cronológico, é axiológico. De facto, só porque é valor a vida merece ser tempo. Vale a pena dar a vida por  uma realidade que espelha simultaneamente Valor e Esperança: Valor e, por isso, merece Esperança. Quem espera, espera sempre por valores. Mas… que valores podemos esperar? “Cegos esses (observa Teilhard de Chardin, n’O Fenómeno Humano) que não vêem a amplitude de um movimento cujo orbe, ultrapassando infinitamente as Ciências da Natureza, invadiu, alcançou, sucessivamente, a Química, a Física, a Sociologia e até as Matemáticas e a História das Religiões (…). A evolução apenas uma teoria, um sistema, uma hipótese? Nada disso, muito mais do quer isso, trata-se de uma condição geral à qual devem obedecer e satisfazer, doravante, para serem concebíveis e verdadeiras, todas as teorias, todas as hipóteses, todos os sistemas. Uma luz que ilumina todos os factos, uma curvatura que todos os traços devem acompanhar, eis o que é a evolução”. A Evolução, no ser humano, é, se bem penso, uma contínua passagem do instinto à inteligência, à liberdade e à cultura. Mas não é verdade que o futebol, rodeado de multidões e constelado de mitos, que tanto nos entusiasma, não é um “eterno retorno” ao natural, ao emocional, ao instintivo? Qual é o primeiro mandamento, num jogo de futebol? É proibido utilizar as mãos, excetuando o guarda-redes…

 

                Mas esta privação das mãos torna o jogador de futebol mais próximo do instinto. Arnold Gehlen, no seu celebérrimo Der Mensch (que eu li em tradução das Ediciones Sígueme, de Salamanca) parece-me certeiro, quando define os instintos como “modelos ou figuras de movimento”. Os animais, mal nascem, logo executam as “figuras cinéticas” que anunciam os movimentos necessários à sua existência. Os animais são instintivamente pré-determinados, a natureza deu-lhes a especialização que lhes permite viver. O animal realiza-se na natureza, o ser humano na cultura. No livro, de que sou autor, Filosofia das Actividades Corporais (Compendium, Lisboa, 1981) escrevi: “o Homem é inteligente porque tem mãos (como o pretendia Anaxágoras) ou. ao invés, tem mãos porque é inteligente (como o proclamava Aristóteles)? Um ponto parece indiscutível: o desenvolvimento da inteligência radica nas “condutas motoras”. E se a mão, pela práxis, motiva o desenvolvimento da inteligência, permite de certo, pela mesma práxis, a libertação do Homem. “De facto, quando se pretende vulnerar a liberdade de alguém, costuma amarrar-se-lhe as mãos” (p. 76). E as mãos do médico? Júlio Dantas tem. a este propósito, um punhado de palavras sugestivas: “Que é a Medicina senão uma arte? Que é o operador senão um escultor? Nunca, como nos médicos, foi tão verdadeira a sentença que a Grécia antiga escreveu na porta das suas escolas – o homem pensa, porque tem mãos. Quando o insigne cirurgião inglês, sir Frederick Treves, expôs nos salões de Burlington House uma das suas obras-primas de escultura e lhe perguntaram como era possível ser-se um grande operador e um grande estatuário, o velho mestre observou, com a mais pura fleuma britânica: Se os senhores soubessem como um cinzel se parece com um bisturi (…). Sem qualquer preciosismo temático e vocabular, acrescento, em poucas palavras: depois da língua e do rosto, a mão é a parte do nosso corpo mais comunicativa e dialogante” (pp. 76/77).

 

                A não utilização das mãos desperta, no jogador de futebol, a libertação do que no homem (no praticante) é mais infra-humano e corresponde portanto a uma diminuição da consciência? Privado das mãos, o futebolista desce a níveis muito baixos de consciência? “Na verdade, os sucessivos gestos que o puro instinto do futebolista vai gerando são produtos absolutamente não-conscientes, embora uns tantos (as jogadas laboratoriais, que resultam de procedimentos apreendidos, por exemplo) possam não o ser totalmente” (Álvaro Magalhães, História Natural do Futebol, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, p. 181). De facto, não me é difícil escrever que, privado das mãos, o futebolista encontra uma sólida compensação à sua ausência de Razão, no acréscimo constante do instinto, o qual foi a inteligência inata, natural do Homem. nas primeiras idades da sua vida pré-humana. Álvaro Magalhães, com a inteligência que se desprende da sua História Natural do Futebol, adianta: “Dir-se-ia portanto que os jogadores, enquanto o são, estão impedidos de aceder ao mais elementar juízo e compreensão crítica. Aliás, não é alheia a esta ideia o facto de os jogadores, na sua maioria, terem origem em substratos sociais humildes, serem falhos de preparação fundamental e, por consequência, agradecidos pela redenção que o futebol lhes concede. De facto, e embora hoje se encontrem muitos jogadores com formação e informação superiores às que, à margem do futebol o treinador possui, continua enraizada a crença de que o jogador ideal é o que apenas usa a cabeça para cabecear a bola e não critica ou questiona, desconhecendo até a posição em que melhor rende, quando está em campo (…). O jogador não pensa, logo não filosofa. E portanto menos erra” (p. 186).

 

                Relembro a primeira parte de Verdade e Método, onde Gadamer sublinha que as ciências humanas não devem percecionar-se a partir do modelo das ciências da natureza, mas principalmente como arte, ou seja, “à luz do tipo de conhecimento e de verdade, que se encontra presente, na experiência da obra de arte”. Ora, no acréscimo de ser que se descobre, na obra de arte, há mais instinto do que inteligência? A arte, de facto, não se resume a um processo cognitivo porque é, sobre o mais, um processo ontológico. Portanto, é lícito dizer-se que os desempenhos de um jogador de futebol vivem animados, quase exclusivamente, por pulsões instintivas, que substituem, com vantagem, as virtualidades especificamente intelectuais? “Pahiño foi um avançado do Real Madrid dos anos 50. Apesar de ser um jogador tosco e duro tinha a irremediável mania de pensar e andava sempre com um livro, para aproveitar as horas mortas nas viagens e nos hotéis. Numa tarde, em que repeliu com demasiada evidência uma entrada dura de um defesa, o jornalista que ergueu a sua apreciação nesse jogo fez o seguinte comentário: Que se pode esperar de um jogador que lê Tolstoi e Dostoievsky?” (in História Natural do Futebol, op. cit., pp. 186/187). É conhecida a afirmação de Gadamer: “O ser que pode ser compreendido é linguagem”. Descobre-se uma relação íntima entre a realidade e a linguagem. E, se há linguagem, há pensamento inevitavelmente, pois que, segundo São Tomás de Aquino. “veritas est adaequatio rei et intellectus” (a verdade é a adequação entre o objeto  e o intelecto”) ou seja, entre o intelecto que conhece e o objeto que é conhecido. E quando o jogador não sabe explicar a jogada genial que praticou? Aqui, de facto, o instinto predomina e a inteligência parece um ator secundário. Mas nem tudo é instinto, no futebol. Se assim fosse, o jogo deixaria de ser jogo. Para mim, não há jogos, há pessoas que jogam. E portanto nem tudo é instinto no futebol. Não é lícito, portanto atribuir ao futebolista uma essência fixa, uma natureza determinada. Com efeito, o futebolista é homem, antes de ser jogador.

                E aqui fica a síntese de uma conversa, não sei de em estilo demasiado correntio, entre o Prof. Gustavo Pires e eu.                                        

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