Check – in para o sonho (artigo de José Antunes de Sousa, 85)

Espaço Universidade 17-10-2017 18:59
Por José Antunes de Sousa
Devido sobretudo à diferença de fuso horário entre Brasília e Lisboa, escrevo estas linhas a algumas horas do decisivo encontro Portugal – Suiça no Estádio da Luz, facto que me não impede de prever o anelado desfecho: Portugal vai carimbar o passaporte para o mundial de futebol que vai realizar-se no próximo ano na Rússia, uma Rússia que, sintomaticamente, parece querer reeditar o seu velho sonho imperial. Curioso é que o seu actual Presidente, mais dado às artes marciais que ao futebol, veja neste planetário evento uma privilegiada plataforma de projecção e afirmação desse sonho – como já acontecera em tempos com Mussolini ou com Franco.

Uma vez mais, o futebol, com a ígnea torrente de paixões que suscita, a prestar-se, na sua inelutável ambiguidade,à ínvia mediação de projecção de poder por parte de seus comensais políticos. Mas também por ser – e é, de facto, - o catalisador de encontro e reconciliação, como parece estar a acontecer com a linda história da selecção da Síria que, por pouco, não transitava directamente das lamacentas trincheiras de Alepo para o salão de festas da glória: é o geofutebol com todo o seu sortilégio!

Mas voltemos ao Portugal-Suíça de mais logo que vai colocar o nosso país no areópago dos sonhos. E vai porque Portugal merece. Mas, como, perguntar-se-á, se em futebol não há justiça – ganha quem marca? Sim, mas Portugal vai marcar porque é firme a sua crença num desfecho favorável, em sintonia com os pergaminhos lusos na históriia da competição, mas, mais que isso, em conformidade com a luminosa História deste pequeno-grande país no rectângulo mais ocidental da Europa e que tem no crédito de suas façanhas o ter sido o grande pioneiro da globalização. E, depois, convém lembrar, temos Fátima e Cristiano Ronaldo. Além de sermos os actuais campeões da Europa – e o respeitinho é uma coisa muito bonita!

Mas a Suíça também merece ir: sim, e vai. Mas terá que aguardar e dar, entretanto, passagem a seu vetusto rival, que a História é para ser respeitada. Que a Suíça tem também seus méritos é inquestionável, mas não ao ponto de prevalecerem sobre os de um povo que, entre a opção por uma vizinhamça de terra firme, ainda que problemática, e o alvoroço do incerto, preferiu a vizinhança do infinito – e só aí a sua alma encontrou alento para a sua sede de mundo. Ah, mas a Suíça, apesar de pequena em território, é grande na sua diversidade – ela se organiza em cantões. Sim, mas Portugal se agiganta na unitária diversidade de seus cantinhos.

Que a Suíça, não tendo mar, tem contudo belos lagos como o de Léman. Mas Portugal, além de mar a perder de vista, tem o Alqueva – e, claro, as lagoas de Sete Cidades e a lagoa do Fogo. Que a Suíça é tambem e a seu modo actor de globalização, ao tornar-se o cofre-refúgio do capital internacional, Sim, mas, muito e muito antes disso, Portugal expandiu e globalizou os valores do afecto e da fé. Que a Suíça marca o ritmo da pressa ocidental com seus relógios indefectíveis. Sim, mas, muito tempo antes, Portugal, através do insigne matemático, Pedro Nunes (1502-1578) inventou o nónio e, até o astrolábio moderno foi inventado em Lisboa por Abrão Zanuto, um judeu ao serviço de D. João II.

E, mais recentemente, foi em Portugal e por portugueses que se inventou esse meio expedito de se viajar sem demoras: a via verde. Mas a Suíça tem ainda a seu créditono facto, honroso e singular, de fornecer a guarda do Papa e da Santta Sé. Pois é, mas, a pedido ( as ordens reais careciam de homologação papal) do Rei D. Dinis, foi criada, pela bula pontifícia Ad ea ex quibus, de 13 de Março de 1319, a Ordem de Cristo (Ordem dos Cavaleiros de Nosso Senhor Jesus Cristo) e que herdaria a história e os privilégios da Ordem do Templo. Sim, a História deste país, autorecolhido à sua faixa matricial, de uma exiguidade territorial que a infinitude pelágica não cessa de compensar, é, sem dúvida incomparável.

E embora um novo protagonismo tenha entretanto emergido do novo concerto das nações, nem por isso os vestígios de uma gesta heróica e única poderão ser apagados. Que seja sobretudo mítica e romântica a nossa grandeza, mas, mesmo assim, merecemos, por direito próprio estar no baile de gala do futebol mundial – e dançaremos afoitamente com qualquer parceiro! E a Suíça? O estádio da Luz, fazendo aliás jus ao seu nome, vai indicar-lhe o caminho luminoso – e o seu sonho de ombrear com os maiores se concretizará. Mas, tenha paciência, deixe passar Portugal: regras protocolares da História. Encontrar-nos-emos, quem sabe, algures na Rússia, uma Rússia embalada de novo no velho sonho czarista. E quem sabe se uma glória antiga mas imprevista não ressurge pela esfericidade rolante de uma bola. O fascínio está aí justamente: tudo é possível

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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