CRESCER PARA VENCER!...(artigo de José Neto, 64)

Espaço Universidade 28-02-2018 00:10
Ainda na continuidade do pensamento do último artigo publicado, sublinho que o mundo emocional da criança está muito dependente da confiança em si própria, autocontrolo, devendo os pais experienciarem na vida aquilo que pretendem que seus filhos comunguem como exemplo, isto é, se querem que os filhos sejam honestos, devem praticar a honestidade, que sejam educados, exercerem os deveres da educação perante os outros, que sejam justos, praticarem a justiça, etc …

Os pais, através dos seus próprios comportamentos de vida, são geradores de confiança, acabando por ajudar a iluminar o bom caminho do relacionamento humano de quem lhes abriu as portas para a vida e dela recolhem os fundamentos da sua existência e onde tantas vezes apetece converter em gratidão e aplauso.
As crianças que se sentem amadas e reconhecidas pelos pais e outros familiares diretos, confiam mais nelas próprias e nos outros que com elas convivem, devendo por isso estes, sempre que possível acompanhar os treinos e jogos, encorajando e elogiando pelo esforço despendido, apoiando contudo nos casos em que a fragilidade pelo rendimento menos conseguido possa resultar em pesadelo.
É claro que tudo isto é muito aceitável e justificável, mas basta assistir a um jogo entre jovens, para quantas vezes ter vontade de abandonar a bancada ao ouvir certos pais em calorosas discussões, comentando de forma depreciativa o comportamento dos jovens jogadores, treinadores, árbitros e outros pais, interpelando constantemente no trabalho dos treinadores, criticando excessivamente os resultados, criando espectativas exageradas com fáceis elogios e atitudes de sobranceria, proibindo como forma de castigo a prática desportiva face aos maus resultados escolares, etc…etc…

Enfim, a impossibilidade de ter concretizado os seus sonhos, enquanto jovens, estes adultos originam exigências irrealistas aos filhos, sendo estes uma carga sem controlo e qualidade e no futuro vislumbram um olhar de angústia, recorrendo a práticas pouco ou nada recomendáveis, que a comunicação social por vezes comenta, outras vezes omite.

Como referia no artigo publicado nesta rubrica, para combater este flagelo da formação desportiva, felizmente que ainda encontramos muitos clubes com uma organização devidamente estruturada quer no aspeto cultural e formativo dos seus dirigentes e treinadores de jovens que respeitam as bases do treino, tendo em conta o grau maturacional do atleta, deixando fluir sem pressão as etapas de desenvolvimento, transmitindo o gosto pelo treino e pelo jogo, baseado numa aprendizagem e aperfeiçoamento contínuo, fazendo de cada jogo uma base de trabalho para a construção de uma planificação do treino devidamente adequada motivante e criativa.

Na sua dinâmica operacional, associam na formação da persistência a paciência. No código do seu registo de ação estão garantidos os valores da honestidade e a firmeza das convicções, dirigentes e treinadores, conselheiros e amigos, expondo pelo exemplo o seu modelo interventivo, sendo pacientes e tolerantes com os erros e com as dificuldades de aprendizagem, neste desígnio polar duma consciente fórmula de crescer para render.

Também a Federação Portuguesa de Futebol, através da exemplar liderança do Presidente Dr Fernando Gomes, ao criar recentemente a “Portugal Football School”, um projeto aliado a ciência ao ensino superior, dedicado à formação contínua de dirigentes, treinadores, árbitros, jogadores, profissionais de saúde, média ou famílias, vem duma forma quanto a mim notável, validar várias competências ao serviço da razão.
…!...
Permitam-me a propósito do tema em título e para terminar este artigo, a exposição de duas histórias de vida marcadas no tempo e que passarei a enunciar:

