Prof. Moniz Pereira: Sob o Signo de Pierre de Coubertin (artigo de Gustavo Pires, 84)

Espaço Universidade 04-03-2018 18:22
Por Redação
Como noticia o jornal “A Bola” (2018-03-03) vai ser inaugurada no dia 6 de Março no Museu do Desporto (Palácio Foz / Restauradores) pelas 16.00 horas da tarde uma sala (escritório) dedicada à memória do Prof. Moniz Pereira, falecido, aos 95 anos de idade, a 31 de julho de 2016. Simultaneamente, será inaugurada uma exposição biográfica do Prof. Moniz Pereira.

Conheci o Prof. Moniz Pereira em meados do mês de Novembro de 1968, quando, acompanhado do meu colega e amigo João Marcelino, como alunos do 1º ano do Instituto Nacional de Educação Física (INEF), pela primeira vez, entrámos no Salão Nobre da hoje Faculdade de Motricidade Humana, a fim de assistirmos a uma palestra do Prof. Moniz Pereira sobre os Jogos Olímpicos da Cidade do México (1968), cuja cerimónia de encerramento tinha ocorrido no dia 27 de Outubro. Foi a primeira vez que, de uma forma sistematizada e com conhecimento de causa, ouvi falar de Olimpismo e de Jogos Olímpicos.
A conferência decorreu com o estilo próprio do Prof. Moniz Pereira que tinha o condão de prender o interesse da assistência sempre que discursava. Foram abordados assuntos como a tragédia da Praça das Três Culturas ocorrida na cidade do México dez dias antes do início dos Jogos, os vários aspetos de ordem biológica suscitados pela circunstância da cidade do México estar situada a 2300 metros de altitude, o afastamento da África do Sul, a técnica do “fosbury flop”, a afronta ao poder imperial soviético da ginasta checoslovaca Věra Čáslavská e, entre outros, a posição política dos atletas americanos Tommie Smith e John Carlos. Todavia, o que mais me marcou para a vida da conferência do Prof. Moniz Pereira foi o facto de ele ter dito que, enquanto pudesse, havia de estar presente nos Jogos Olímpicos. Não sei se, ao tempo, tive consciência do significado de tal afirmação, mas o que sei é que ela me ficou para a vida.
Mas porque?
Porque é que quele desejo do Prof. Moniz Pereira me acompanhou ao longo de toda a vida ao ponto de eu, passados que estão, praticamente, cinquenta anos ainda a recordar?
Porque, aquele desejo, para além de tudo, significava: (1º) Um ato de liberdade e de afirmação individual; (2º) A capacidade prospetiva de sonhar – ver longe e com amplitude; (3º) A realização de um ideal de vida ao serviço da comunidade; (4º) Um sentido de projeto com uma extraordinária capacidade de execução; (3º) O estar na vida numa entrega total aos atletas para além dos circunstancialismos e dos atritos das dificuldades do dia-a-dia.

Anos mais tarde, acabei por perceber bem melhor a importância daquela afirmação do Prof. Moniz Pereira no quadro do paradigma de educação física e do próprio INEF bem como relativamente ao processo de desenvolvimento do desporto nacional. Quer dizer, aquele desejo do Prof. Moniz Pereira tinha um significado muito para além do extraordinário projeto pessoal de vida que a generalidade dos portugueses teve a oportunidade de assistir ao longo dos últimos anos. Aquele desejo ultrapassava as circunstâncias do próprio Prof. Moniz Pereira porque, do ponto de vista ideológico, representava a assunção clara e definitiva do paradigma do desporto numa instituição – o INEF – criado em 23 de Janeiro de 1940, cujo curso de habilitação para professores de educação física devia ser ministrado “segundo os princípios do método de Ling, tendo em atenção as condições mesológicas do nosso País e a capacidade físico-psicológica da raça”.
