Quanto vale uma vida? (artigo de Aníbal Styliano, 45)

Espaço Universidade 16-01-2018 23:50
Não tem preço! Por cá, continuamos a preferir uma prática de desperdício e não de valorização da segurança. Depois, lamentamos, choramos, criamos movimentos de solidariedade sincera e ativa, mas esquecemos sempre o fundamental: a segurança como cultura de prevenção.

Nas estradas portuguesas, todos os dias acontecem tragédias e a maior parte perfeitamente evitáveis com simples mudança de comportamentos que tardam em acontecer…

Nos incêndios recentes e dramáticos houve algumas vidas que, certamente, com maior eficácia das entidades de prevenção e de proteção poderiam ter sido evitáveis.

Na magoada e ferida Tondela, bastaria que uma porta abrisse para fora, existissem extintores e tudo seria diferente.

Prevenção não é connosco. Mas tem de ser!

Durante anos, com o apoio de especialistas (Enf. Manuel Cunha e Fisioterapeuta Carlos Alberto) procurei que o Suporte Básico de Vida fosse um hábito, uma ferramenta sempre pronta, conhecida e exercida, também por alunos, desde o início do 1.º ciclo de escolaridade.

Por mais ações realizadas e mensagens para vários departamentos, provavelmente nunca houve tempo para refletir, pois as rotinas acabam por “matar” a inovação.

Ontem, foi o futebol.

O futebol-jogo foi emotivo, cativante e revelou a dignidade de uma competição, num desafio que colocava frente a frente um dos últimos com o primeiro classificado e todos se distinguiram com competência e profissionalismo.
Estoril e FCP entraram em campo para jogar, para encantar adeptos e cada um para tentar vencer.
Estádio cheio, no primeiro jogo da época com um dos chamados “grandes”, logo dia de enorme e lucrativa afluência de adeptos.
Estoril sem complexos, confiante, jogando com todas as forças e saber, adiantou-se no marcador com golo de belo efeito.
FCP, tradicionalmente com melhores segundas partes, preparava-se para as alterações que supostamente fariam quebrar a resistência do adversário, fisicamente com sinais de evidente cansaço.
Seria uma segunda parte com ritmo mais intenso e maior protagonismo do FCP que iria atacar com maior pressão.
Entretanto, ao intervalo, vimos muitos adeptos dos azuis e brancos a saltarem da bancada que ocupavam atrás da baliza e a sair do estádio ou mesmo a entrar no relvado.
A decisão para isso foi dada por responsáveis e autoridades presentes.
O jogo não reiniciava e a informação que corria era de que essa bancada não garantia segurança e havia perigo de derrocada.
Atónitos ficamos à espera de mais esclarecimentos.
A certa altura, foi afirmado que tudo estava bem e os adeptos foram de novo encaminhados para uma parte dessa bancada (afinal muito frágil).
Paradoxalmente, novo êxodo para abandonar outra vez a bancada.
Com sismo ou sem sismo, com muitos ou com poucos assistentes, as instalações desportivas têm de garantir a segurança de todos. Não garantindo, o jogo nem se inicia.
Para isso são obrigatórias inspeções TÉCNICAS AVALIZADAS que periodicamente se devem fazer: seja por determinação da LIGA, da FPF, seja da Autoridade de Proteção Civil, do Governo…

Uma vida nunca tem preço.

Afinal, o jogo não se completou, ficou adiado para outra data/entendimento entre clubes e pode deixar a ideia errada de que tudo está resolvido.
Para a Taça de Portugal, alguns clubes tiveram de jogar em casa alheia porque os seus campos foram considerados como inapropriados. O futebol-negócio a sobrepor-se ao futebol-jogo.
Neste caso, é absolutamente incrível que um clube participante na principal Liga do nosso futebol possa ter essa falta de segurança e que, antes de um jogo começar, não tenha havido a certificação competente de que TUDO estava preparado.
Felizmente não ocorreu mais uma lamentável tragédia.
Desportivamente e independentemente do jogo das profundas análises regulamentares, a segunda parte desse jogo é, de facto, um novo jogo, mais curto, cujo resultado se vai somar ao outro meio jogo: mudam condições e até protagonistas.
As Sads e os Clubes investem muitos milhões para terem os melhores jogadores possíveis: é uma aposta desportiva como outra qualquer.
Por outro lado, não vemos, de forma generalizada, investimentos avultados, porque necessários, na segurança dos estádios para garantir máxima proteção a todos.
Após os incêndios que enlutaram todo o país, cada vez é mais urgente passar mensagens que valorizem e responsabilizem uma prática de segurança.
Impunidades são uma tragédia que gere outras bem maiores e intermináveis.
As instituições do futebol têm legislação para agir efetiva e preventivamente salvaguardando a segurança como exigência obrigatória e contínua.
Aos jogadores, particularmente aos do Estoril, manifesto como desportista, os meus parabéns pela primeira parte conseguida a justificar melhor posição na tabela classificativa.
Mas neste caso, não pode haver oportunismos, clubismos ou fanatismos, mas antes seriedade e prevenção.
Assim, em minha opinião, após análise dos regulamentos a que tive acesso, deve ser atribuída derrota ao clube da casa, porque não soube, por culpa própria, criar as condições necessárias à segurança de todos.
É triste para uns (penso que para todos, pois nenhum está livre de ser vítima da incompetência de outros), ainda que felizmente sem lágrimas de drama.
Essa decisão poderia marcar um novo período no nosso futebol e uma maior responsabilização que passa despercebida pelo mediatismo de pequenos tiques de alguns protagonistas.
Que o futebol vença sem desvalorizar a VIDA.

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol
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