Na já distante década de 60 do pretérito século, um menino a despertar para a juventude, recorreu a um conhecido clube da terra, para satisfazer a vontade de prestar provas num treino em Futebol. Após lhe ter sido distribuído o equipamento, ao vestir os calções, verificou que estes estavam rotos, precisamente no local onde mais o jovem procurava proteger. Dirigiu-se ao roupeiro e pediu educadamente para satisfazer a troca, ao que lhe foi respondido: “ queres esses queres… e se não quiseres vai pró caralh…” O menino jovem não teve meias medidas, deixou o equipamento no vestiário, montou na sua usada pasteleira e dirigiu-se para o clube rival, aí a uma distância de 2 a 3 km. Estava uma velhinha a servir na rouparia e já com os cabelos da cor da neve, de olhos meigos e voz doce, perguntou ao menino/jovem o que pretendia, ao que este repetiu o desejo de participar nas provas de captação para o Futebol. A senhora sorridente e num rápido entrega ao menino um cestinho de cor azul, dizendo-lhe:

“ Menino, tens aqui 2 pares de calções, 2 pares de sapatilhas e chuteiras e duas camisolinhas. Veste e vem cá para eu ver qual te fica melhor”. O menino foi para o balneário e tão depressa regressou junto da velhinha que já o aguardava ansiosa e duma tirada lhe disse: “ É lá … até já pareces um jogador a sério. Vai para o campo que o treinador, que é meu filho, já lá está. Vais gostar dele!”...

O menino não cabia em si de contente. Dirigiu-se ao campo e passou a ser um entre os demais. Um familiar direto do menino/jovem que havia jogado no primeiro clube, sabendo do acontecido, abeirou-se dele e de dedo em riste avançou com voz grossa: Nem quero acreditar, ouvi dizer que tu estás a treinar no meio daquela tropa (para o momento o clube inimigo número 1, 2, 3, 4,… ). Estou sim senhor!...respondeu o menino /jovem. Ainda a frase não havia terminado e já estava no chão com uma valente bofetada.

“Pois agora é que jamais deixarei de ir ao treino”… pensou o menino /jovem. De facto não faltava a um treino, mas a seleção de valores era muito elevada e o menino não passava de suplente dos suplentes. Mas cada treino era marcado pela felicidade de fintar, correr, por vezes mais do que a bola… e um dia, já no colégio de Vizela, perdeu a camioneta e teve de faltar ao treino. O treinador no treino seguinte e perante todos lá foi lamentando, dizendo que foi notada a sua falta… etc … e o menino/jovem para além da desculpa de transporte, acrescentou: “Mas, nem sequer jogo … eu sou suplente dos suplentes!”... “Mas nós precisamos de ti, da tua motivação, da tua vontade e alegria… vê se não faltas mais”, retorquiu o treinador. Contudo, acontecia que o menino/jovem, num dos dias da semana, tinha dificuldade de transporte e com receio de não chegar a tempo do treino, montava na sua velhinha pasteleira e fazia 17 Km para o colégio de Vizela e no regresso, (mais de 70% a subir), fazia novo percurso, com a certeza de que marcaria a presença no treino. Ah … e depois ainda tinha de pedalar mais 6 Km para casa, onde residia com os seus avozinhos … sendo mesmo suplente dos suplentes!...

Querem saber, qual foi o primeiro Clube do roupeiro que para além de não trocar os calções, ainda vociferou contra o menino/jovem? Vasco da Gama e depois F.C.P.Ferreira!... e o tal Clube “inimigo” que no imediato o recebeu? S.C.Freamunde. O nome do primeiro roupeiro? Indecifrável. O nome da senhora dos equipamentos, velhinha e de sorriso de encanto e rosto de afetos? Senhora D.Emília. O nome do treinador? Sr Zeca Mirra. O menino/ jovem? - era eu!...
Ainda hoje mantenho o meu lugar de associado nos dois clubes… quer um, quer outro fazem parte do tesouro da minha existência. Do primeiro mantenho a devoção, do segundo guardo gratidão!...

