Gerir e Liderar Equipas: Quanto vale o treino emocional? (artigo de João Oliveira)

Espaço Universidade 24-05-2018 23:43
Por João Oliveira

Qual é o nível de importância que atribui à qualidade da interação nas equipas, neste preciso momento? Quer que as equipas e atletas consigam os melhores resultados possíveis? Deseja ter recursos para ultrapassar os obstáculos que as equipas enfrentam, de forma a ser bem-sucedido? Aspira a desenvolver equipas em que o todo é superior à soma das partes?


Tinha uns 16 anos e jogava basquetebol numa boa equipa, que disputava todas as provas em que entrava, para vencer. Havia uma equipa concorrente, que também desejava vencer todas as provas, contudo sempre que jogávamos com essa equipa, nos últimos 10 minutos parecia que “voávamos”, enquanto que essa equipa parecia que ficava “sem gasoline” e, por isso, acabávamos por vencer. Aprendi, nessa altura, que a componente física era determinante, no sucesso desportivo das equipas.


Acredita que as questões FÍSICAS são essenciais, para o sucesso desportivo das equipas desportivas?


Por altura dos meus 13 anos, tive a sorte do treinador da equipa de seniores, treinar simultâneamente a minha equipa de iniciados. Provavelmente, o melhor treinador português desse tempo e de muitos mais anos, era o nosso treinador. Num determinado treino, recordo como se fosse hoje, a determinada altura do treino, colocou-nos a jogar 5 contra 0 em meio campo e explicou-nos um conjunto de movimentos pré-estabelecidos, para coordenar as ações do ataque. A minha equipa repetiu esses movimentos, depois outros 5 jogadores repetiram os mesmos movimentos e passadas algumas repetições, começamos a jogar 5x5 em meio-campo. Nesse momento, como a minha equeipa estava a defender e sabia o que é que os atacantes iam fazer, antecipava-me aos seus movimentos e “roubava” a bola. Como os adversários também já sabiam o que a minha equipa ia fazer, estavam igualmente à espera que seguisse a “letra da tática”, tal qual um pianista segue a sua “partitura” e prontos para antecipar os meus movimentos e “roubarem-me” a bola. Contudo, em vez de seguir a “letra da música” seguia o seu “ritmo”, atacando os espaços livres, em vez do que me era suposto e os adversários já esperavam. Surpreendia-os, mas ao mesmo tempo era repreendido, por me desviar do plano tático. Por esta altura, aprendi que a tática era importantíssima, para o desempenho desportivo das equipas.


Considera a TÁTICA decisiva, para as equipas desportivas serem produtivas?


Já enquanto treinador, a nossa equipa de seniores estava a jogar uma final da 2ª divisão. Um dos nossos jogadores era um excelente lançador. Já lá vão uns 15 anos e já treino equipas há 30 anos. Há muitos anos que realizo um exercício de lançamento em que se a pessoa que lança marca mais do que 30 é um excelente lançador, acima de 25 é muito bom lançador, acima de 20 bom lançador e abaixo de 20 necessita de melhorar a técnica de lançamento. Nos 30 anos de treinador, com experiências em vários países, vários níveis, vários escalões, com jogadores de várias nacionalidades, só tive (até ao momento) 3 jogadores que conseguiram marcar mais do que 30 lançamentos nesse exercício. Um desses três jogadores era o excelente lançador que estava na equipa que estava a disputar a final da 2ª divisão. Como era um excelente lançador, tinha como que “carta branca para lançar”. O jogo foi muito disputado, extremamente competitivo, mas acabámos por perder. No final, quando estava a analisar a estatística do jogo, reparei que esse excelente lançador tinha feito 0 em 9 de lançamentos de três pontos. Com esta experiência, aprendi que a TÉCNICA é outro dos componentes essenciais para o rendimento desportivo das equipas.


Para si, a TÉCNICA é importante para o sucesso desportivo das equipas?


Estes fatores técnicos, táticos e físicos eram determinantes e passeia estudá-los, fiz cursos de treinador, licenciei-me em ensino da Educação Física, tirei o Mestrado em Ciências do Desporto, frequentei clinics nos Estados Unidos, escrevi 2 livros sobre basquetebol. Ou seja, “tornei-me” num especialista nas questões físicas, técnicas e táticas do basquetebol.


Parecia que tinha todas as ferramentas que necessitava, para as equipas serem bem-sucedidas.


A determinada altura, estava a treinar uma outra equipa de seniores da 2ª divisão e tinha 12 bons jogadores. A prova iniciou e começamos a vencer, a competição continuou e as vitórias iam-se somando, até que chegamos à final da zona norte, contra uma equipa que tinha 5 bons jogadores. Estava em causa uma subida de divisão. A vitória nesse jogo representava uma subida de divisão. O jogo foi muito equilibrado, mas no final não vencemos.


Queria muito vencer aquele jogo, tinha-me preparado, durante anos, do ponto de vista técnico, tático e físico, tinha 12 bons jogadores e mesmo assim não vencemos esse jogo, contra 5 bons jogadores.


Sabia que a técnica, a tática e o físico eram, são, muito importantes, para o sucesso das equipas desportivas, mas que HAVIA MAIS coisas importantes, para além destas, que influenciavam o sucesso das equipas.


Percebi que as equipas são sempre diferentes da soma das partes.


