Nem euforia na vitória, nem prostração na derrota (artigo de Aníbal Styliano, 48)

Espaço Universidade 16-02-2018 12:41
Por Aníbal Styliano
O futebol é sempre um jogo de imprevisibilidades e de acasos.
Com o tempo, o jogo foi ganhando outras dimensões nas quais o negócio surge como dominante.
As próprias competições submetem-se aos ditames do poder do dinheiro.
Por isso, numa prova entre campeões de campeonatos europeus, temos mais presenças de não campeões, de equipas poderosas em termos de capital (das chamadas Ligas Ricas, as Big Five).
Os orçamentos e o poder de algumas Ligas determinam o “desenho” das competições, que se vão ajustando de forma imparável.
Certamente que se o acesso fosse exclusivo para vencedores de Ligas, as probabilidades para surpresas eram bem maiores.
São múltiplas as vozes que colocam a questão da importância dos orçamentos de clubes.
Há diferenças abismais! Como foi possível chegar a este ponto e continuar a manter um crescimento que se julgava impossível?
Depois, surgem pormenores que criam as diferenças.
Mesmo assim, é possível surpreender um dos adversários mais poderosos? Claro que sim.
Muito difícil, mas se todos os fatores se reunirem, se o momento permitir juntar os melhores, se a concentração evitar pequenas falhas, é possível e já aconteceu.
Cada vez mais difícil, mas já aconteceu.
Desse poder se alimenta o ranking, para cada vez mais colocar clubes poderosos mesmo que não campeões.
Provavelmente, à medida que os mais ricos disputam contratações quase “pornográficas” (em função das realidades sociais) o futebol global vai-se empobrecendo, localizando-se de forma restritiva, e os adeptos tratados como consumidores de mais um produto comercial.
Mesmo assim, nós por cá temos excelentes jogadores, qualificados treinadores e muitos dirigentes que, por todo o país, dão o seu melhor, sem desistências e com garra.
É verdade que nos falta um sistema desportivo mais competente, mas isso já é pedir demasiado a dirigentes e políticos que pouco sabem desse universo, que sempre surge com tentações egocêntricas e carreiristas.
Jogar de igual para igual, nas provas internacionais é uma falácia que alastra a cada dia que passa.
Mas é possível surpreender? Claro que sim, mesmo que muito difícil.
Internamente, para além das disputas nacionais, é urgente criar competições mais exigentes, prestigiadas e com maior competitividade e ritmo. Tratar a qualificação do nosso futebol é uma das diversas exigências nacionais. E também “tratar das dívidas” que abafam o desenvolvimento…
O Professor Gustavo Pires comentou que “Por paradoxal que possa parecer, a vitória no futsal faz realçar a mediocridade do Sistema Desportivo nacional e da generalidade dos dirigentes políticos e desportivos.” Claro que valorizou esse excelente título europeu do futsal, mas a sua mensagem vai mais além e levanta uma das principais questões do nosso desporto.
De facto, a fixação e exaltação nacional de títulos importantes, permite na maior parte das vezes (além de fotografias fantásticas) esconder as lacunas do nosso sistema desportivo e ainda manter a inércia que impede um desenvolvimento sustentado e competente.
Atente-se no Desporto Escolar … triste exemplo que perdura sem limites.

O último jogo nas Champions entre FCP e Liverpool, além de muitos outros aspetos (nunca se pode falhar contra equipas destas e houve lapsos individuais que causaram enormes prejuízos ao coletivo) revelou um momento menos feliz de uma equipa que tinha melhores condições (caso pudesse contar com todos os seus recursos) e que teve de correr atrás do prejuízo adaptando a estrutura inicialmente pensada.
Mesmo assim, duas oportunidades desperdiçadas, ainda no primeiro tempo, poderiam ter feito alguma diferença.
Do outro lado, não houve falhas mas um total aproveitamento de acasos infelizes.
O ritmo competitivo e a exigência da Liga Inglesa, ao contrário de tantas polémicas estéreis e enormes imperfeições da nossa Liga, contribuíram para realidades divergentes.
Depois há sempre os fatalistas “moralizadores”, os que sempre que podem criam divisões, climas de ódio, guerrilhas supérfluas e andam nisto há muitos anos, como se procurassem restaurar velhos Donos da Bola.
“Perder é natural, agora por 5 tem de ser explicado!”, afirmam os estrategas da desgraça que lhes serve como abutres.
Provavelmente em “programas de maldizer” vencemos por larga diferença: mas esses não trazem benefícios, unicamente prestação de serviços e de interesses pessoais, eventualmente lucrativos.

Sérgio Conceição não foi por este resultado que desaprendeu, que desequilibrou o seu excelente trabalho esta época.
Há momentos assim, também ao longo das carreiras dos grandes treinadores (O Manchester City perdeu 3 – 4 com este Liverpool, e os respetivos orçamentos não têm comparação alguma connosco! Manchester City com o plantel mais valioso: 878 Milhões de euros e o Liverpool com o 7.º plantel mais valioso: 461 Milhões de euros. Nos 10 plantéis mais valiosos, 6 referem-se a equipas inglesas – dados do CIES - Observatório do Futebol).

O treinador do FCP, com um plantel reduzido, com limitações do fair play financeiro, criou uma estrutura coesa, com diversas opções originais e continua a merecer o reconhecimento global pelo excelente e eficaz futebol que tem sido capaz de implantar.
Várias competições em simultâneo, lesões e castigos de jogadores influentes na equipa, naturais crises de esforço e de performance, nunca foram utilizados como desculpas pois os campeões nunca as procuram, antes descobrem soluções para superar os obstáculos que vão surgindo… uma derrota deixa marcas mas para os campeões cria maior motivação para voltar a vencer.

Um futebol português mais saudável certamente que pode potenciar o talento e criar momentos para que os resultados a nosso favor possam acontecer: basta ter a noção de que unidos somos muito mais fortes e de que com melhor justiça evitam-se desperdícios de recursos.
Para isso, é necessária maior competência, humildade e transparência, em defesa do nosso futebol sempre com uma visão e missão globais.
Ganhar é muito importante, mas criar as condições para ganhar mais vezes deve ser uma exigência de quem tem o privilégio de liderar o nosso futebol.
Fazer por merecer e saber encontrar rumos decisivos é sempre o mais importante.
O resto é efémero.

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol
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