Quer dizer, aquela atitude assumida em meados de Novembro de 1968 perante o Salão Nobre do INEF cheio de alunos e professores, embora o discurso “politicamente correto” não o pudesse admitir, significava que, em termos epistemológicos, a Escola estava a dar uma espécie de um “salto quântico” ao assumir o paradigma do desporto, de uma forma clara e aberta, para além do paradigma da educação física e da velha ginástica de Ling. Naquele momento, estou em crer, o Prof. Moniz Pereira foi, certamente, bafejado pelo espírito de Pierre de Coubertin.
Porquê?
Porque Pierre de Coubertin ao instituir o Movimento Olímpico moderno não o criou, dentro do paradigma da educação física. Como ele afirmou nas suas memórias, quando, a 25 de Novembro de 1892, no âmbito das comemorações do quinto aniversário da “Union des Sociétés Françaises des Sports Athlétiques” (USFSA), no grande auditório da Sorbonne em Paris, apresentou uma conferência intitulada “Os Exercícios Físicos no Mundo Moderno”, em que anunciou a intenção de desencadear o surgimento dos Jogos Olímpicos da era moderna, foram poucos aqueles que deram a devida importância às suas palavras. E, mesmo aqueles que lhes prestaram alguma atenção ficaram convencidos que se tratava do anúncio de mais uma escola de ginástica à semelhança das de Ling, Jahn ou Amoros que imperavam na Europa subordinadas ao quadro ideológico da educação física. Na realidade, Coubertin com o desporto e a institucionalização dos Jogos Olímpicos da era moderna desencadeou uma rutura, quer dizer, um corte epistemológico, com a educação física. Ao fazê-lo, ultrapassou os valores das diversas escolas de ginástica por os considerar demasiado biológicos e, fazendo-nos recordar o pensamento de Nietzsche sustentado na “vontade de poder” e na “vontade de viver”, a partir de 1892, desencadeou a “vontade de vencer”, em busca da superação e da transcendência, sustentada no agôn e no areté dos gregos antigos e na pedagogia de responsabilidade promovida, na primeira metade do século XIX, nas Escolas Públicas em Inglaterra. Neste sentido, em 1896, Coubertin dizia: “A noção de desporto é hoje, como ontem, a única força verdadeiramente ativa e durável em matéria de Educação Física. Se ela se apagar e desaparecer, a Educação Física apagar-se-á também como um balão que perde o ar”.
Ora bem, em Portugal, num ambiente grandes dificuldades políticas e sociais, foi o Prof. Moniz Pereira, aqueles que melhor protagonizou essa mudança de paradigma ao assumir o desporto e os Jogos Olímpicos como uma das vocações do Instituto Nacional de Educação Física num tempo em que o presidente da Associação de Estudantes do INEF organizava o boicote à realização em Portugal no ano seguinte (1969) da Universiada – Jogos Mundiais Universitários e a clique maoista nos “anos de chumbo” que se seguiram, saneava Professores no INEF, entre eles o Prof. Moniz Pereira, e invadia o Estádio Nacional impedindo a realização do Campeonato de Portugal de Atletismo. Naqueles anos o Prof. Moniz Pereira revelou uma coragem extraordinária na medida em que continuou a defender o desporto, o alto rendimento e os Jogos Olímpicos num ambiente em que a generalidade dos prosélitos da educação física criticava profundamente o desporto e a dinâmica competitiva dos Jogos Olímpicos.
Muito embora, hoje, se possa olhar para aqueles anos com uma certa benevolência e até com algum sentido de humor, contudo, isso não significa que se possa esquecer tudo aquilo que aconteceu até porque, esquecer o passado, é comprometer a organização do futuro. Nesta conformidade, é necessário compreender que todo aquele processo à revelia do 25 de Abril decorria sob a orientação ideológica do Livro Vermelho de Mao Tse Tung e de um escrito intitulado “Um Estudo de Educação Física”, onde o timoneiro da revolução maoista dizia: “A educação física não só harmoniza as emoções como também fortalece a vontade. (…) O principal desígnio da educação física é o heroísmo militar. Os objetos do heroísmo militar como a coragem, desafio, audácia e perseverança são questões de vontade”.