A propósito, aproveito para evocar outros clubes que muito orgulho e honra me concederam para fazer parte da sua estrutura profissional:

No Vitória de Guimarães - encontrei a estrela da manhã; no F.C.Porto – toquei nas portas do céu; no S.C.Braga – senti um vulcão pronto a explodir; no F.C.P.Ferreira – do sonho à realidade com a presença na Liga dos Campeões; no G.D.Tondela – humildes pegadas feitas por gente nobre na conquista de objetivos difíceis e desafiadores. Num tempo periódico, fugaz e por isso muito curto em finais de época, não posso deixar de destacar o Moreirense F.C. e C. D. Trofense enquanto clubes campeões e acesso à 1ª Liga e a Seleção Nacional de Juniores de Hóquei em Patins – campeões europeus no Pavilhão Rosa Mota.
De todos guardo histórias de encantar que habitam no ar que escapa ao meu pensamento. Talvez um dia, algumas delas possam ser escritas. Talvez!...
…!...

A outra história muito mais recente tem como protagonistas, atletas jovens de 3 clubes e os meus alunos no momento de Opção Futebol do 4º Ano da Licenciatura de Educação Física e que no 5º Ano teriam de elaborar uma Tese/Monografia de investigação, no Instituto Universitário da Maia – ISMAI.
O tema proposto incidia sobre a Motivação para a prática do Futebol, tendo de aplicar alguns instrumentos de avaliação, selecionando 3 clubes: F.C.P.Ferreira, F.C.Porto e um Clube modesto doutro concelho do distrito.
Em termos muito globais refiro que as respostas apresentadas pelos jovens atletas dos 2 primeiros clubes indicados, atestavam que, o que mais os motivava a praticar Futebol no clube, era a vontade de competir e de ganhar, a possibilidade de um dia vir a ser profissionais, de ter objetivos desafiadores e uma forte ambição e desejo de ser bem sucedidos.

No referente ao 3º clube, o que mais era evidenciado pelos atletas jovens em acorrer à prática do Futebol, resumia-se à possibilidade de sair de casa, estar com os amigos e conhecer novos amigos, ter alguma coisa para fazer, saindo da rotina do dia a dia.

Passados 6 anos, um aluno como tese final de curso, procurou dar sequência à comparação evolutiva dos resultados obtidos pela primeira amostra, verificando-se que dos jovens atletas pertencentes aos clubes profissionais, agora com idade de sénior, uma elevada percentagem já se encontrava com contrato profissional, quer no clube de origem ou cedidos a outros clubes. No referente aos atletas pertencentes ao clube mais modesto, uma grande parte tinha desistido do Futebol. O aluno investigador, por intermédio do conhecimento duma ficha sociológica anteriormente elaborada, conseguiu encontrar 7 desses ex atletas. Ao questionar as razões do abandono ou desistência da prática do Futebol nesse clube, as respostas foram claras e bem definidas: não era tão bom como pensavam, o treinador era muito exigente e por vezes agressivo, os dirigentes só apareciam no dia dos jogos para discutir entre si e até gozar com a participação menos conseguida, havia muitos conflitos com vários problemas entre o grupo… e dos 7 ex atletas, 4 deles consumiam droga!...

Anote-se a importância pela negativa do treinador e dirigentes na formulação de conteúdos para que o Clube como organização e o Futebol como modalidade viesse a ser aquilo que foi e não devia ser.

Todos sabemos que a prática do Futebol, apresenta-se como eixo mediador para a construção psicológica, social, biológica e funcional das variáveis educativas.

É capaz de fomentar a expressão e desenvolvimento da personalidade; a oportunidade de superação; a educação da vontade, proporcionando múltiplas oportunidades de conviver numa ampla relação social.

Um suporte de formação para a educação da cidadania, autenticada na capacidade de emulação e superação, que pela inteligência e arte proporciona a possibilidade de crescer para vencer.

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol; Formador de Treinadores F.P.F.- U.E.F.A.; Docente Universitário.
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