Os cantadores das Janeiras e dos Reis e… a Dança do Menino (artigo de José Neto, 61)

Espaço Universidade 05.01.2018 00:19
Uma pandeireta sem fundo, a roda de aço suspensa na baraça do pião e uma harmónica de beiços que “gemia” em agonia três ou quatro notas soltas perfazia o instrumental que servia de fundo a meia dúzia de vozes franzinas que rompiam por entre o silêncio das noites gélidas cercadas pelo luar dum Janeiro a nascer:

«Olhei para o céu, estava estrelado
Vi o Deus Menino em palhinhas deitado
Em palhinhas deitado, em palhinhas estendido
Filho duma rosa e dum cravo nascido»

Ou

«Pastorinhos do deserto
Correi todos, vinde ver
A pobreza da lapinha
Onde Cristo quis nascer»

Depois do cântico dos vivas aos senhores da casa e dos seus meninos, gerava-se a expectativa no grupo. Olhos fitados numa janela com a luz a espreitar, era o estender de mãos à procura dum trocadito que era lançado com algumas recomendações: – “olhai lá se prá próxima, trazeis uma gaita mais afinada!”… ou: – “anda por aí uma voz que até mete medo!”… ou, na melhor das hipóteses: - “muito bem, por isso lá vão 25 tostões!”…

O giro estava traçado – saímos da Igreja, vamos ao Sr. Abade (P.e Ramiro) – “Ó… dali só vêm restos de hóstias e bolachas Maria (das pequenas), refilavam alguns … Bom, depois vamos por Vale de Suz ao Sr. Urbaninho – “isso, isso” – animados com a certeza de melhor oferta. Seguimos pelo 5 merreis – “é lá, isso não que ele solta-nos os cães!”, balbuciavam outros… Depois, damos um salto ao Sr. Quinzinho da Bouça, vimos pelo Sr.Toninho da Inveja e logo ao Sr. Protazinho!… Lá fazíamos a estafeta serpenteada por entre o caminheiro carregado de ilusões e canseiras… e alguns tostões na boina. Recordo um dos Janeiros, (muito húmido e frio), em que a noite apareceu mais cedo, escura e fustigada por forte ventania. Quis o nosso grupo encurtar o caminho para fugir ao temporal que se fazia anunciar: “rápido, rápido… vamos, vamos… dás só dois vivas e pronto!”… Avança o Manel do ferreiro, sempre o mais fortalhaço e destemido e logo a ondulada perseguição em estreita correria. Ali para os lados da Cruz, houve uma troca de passos e, num ápice, surge um grito agoniante do Manel, seguido pelo chafurdanço na presa. A sorte é que a água ficou-lhe pela cintura, mas… lá se foi a boina com algumas branquinhas!…
Mas nem tudo correu mal. Chegados a casa dos meus avós, toca a acender o lume para secar o Manel. Mesmo por cima do espreguiceiro, espreitavam uns chouricitos, farinheiras e alguns presuntos. Foi mesmo com a vara de varejar o castanheiro que duma estocada vimos voar 4 chouriços e algumas farinheiras… e com o calor das brasas, o resto da noite viu-se bem animado com muita alegria e apetite dos cantores de Janeiras… mesmo de bolsos vazios!…

…/…/…

Passados mais uns anitos, lá fui encontrar alguns dos meus companheiros na conquista dum lugar para a “DANÇA do MENINO”