E porque é que a clique maoista, sem qualquer respeito, durante o Campeonato de Portugal de Atletismo (1975) invadia a pista do Estádio nacional?
Porque nutria um profundo menosprezo pelo Movimento Olímpico, pelo desporto e pela competição. A República Popular da China (RPC) em 1958 havia abandonado o Comité Olímpico Internacional (COI) bem como a generalidade das Federações Internacionais (FI) e, nos anos sessenta, conjuntamente com, entre outros, a Indonésia e a Coreia do Norte organizava os Jogos das Novas Potências Emergentes que tinham como objetivo fundamental ser uma alternativa aos Jogos Olímpicos. Os Jogos das Novas Potências Emergentes tinham como lema: “Primeiro a amizade, depois a competição. A amizade é eterna, a vitória passageira”. Nesta perspetiva, o Primeiro-ministro chinês Zhou Enlai, como consta no livro “He Zhenliang and China`s Olympic Dream”, instruía os dirigentes e os atletas, antes de partirem para os Jogos das Novas Potências Emergentes, no sentido de deixarem os atletas adversários da Coreia do Norte ganharem alguma competições sob pena do país, sem ter vitórias asseguradas para as exibir internamente, não aceitar participar nos jogos. Entre outras cenas dramáticas, atletas chineses houve, como nos conta Xu Guoqi no livro “Olympic Dreams – China and Sports 1895-2008) que, obrigados a perderem competições de ténis de mesa, acabaram por se suicidar.
Na linha do nivelar por baixo da Revolução Cultural Chinesa, o que aquela invasão do Estádio Nacional durante o Campeonato de Portugal de Atletismo significou foi um profundo desprezo pelos valores da competição justa, nobre e leal que a ideologia maoista com a Revolução Cultural pretendia destruir. Posteriormente, como o próprio Prof. Moniz Pereira recordou no 1º Congresso de História do Desporto, realizado em 2012 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, por estagiar com atletas no Algarve a fim de os preparar para os Jogos Olímpicos de Montreal (1976) era acusado de andar “a gastar o dinheiro do povo”. Todavia, o “dinheiro do povo” que o Prof. Moniz Pereira “andava a gastar”, a par do grande programa de promoção do desporto (através dos célebres “planos de desenvolvimento”) conduzido por Alfredo Melo de Carvalho na Direção Geral dos Desportos, havia de resultar na conquista de medalhas de prata, por Armando Marques (fosso olímpico) e Carlos Lopes (10 mil metros) nos Jogos Olímpicos de Montreal (1976) e, na relação massa / elite, num dos melhores Níveis Desportivos que o desporto nacional alguma vez já auferiu.
Entretanto, hoje, os anos passaram e os protagonistas daqueles “anos de chumbo” andam por aí, olimpicamente, muito atinadinhos, armados em inocentes meninas virgens, como se, há muito, não tivessem perdido a virgindade.
O Prof. Moniz Pereira acabou por estar presente em doze edições dos Jogos Olímpicos. A última vez foi nos Jogos Olímpicos de Atenas (2004). Só não foi a Pequim (2008) devido ao esgotante tempo de viagem que a sua idade já não aconselhava a suportar.
O país ficou-lhe a dever a abertura a uma conceção de atividade física, centrada no rendimento, na medida, no record, no espetáculo, no profissionalismo e nos Jogos Olímpicos, em busca da excelência e ao serviço do desenvolvimento humano. Da sua capacidade de sonhar, resultaram campeões como Carlos Lopes, Fernando Mamede, Domingos Castro, Dionísio Castro, Álvaro Dias, Manuel de Oliveira, Aniceto Simões e muitos outros.
Hoje, tenho para mim que a vida desportiva do Prof. Moniz Pereira decorreu sob o signo de Pierre de Coubertin.
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