A Olímpica Síndrome de Cheshire (artigo de Gustavo Pires, 47)

Olimpismo 07.11.2016 00:54
Por Gustavo Pires
No dia 11 de Outubro de 2016, numa organização conjunta do Comité Olímpico de Portugal (COP) e do Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), quer dizer, numa espécie de casamento contranatura, em que participaram as modalidades inscritas no programa dos Jogos Olímpicos a fim de ser realizado uma “exercício avaliativo” “sobre a participação desportiva nos Jogos do Rio 2016 e, bem assim, extrair ensinamentos suscetíveis de ajudar a melhorar a participação portuguesa nos próximos Jogos Olímpicos de Tóquio (2020), num documento elaborado, se não pelo presidente do COP seguramente com o seu conhecimento, pode ler-se:

“… basta um pouco de bom senso para, no mínimo, duvidar que as variáveis sistémicas sejam preponderantes para explicar porque um atleta que ao longo de um ciclo olímpico de quatro anos obteve regularmente classificações, marcas e resultados num determinado nível fique aquém dessas referências quando compete nos Jogos Olímpicos” (Cf. Portal do Comité Olímpico de Portugal).

Entretanto, a 27 de Outubro de 2016, quer dizer, passados pouco mais de duas semanas, o presidente do COP, no Jantar Convívio do Panathlon Clube de Lisboa, (27-10-2012), certamente para espanto dos comensais mais atentos afirmou: “a pequena diferença que pode existir entre uma medalha olímpica e os lugares imediatos, trata-se de um problema de natureza sistémica” (Cf. Revista Atletismo, 2016-10-30).

Pergunta-se: Para o presidente do COP, as variáveis sistémicas que determinam a natureza sistémica de um problema são ou não preponderantes para os resultados olímpicos? A obtenção de uma medalha olímpica é ou não é um problema de natureza sistémica?

Entretanto, adianto que, para mim, no estado de desorganização total em que se encontra o desporto nacional, o verdadeiro problema não é a preponderância ou não das variáveis sistémicas. O verdadeiro problema que hoje se coloca ao desporto nacional e, em particular ao Movimento Olímpico, é o da síndrome do gato Cheshire. Como o gato Cheshire explicou à Alice, a do “país das maravilhas”, – quem não sabe para onde quer ir qualquer caminho lhe serve.

Ora, quando qualquer caminho serve o destino certo é chegar-se a lado nenhum. O Movimento Olímpico português, como se prova pela chefia do Ciclo Olímpico do Rio (2016) chegou, inexoravelmente, a lado nenhum. Se é que já lá não estava. O que o Movimento Olímpico necessita não é de um “exercício avaliativo” em circuito fechado com entidades que dependem financeiramente do COP, nem de jantares no Panathlon Clube de Lisboa com discursos em que, numa espécie de “gestão vudu”, se procura transformar as derrotas em vitórias ajustando os objetivos previamente determinados aos pindéricos resultados obtidos, a fim de se transformar um desaire nacional num êxito pessoal.

O que o Movimento Olímpico necessita, e urgentemente, é de um exame de consciência do presidente do COP cerca daquilo que foi a sua chefia no Ciclo Olímpico do Rio de Janeiro que, entre os ridículos “Lusofonia Games”, o inaceitável conflito com o presidente do S L e Benfica e a inacreditável situação de Rui Bragança, entre outras preciosidades, conduziu aos piores resultados desportivos desde os JO de Barcelona (1992).

Infelizmente, o Movimento Olímpico em Portugal, devido à incapacidade política do Governo, sofre da síndrome de Cheshire. Qualquer caminho lhe serve desde que alguns dirigentes pseudodesportivos se mantenham agarrados ao poder. Em consequência, daqui a quatro anos, nos Jogos Olímpicos de Tóquio (2020), o Movimento Olímpico nacional vai, infelizmente, mais uma vez, chegar a lado nenhum.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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