A “esquerda” e a “direita” …(artigo de Manuel Sérgio, 240)

Ética no Desporto 03-05-2018 22:41
Por Manuel Sérgio
Já não o via, há muito. Foi meu colega, nos Armazéns do Arsenal do Alfeite. Onde trabalhei, entre 1952 e 1965. Encontrei-o, na Avenida 5 de Outubro, em Lisboa. A alturas tantas da nossa “conversa em movimento”, reteve-me pelo braço e inquiriu: “Na próxima eleição para a Presidência da República, se concorrer o Marcelo, em quem votas tu?”. Desabafei, sem problemas: “Se concorrer o Marcelo, é bem possível que vote Marcelo”. E ele também não tardou a responder, de rosto sorridente: “Digo o mesmo: se o Professor Marcelo concorrer, aposto nele”. E questionou-me; “É um tipo amigo das pessoas, não é?”. Eu prossegui a conversa e acrescentei: “É amigo das pessoas e muito inteligente, que é uma tremenda vantagem! Mas… tu votas no Marcelo só pela sua simpatia? E os méritos intelectuais e morais?”. E ele: “Estou-me nas tintas para as ideias. Se for simpático, para mim, é o bastante”. Aquele meu velho companheiro de trabalho, como quase toda a gente, não parece ter outros critérios válidos, para eleger o Presidente da República Portuguesa, para além dos afetivos. A maior parte dos jornalistas também passam mais tempo a indagar a personalidade dos candidatos às eleições do que a analisar as suas ideias e a sua prática política. Escolhe-se um Presidente da República pela sua simpatia e pelo seu sorriso e pela sua cordialidade. Ninguém ganha eleições por ser um santo. O Padre Cruz seria, com toda a certeza, um péssimo Presidente. E os discursos da Madre Teresa de Calcutá, por mais acesos que fossem pelos afetos, não teriam, de certo, a audiência suficiente, para uma eleição de tamanha responsabilidade. Já o Maquiavel o dizia: não é o mais virtuoso que ganha as eleições, mas quem obtiver mais votos. A política nunca foi filantropia. A moral aponta os fins, a política sublinha os meios. Coisas diferentes, como se vê…
No entanto, no tempo em que vivemos, uma certa “esquerda” e uma certa “direita” fazem a mesma política, têm moral idêntica. E porquê? Porque a economia em que acreditam é precisamente igual: a economia capitalista. Não há modelo alternativo ao capitalismo? Embora as certeiras críticas de Marx ao capitalismo, o amoralismo capitalista venceu, para já, o imoralismo das ditaduras ditas socialistas. O capitalismo “é um sistema económico, fundado na propriedade privada dos meios de produção e de troca, com base na liberdade do mercado e no assalariado”. Mas, porque ao capital só lhe interessam os trabalhadores que produzam mais do que recebem (a famosa “mais-valia) há, nele, também uma inequívoca imoralidade: alguns (poucos) podem enriquecer sem trabalhar e a maioria (os trabalhadores) consomem-se a trabalhar e continuam pobres. O capitalismo tem sido, de facto, o modelo económico ideal, mas à custa de uma evidente injustiça social. Deverá lembrar-se que, no mundo atual, que o capitalismo domina, 62 multimilionários possuem a mesma riqueza de 3,5 mil milhões de pobres; que 871 milhões de pessoas sobrevivem, com fome crónica, alimentando-se de ressentimentos e esperando cegamente por amanhãs que nunca virão; que 250 milhões de emigrantes não encontram o conforto de um lar. E os 2400 milhões de dólares que se esfumam, nos paraísos fiscais? E o tráfico de droga, com um volume de negócios de cerca de 300 mil milhões de dólares? Mas será estultícia pretender fazer do capitalismo uma escola moral, ou do mercado uma religião. O capitalismo está-aí, para criar riqueza e… nada mais! E uma questão, a propósito: era moral o socialismo leninista? “Para nós (disse ele) a moral está subordinada aos interesses da luta de classes do proletariado”. Com pensamento único e partido único, sabemos onde desaguou o apotegma: numa ditadura terrível, que se chamou estalinismo.
