Factos, diferenças, rumos (artigo de Aníbal Styliano, 52)

Espaço Universidade 17-03-2018 21:31
INTRODUÇÃO
Saudades tenho do futuro e também daqueles que sempre lutaram contra a prepotência e a perseguição às liberdades. Sendo justos, não podemos esquecer tempos durante os quais também alguns jornais e jornalistas desportivos eram desvalorizados (por uma pseudo elite servil, sem caráter e reumática intelectualmente) porque conseguiam driblar a censura, cruzar para espaços livres e obter entendimentos que equivaliam a golos de letra.
A leitura das suas páginas aportava o sentido de grande jogo em relvado muito inclinado e perigoso.
A esses exemplos de cidadania a minha constante homenagem.
Hoje, os detratores do desporto, particularmente do futebol (sempre desconsiderado talvez por inveja de quem o não conseguia jogar e apreciar) invadem espaços que abominavam com um entusiasmo e motivação estranha, sempre interesseira e mesmo grosseira.
Quase parece um ataque concertado, vindo de dentro mas muito disfarçado.
Lançam-se calúnias cirúrgicas, inventam-se boatos que voam muito rápidos e com consequências ferozes, e novamente o futebol aparece como campo não de jogo mágico mas de batalha cobarde e de ódios.
Extremam-se posições em função dos resultados desportivos, envolvem-se inúmeros fatores e personagens de todas as maneiras, com e sem argumentos, só porque sim e contra os outros.
Criam-se gabinetes de” crise” e o país, por momentos que duram muito, fica aprisionado esquecendo as promessas por cumprir dos eleitos.
O que unia e fortalecia entendimento, caminha para separar… a não ser que o jogo nunca se deixe aprisionar pelo negócio sem regras.
Limitemo-nos para já aos números (que valem o que valem).

Tendo como base três únicos aspetos - hábitos desportivos, índice de corrupção e realidades do futebol – várias questões se podem colocar numa pequena reflexão paralela, considerando o nosso país em relação à Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca.
Devemos ter sempre como metas a evolução e nunca o retrocesso.

FACTOS
1- Ranking da União Europeia (UE) em relação à percentagem de habitantes que nunca praticam desporto (Fonte FPF):
1.º Suécia (9%)
2.º Dinamarca (14%)
3.º Finlândia (15%)
Média da UE – 28 países (42%)
26.º Portugal (64%)

2- Índice de perceção da corrupção à escala mundial (escala de 0 – mais corrupto; a 100 pontos – sem corrupção):
1.º Nova Zelândia (89 pontos)
2.º Dinamarca (89 pontos)
3.ºs Finlândia e Noruega 85 pontos)
Média da UE – (66 pontos)
29.º Portugal (60 pontos)

3- Realidades do futebol:
Seleção da Dinamarca:
- Jogos Olímpicos: prata em 1912 e 1960, bronze em 1948
- Campeonato da Europa: 1.º lugar em 1992
- Campeonato do Mundo: 4.º lugar em em 1998
Taça das Confederações: 1.º lugar em 1995

Seleção da Suécia:
- Jogos Olímpicos: ouro em 1948, bronze em 1924 e 1952
- Campeonato da Europa: 4.º lugar em 1992
- Campeonato do Mundo: Vice-campeão em 1958, 3.º lugar em 1950 e 1994; 4.º lugar em 1938.

Seleção da Noruega:
- Jogos Olímpicos: bronze em 1936

Seleção da Finlândia:
- Sem títulos

Seleção de Portugal:
- Campeonato Mundial – 3.º lugar (1966) e 4.º Lugar (2006)
- Campeonato Europeu - 1984 (semifinalista), 1996 (quartos definal), 2000 (semifinalista), 2004(finalista), 2008 (quartos de final), 2012 (semifinalista) e 2016 (vencedor).
- Em relação aos títulos internacionais obtidos quer por várias seleções (seniores e jovens) quer por clubes, Portugal possui um currículo muito mais vasto e reconhecido.
Principalmente pela quantidade de talentos (jogadores e treinadores) mas também pelos contínuos investimentos (eventualmente elevados em relação às nossas capacidades financeiras).
Neste momento, Portugal ocupa o 3.º lugar, logo a seguir à Alemanha e ao Brasil e à frente da Argentina, Bélgica, Espanha, Polónia, Suíça, França e Chile.
Vários portugueses desempenham funções de destaque quer na FIFA quer na UEFA.

Ranking mundial de futebol feminino:
5.ª Suécia
11.ª Noruega
15ª Dinamarca
24.ª Finlândia
38.ª Portugal

Ranking Seleções masculinas FIFA:
3.º Portugal
12.º Dinamarca
19.º Suécia
57.º Noruega
68.º Finlândia

Ranking Educação
1.º Finlândia (estatal e gratuita)
3.º Suécia
14.º Dinamarca
17.º Noruega
32.º Portugal

DIFERENÇAS
Os países que escolhemos revelam uma generalizada prática de hábitos desportivos (mais praticantes), uma excelência no setor da Educação onde são apontados como os melhores, uma qualidade de vida onde a perceção da corrupção é reduzida.
São países onde a justiça é uma segurança e referência para os cidadãos, que certamente investem menos no futebol profissional, por uma questão de prioridades.
Os políticos não são considerados como “casta especial” mas sim cidadãos como os outros com as mesmas exigências.
Portugal tem características fantásticas, cidadãos solidários, muito talento em várias áreas e muitos concidadãos a liderarem organizações internacionais e grandes empresas globais, embora internamente com uma crise de dirigentes com visão.
Mesmo sem analisar os “pequenos” defeitos que se perpetuam, continuamos sem conseguir definir rumos para futuros sustentáveis e redução das injustiças que proliferam.
Faltam exemplos mobilizadores de verticalidade com coerência em prol do serviço público.
Há sempre quem se sirva sem olhar a meios, impunidades a pagar a cargo dos cidadãos que nada tiveram com isso, uma política educativa em constantes mutações e contradições, uma agenda desportiva provavelmente secreta e “pequenina” e uma preocupante questão de justiça e de assistência social.

RUMOS
Custa-me acreditar que em qualquer parlamento/corte dos países indicados, um primeiro ministro, num debate sobre uma conjuntura de ataque e violação da justiça, se dirigisse ao líder do maior partido da oposição com frases do tipo: “Nós temos esta informação de um clube que por caso nos une” e “mesmo tratando-se de um clube «querido» a ambos, não iria especular sobre uma matéria em investigação judicial”… futebolização da vida nacional? Dá que pensar…
E uma clara e firme estratégia nacional para combater a corrupção?
A corrupção não é ”apenas” mais um escândalo mediático ou uma questão de justiça, é mesmo uma prioridade civilizacional ao nível da importância da prevenção dos fogos trágicos: afeta todos.
Também é difícil ouvir um ex-Secretário de Estado (do Desenvolvimento Regional que já o tinha sido do Desporto) a “sugerir” de forma indireta a demissão do Secretário Geral do seu partido, quando no passado, em “guerra com o futebol” afirmou que a Seleção Nacional não era de Portugal mas somente da FPF.
Os erros são antigos e nunca corrigidos.

Como num anúncio televisivo em que CR7 dialoga com um robô de forma feminina, dá vontade de concluir: “Ó pá, isto foi feito só para alguns clubes”.

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol
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