O valor económico do desporto (artigo de António José Silva, 4)

Espaço Universidade 14:54
Por António José Silva

A Quantificação e o efeito multiplicador da organização de eventos de natação em Portugal A relevância axiológica do desporto deve ser compatível com a sua relativa importância e valorização sociais, num contexto onde as pessoas do século XXI são protótipos de uma exclusão real, nativos digitais, e vivem num mundo cujas estruturas sociais e económicas não conseguimos hoje vislumbrar completamente. Este facto justifica a investigação em áreas cujas implicações não se resumem só e somente ao desporto enquanto prática sistemática. O estudo do impacto económico do desporto é relevante não só para quantificar a sua real dimensão, que se desconhece em pormenor, mas também para avaliar o efeito multiplicador para o sistema desportivo e catalisador de externalidades positivas para outras áreas e sectores de atividade. Quando abordamos a questão do orçamento público e/ou semipúblico do estado no desporto, várias vezes é assumido o sofisma mistificador de que os resultados ficam aquém do esforço financeiro assumido pelo estado central. Desde logo duas questões são prementes: qual é afinal o esforço financeiro do estado, em sede de orçamento para o desporto? (1); de que retorno financeiro falamos quando discutimos os impactos? (2). Em 2017, o orçamento para o desporto foi de 36 milhões de euros. Quando reportamos a origem deste financiamento verificamos que a grande maioria é resultante das verbas com os jogos sociais que com base no enquadramento legal (DL n.º 56/2006, de 15 de março, alterado pelos DL n.º 44/2011, de 24 de março e DL n.º 106/2011, de 21 de outubro) atribui ao IPDJ (órgão que tutela o desporto em Portugal) cerca de 9.85% deste montante o que representou uma verba de cerca de 60 Milhões de Euros, da verba total arrecadada pelo Estado de arrecadou cerca de 650 milhões euros. A questão que se levanta é saber se o desporto, com a importância social que tem em todos os domínios e para além dos retornos (não económicos e económicos), não justificaria um investimento, em sede de orçamento público, maior do que este verificado atualmente remetendo-o para o domínio do casuístico e dependente das adições decorrentes dos jogos sociais. Os resultados, estritamente económicos, são significativos, não só os relativos ao sistema desportivo, mas também os que decorrem das externalidades positivas para outras áreas de atividade, quer no contexto internacional quer nacional. Na União Europeia (UE), o desporto constitui um setor económico de importância significativa, representando 1.76% do valor acrescentado bruto da EU, com uma quota parte nas economias nacionais comparável à dos setores da agricultura, da silvicultura e das pescas combinados. No que diz respeito ao mercado de trabalho, o emprego relacionado com o desporto representa 2.12% do emprego total na UE. Na Inglaterra, o último estudo realizado pela “Sport England” publicado em 2013, concluiu que o valor económico do desporto, relativo a 2010 gerou um valor acrescentado bruto (VAB) de 20.3 biliões de libras, representando 1.9% do valor total, o que posicionava o desporto como uma das 15 indústrias de topo. Por outro lado o desporto e a atividade relacionada suportavam cerca de 440.000 empregos a tempo completo (ETC), representando 2.3% de todo o emprego em Inglaterra, sendo 65% derivados da participação no desporto e os demais 35% do consumo afeto ao desporto. E em Portugal? O Instituto Nacional de Estatística divulgou os resultados da CSD para o triénio 2010-2012, com três grandes conclusões: (1) o desporto representou em média 1.2 % do VAB; (2) representou 1.4% dos ETC da economia portuguesa; (3) a remuneração média na CSD excedeu em cerca de 5% a remuneração média nacional, com dimensão económica semelhante ao ramo da metalomecânica, informática, vestuário, arquitetura e engenharias e técnicas afins. Para além destes indicadores diretos, à escala nacional e europeia, há que quantificar o retorno que decorre da diminuição dos custos diretos e indiretos com a morbilidade e/ou mortalidade decorrente de doenças hipocinéticas. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) mais de 80% dos casos de doenças coronárias, 90% de diabetes tipo 2 e um terço das doenças de cancro poderiam ser evitadas pela alteração de hábitos alimentares, prática de desporto e atividade física e consumo de tabaco. Considerando o Orçamento de Estado para 2016 e a distribuição percentual média das despesas de saúde por doença, a poupança efetiva nas despesas de saúde que resultaria de um incremento cientificamente sustentado das atividades desportivas seria de 1.349.930.075,00€. Indicadores idênticos são publicados pela Lancet, nas edições que revisitam as edições olímpicas (2012; 2014; 2016). Os dados analíticos dos impactos decorrentes da organização de eventos desportivos são pouco conhecidos, porque existem poucos estudos, no contexto nacional. A propósito da etapa mundial de surf em Peniche, o estudo do Instituto Politécnico de Leiria de 2016 refere que os portugueses gastaram em média 38.48 euros por dia e os visitantes estrangeiros fizeram uma despesa diária de 148,70 euros com este evento que gerou 10.6 milhões de euros. Outro exemplo é Ponte de Lima, que recebeu o campeonato nacional de maratona e tem vindo a apostar cada vez mais na canoagem. Estima-se que os eventos relacionados com a prática da canoagem dinamizam a economia local de forma muito significativa, especialmente nas áreas da restauração, alojamento e comércio, num valor aproximado anual na ordem dos 3 milhões de euros. O Golfe atrai estrangeiros, cerca de 300 mil turistas anualmente. Portugal recebe 120 milhões de euros em receitas diretas. E na natação? Os dados eram desconhecidos. Foi nesta ótica que surgiu a necessidade de representar e quantificar o valor económico dos eventos organizados pela FPN dando resposta a duas necessidades: i) conhecer o que vale a marca FPN em termos de impacto para poder definir estratégicas de crescimento futuro ao nível do ajustamento dos cadernos de encargo da organização de competições nacionais; ii) ter a noção exata da nossa dimensão para negociar a exploração comercial das nossas competições no mercado da sponsorização, merchandising e naming das competições. Quando analisamos o último trabalho de investigação solicitado pela FPN à Universidade da Beira Interior, da autoria de Pedro Guedes de Carvalho, sobre esta temática verificamos que no conjunto do calendário competitivo nacional na natação com cerca de 30 provas (natação Pura, natação adaptada; natação artística, águas abertas, masters e polo aquático) a FPN: 1. Despendeu cerca de 353.000,00€ com aquisição de materiais de consumo diverso, serviços especializados de apoio, disponibilização de colaboradores, arbitragem, atletas e diversos; 2. O volume de despesa realizado pelos atletas, dirigentes e treinadores foi no global de 534.080,00€; 3. O impacto direto que o público teve foi de cerca de 701.725,00€. Considerando estes valores conclui-se que houve um efeito multiplicador cujo impacto global, das provas organizadas pela FPN em 2017, se cifrou na casa dos 3,5 M€, cujo efeito direto é fundamentalmente verificado na hotelaria, restauração e comércios locais. Estes dados não incluem os resultados financeiros decorrentes da exposição mediática (media e redes sociais) que fariam multiplicar estas externalidades positivas. Está, por isso, mais do que justificado o investimento regional/local na organização de eventos pelo efeito multiplicador nas externalidades positivas que possui. António José Silva, presidente da Federação Portuguesa de Natação

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