Confiemos no julgamento da História, que sabe conferir a devida proporção às ações humanas, sejam elas de “direita”, ou de “esquerda”. Poderia citar aqui a conhecidíssima frase de Marx: “São os homens que fazem a sua própria história, não nas condições escolhidas por eles, mas nas condições dadas diretamente e herdadas do passado”. Ora, se são os homens que fazem a sua própria história, tanto uma “direita” imbuída dos valores da tradição, mas esclarecida e renovada, como uma “esquerda” que não esqueça a autonomia relativa das superestruturas (recordo A Ideologia Alemã: “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência”) – tanto na “direita”, como na “esquerda” (e escondo agora a minha simpatia política), mesmo nos momentos de labor honesto e perseverante, há erros a lastimar, há pecados por absolver. Infelizmente, não é o dever que norteia a economia, é o mercado. No futebol, também não é o dever, é a paixão. Kierkegaard, se não estou em erro, chegou a escrever que “só uma grande paixão nos permite viver plenamente”. Desmond Morris, no seu The Soccer Tribe, rematou de maneira lapidar: “Os mais importantes membros da Tribo do Futebol são os jogadores”. Para mim, e desde rapaz, o mais importante membro da Tribo do Futebol é o adepto (o “torcedor”, no português-brasileiro). O profissionalismo e a constante rotatividade de jogadores, nos Clubes, faz do adepto o 12º. Jogador e o que mais amor sente pelo emblema da sua coletividade desportiva e… em tempo integral! O futebolista, ao invés, quando muda de clube, muda também de conduta, pois que tem que “dar tudo”, pelo seu novo patrão. Em conversa com um treinador de futebol, ele aduziu uma série de argumentos para convencer-me que já não tinha clube da sua predileção. Cito este: “Professor, eu não sou treinador do Benfica, ou do Sporting, ou do Porto – eu sou treinador de futebol!”.
O desporto de altos rendimentos, para dar lucro, tem de ser espetáculo interpretado por atletas superdotados e supertreinados, seja o espetáculo promovido e organizado pela “direita”, ou pela “esquerda”. Os reformadores, os especialistas, sabem isto bem melhor do que eu e sabem também que com alguns dos atuais dirigentes não há reforma possível. Precisamente porque estes “agentes do desporto” são o problema, não esperemos portanto que eles saibam (ou queiram) resolver os problemas. Ninguém reforma se, antes, não se reformou. Com dirigentes que apostam no populismo, no messianismo, no economicismo, não há reforma possível. Uma reforma começa, quando o reformador ganhou a coragem de pôr em questão o que diz e o que faz. Como ensinou Paulo Freire: “Um reino de paz imperturbada é impensável na História. A História é sempre um tornar-se; é um acontecimento humano. Mas, em vez de me sentir desapontado e receoso, pela descoberta crítica da tensão em que a minha humanidade me colocou, eu descubro nessa tensão a alegria de ser” (in Brotéria, Fevereiro de 1996, p. 157). É da des-ordem que normalmente nasce uma ordem nova. No laboratório, ou na sala de estudo do cientista, não se escutam sentenças definitivas, não se ostenta a segurança das credenciais, mas o que se descobre é o fascínio da curiosidade e a vontade imparável de conhecer. O racionalismo e o empirismo europeus, donde nasceu a revolução científica moderna (a de Bacon, Copérnico, Galileu, Descartes, Newton e Kant), os Descobrimentos Portugueses e a obra época e lírica de Camões – o racionalismo e o empirismo europeus impuseram-se em luta contra a Inquisição e contra o absolutismo régio. Jesus de Nazaré foi explícito: “O reino de Deus está dentro de cada um de vós!”, ou seja, ressoa, dentro de cada um de nós, um apelo incessante de transcendência. Se não me liberto dos meus vícios, das minhas limitações, das minhas imperfeições, não poderei ser um reformador, o semeador de um mundo novo. Seja de “direita”, ou de “esquerda”…

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