Como é que 12 podia ser inferior a 5? O que é que podia tornar 5 maior do que 12? Se fosse capaz de responder a estas duas perguntas, provavelmente da próxima vez que treinasse uma equipa com 12 bons jogadores, não os iria tornar em menos do que a soma das partes e quando estivesse do outro lado e treinasse uma equipa com 5 bons jogadores, poderia ter mais hipóteses de vencer as equipas que tivessem 12 bons jogadores.


O que podia fazer diferente, para obter resultados diferentes (melhores)? Como é que o todo pode ser mais do que a soma das partes? Como podia Desenvolver Equipas Eficazes?


Comecei a estudar teamwork, team building, sociologia, psicologia e descobri a área que tem por objeto de estudo o desenvolvimento das equipas. Percebi que havia muita informação sobre este tema, conheci o Professor Doutor José Miguez (especialista nesta área), fiz parte do Centro de Investigação e Treino para o Trabalho de Equipa da agora Porto Business School, fiz formação nesta área em Inglaterra e nos Estados Unidos e acabei por realizar um doutoramento na área do desenvolvimento das equipas, na Faculdade de Psicologia e de Ciências das Educação, da Universidade do Porto.


Durante estes anos de estudo e trabalho, as surpresas foram muitas. Por exemplo, verifiquei que haviam artigos publicados em revistas científicas, sobre o desenvolvimento das equipas, desde 1956 – há mais de 60 anos. Quando lia esses artigos ou livros, sobre a área do desenvolvimento das equipas, parecia que estava a ler relatos sobre situações por que tinha passado nas diferentes equipas que tinha treinado e em que tinha jogado. Como era possível pessoas nos anos 50 e 60, por exemplo, estarem a descrever situações que eu tinha vivido nas minhas equipas nos anos 90?

Aprendi várias coisas. Entre elas, que para as equipas se tornarem eficazes, há um processo ou jornada a “percorrer”, que simplificadamente, poderá envolver 4 fases. Que essas 4 fases têm 2 eixos estruturantes, numa perspetiva sócio-técnica, o eixo social e o eixo técnico. O eixo técnico ou tarefa, poderá incluir a técnica, a tática, a parte física, mas também a preparação de viagens, estágios, (…). O fator social, onde podemos incluir a interação, o socio-afetivo, o sócio-emocional ou duas das sete inteligências, concretamente, a intrapessoal e a interpessoal. Enquanto na dimensão tarefa, o treinador gere esses processos da equipa, na dimensão interação o treinador influencia ou lidera os aspetos sócio-emocionais. Assim o treinador gere e lidera equipas. Aprendi que, do mesmo modo que um barco, para chegar a “bom-porto”, necessita de tomar uma direção, levantar velas e ter vento para iniciar a sua jornada; necessita de superar as tempestades; necessita de passar de um cruzeiro em que uns trabalham e outros desfrutam; e necessita de processos para navegar e manter-se a todo o vapor; também as equipas passam por uma fase de formação, de conflitos e de reorganização para serem eficazes. Ou seja, a dimensão sócio-emocional e portando as exigências ao nível social e emocional vão mudando ao longo do tempo e das circunstâncias. Aprendi que em cada uma dessas fases há coisas que aproximam o “barco do seu destino” e que há outras que retardam ou afastam as equipas do seu objetivo. Imagine-se a jogar o jogo da corda, em que duas equipas puxam cada uma para o seu lado. A força que a sua equipa realiza para vencer o jogo da corda, são as primeiras, as forças impulsoras, enquanto a força que a outra equipa faz são as segundas, as forças restritivas e que será mais fácil e eficiente, para uma equipa, chegar ao seu destino, objetivo, se enfraquecer as forças restritivas de cada umas dessas 4 fases de desenvolvimento, como se estivesse a jogar o jogo da corda com cada vez menos pessoas, do outro lado a puxar. Aprendi que existem 15 forças restritivas fundamentais a superar no plano sócio-emocional, para as equipas serem eficazes e aprendi que do mesmo modo que os treinadores têm conhecimentos e estratégias para influenciar a técnica, tática e o “físico”, também há conhecimentos e estratégias para os treinadores influenciarem a interação social e emocional das equipas.


Mas qual é o valor desses conhecimentos e estratégias, no plano sócio-emocional?


Num dos estudos do meu doutoramento, realizado com equipas desportivas, um dos dados encontrados foi surpreendente: quando comparamos a perceção da produtividade das equipas que estavam numa fase de desenvolvimento mais avançada com as equipas que estavam numa fase de desenvolvimento mais atrasada, observamos que as equipas mais desenvolvidas exibiam uma perceção da produtividade 31% superior e que essa diferença era estatisticamente significativa.


Ou seja, se a sua equipa esta época venceu 20 jogos e não fez qualquer treino de inteligência intrapessoal e interpessoal, poderia eventualmente ter vencido até 26 jogos, se tivesse incluído o treino da dimensão sócio-emocional nas suas rotinas de trabalho. Se, por exemplo, uma dessas vitórias fosse na liga dos campeões, poderíamos estar a falar que o treino sócio-emocional teria valido 1.5 milhões de euros.


Mas este treino e o seu impacto não se circunscreve apenas ao desporto. Qual seria o valor de aumentar a produtividade da nossa indústria, das nossas empresas até 31%?


Concluindo: o treino da interação, do sócio-emocional ou da inteligência intrapessoal e interpessoal é uma realidade com conhecimentos e estratégias concretas, está disponível e poderá ter um impacto na produtividade das equipas até 31%.


Neste preciso momento, atribui a mesma importância à qualidade da interação nas equipas?


João Oliveira é Doutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, formador em Desenvolver Equipas Eficazes e Motivação na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto e professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia - ISMAI.

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