…”Tu dás para pastor, este também dá para pastor… Ora, guardamos este papel também de pastor para o Firmino que não tarda a vir do Ultramar… e ele decora-o num instante!… Então Terezinha a Dança do Menino só tem pastores?!”… – alguém pergunta lá do fundo. “Não rapaz… também tem pastoras!”… e continuou: – “o Sr. Brito do Padrão será o capitão Bambalho (tenho ali uma farda que lhe vai ficar um mimo); ali o Sr. António Rei, claro, vai fazer de rei Herodes; a Lucília a Rainha… o Sr. Dias dá mesmo para velho Semião… o Sr. Albino raboto, o conde Fraím”… etc… e a este rapaz coube-lhe o papel de “Príncipe”.
Aquilo é que era uma corrida para o Centro Paroquial. Papéis em punho, memorizar as entradas e as saídas, decorar aquelas páginas todas, provar as indumentárias, era uma roda-viva de entusiasmo e dedicação. Não podia ser de outra forma já que a Terezinha Mota, nossa Directora/Ensaiadora/Modista, era sempre a primeira, dum largo sorriso nos lábios e uma extraordinária dedicação às verdadeiras causas, no empenhamento para fazer sair a peça na perfeição.
…Tudo a postos para a primeira apresentação, e o nervoso miudinho nas últimas passagens pelos papéis.

O Sr. Silva experimenta o correr das cortinas, oleando as roldanas que faziam cá uma chiadeira… espeta mais um galiota nos cenários, dá uma espreitadela por entre uma “talisca” entre tábuas descasadas e segreda-nos, esfregando as mãos de contente: – “até já há pessoal em pé!”…

Encontro a um canto o Sr. Antero (que fazia o papel de um dos doutores da lei) e diz-me baixinho: – “Olhe menino, isto é letras como panelas, não sei ler nem escrever, como decorei isto tudo, ao menos consolo-me de olhar para elas!”…
Surgem as fortes pancadas no palco… o Sr. Joaquim (camolas), com a flauta e os Soutos com os trombones, atacam com o musical de abertura e … e …

…Vou apenas contar este passo: – o rei Herodes após a cena da perseguição e matança dos meninos inocentes, também morre e eu sou naturalmente na sucessão, coroado. Mas aquela coroa pesadíssima, a capa quase a espalhar-se pelo chão e aquele espadão enorme, parece que me davam ainda mais intranquilidade e… medo!…

Logo a seguir, tinha que me bater com Singo (o Sr. Emílio, homem que na vida real sempre foi de poucas falas, de semblante carregado… e até se contava que por meia dúzia de treta, assapava uns borrachos a qualquer um).

Num belo dia, e em que a interpretação me estava a sair em plena confiança e em plena luta, o Singo teria que cair vencido. Agora vem o mais importante da história: eu aproximo a espada do seu rosto e digo em alta voz: – “fica-te malvado” … mas, o peso daquele objecto enorme foi de difícil controlo e piquei-lhe levemente o pescoço, fazendo saltar uns pingos de sangue!… Ó homem dos diabos, qual papel, qual quê… levanta-se, vem ao meu encontro, encosta o vozeirão ao meu ouvido, sussurrando: – “quando esta merd… acabar, vou-te partir todo meu caralh…” e voltou a cair “desmaiado”… mas de olhos fitados em mim!…

Olhem, nem terminei o verso. Saltei da cena por detrás do palco e lancei-me em fuga, ainda sentindo-lhe a marcha acelerada, colada aos meus calcanhares!…
Num rápido, atirei-me contra a porta de casa, deixando em espanto os meus avozinhos, quando viram pela frente um “príncipe” de túnica desajeitada, carregando numa das mãos a coroa de “rei” e na outra o espadão a rastejar pelo chão, fazendo faíscas e gritando: TRANQUEM AS PORTAS!…

Que estas “Janeiras e Reis” sejam cantadas com muita alegria e se possam aplaudir noutros palcos da vida, continuadamente iluminados pela luz divina, feita estrelinha do presépio do Menino Jesus renascido, adorado por pastores e reis e possam neste Ano Novo 2018 ser envoltas numa síntese de harmonia onde a PAZ, SAÚDE e AMOR sejam as grandes mensagens para o SUCESSO dos meus queridos amigos e de todos aqueles, que habitam juntinho ao vosso coração.

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário.
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