Miguel Oliveira, o homem do ano: «Nunca me passou pela cabeça desistir»

Moto GP 04-01-2021 17:01
Por Edite Dias

Miguel Oliveira foi escolhido por A BOLA como homem do ano. O jovem fez Portugal acordar para o MotoGP. Sim, sabemos que foram, apenas, duas vitórias, mesmo que uma delas extraordinária - na forma e no simbolismo... -, em Portimão. Mas, mais do que as vitórias, aquilo que faz de Miguel Oliveira o Homem do Ano de 2020 para A BOLA é o que elas representam para Portugal, que saiu altamente prestigiado com a visibilidade proporcionada por uma modalidade seguida por centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Recuperamos aqui a entrevista conduzida pela jornalista Edite Dias. 

 

- Há mais pressão agora que está na elite ou quando competia em Moto2 e Moto3 e todos queriam chegar ao MotoGP?

- Todas categorias partilham a ambição de chegar o mais longe possível. Após o Moto GP já não há mais nada, a luta é de nos mantermos lá no alto sempre. Essa é a relação que se vai construindo com a fábrica, que vai acarinhando os pilotos.

 

- Perguntam-lhe muitas vezes o que perdeu, mas gostaria de saber o que ganhou neste percurso…

- Não sinto que perdi nada, algum sacrifício ou outro que tenha feito foi sempre para viver um sonho que eu tinha e tenho, que é o de ser campeão do Mundo de Moto GP. Sinto que ganhei outro tipo de vivências que as pessoas da minha idade não têm, mas acho que é uma particularidade da alta competição no desporto. Quem lá chega tem de fazer escolhas, tem de ter uma grande capacidade de ter força nos momentos. Definir prioridades para filtrar o que é importante. Mesmo no êxito, saber quem são as pessoas que devem estar ao nosso lado e quem não deve.

 

- Quando olha para trás pensa que valeu tudo a pena?

- Sim, quando corre tudo bem, quando atingimos aquilo que ambicionamos.

 

- Nunca pensou em desistir?

- Não, nunca me passou pela cabeça. Talvez lá mais para a frente na minha carreira se estivesse colocado numa posição em que precisasse de fundos monetários para correr, aí sim, talvez pensasse em deixar de correr. Mas só por isso. Desistir por enfrentar uma dificuldade ou viver tempos mais difíceis a nível de resultados desportivos, nunca me passou pela cabeça. Pelo contrário, deu-me ainda mais força para poder sair deles vitorioso.

 

- Agora é famoso, já nem de capacete passa despercebido. Como tem lidado com isso?

- Não é um dado adquirido que seja famoso [sorri]. Até porque tenho alguns episódios engraçados de pessoas que me confundem. Outras que não sabem que sou eu. Aconteceu há pouco tempo uma senhora no café onde vou comprar o pão confundir-me com um jogador de futebol. Eu eu disse: ‘Graças a Deus que não sou jogador de futebol’. Nada contra os jogadores de futebol! [risos]. E a senhora disse :’Ah, é que é muito parecido com aquele motard, o Miguel Oliveira’. E eu sorri e disse: ‘Sim, há muitas pessoas que me dizem isso, mas não sou eu.’  Gosto de brincar com isso e quando as pessoas estão na duvida, digo que não sou eu [risos]. Mas sim, tenho tido um reconhecimento generalizado. 

 

- É isso que gosta?

- É isso que eu valorizo. Não procuro o desporto para ser famoso e tirar proveito disso. Vejo apenas como uma consequência. Acho que é bonito, quando as pessoas reconhecem um atleta por ser embaixador do País, de determinado desporto e carregar valores com ele que as pessoas de uma forma ou outra possam identificar-se. Isso é que me motiva, não os salários chorudos.

 

- O que é que este Miguel confiante de 2020 diria ao puto da Charneca que com 15 anos era vitima de bullying na escola porque era maluquinho das motos?

- Diria para não sofrer tanto porque não valia a pena. Quando crescemos olhamos para trás e vemos as coisas numa outra perspetiva. Certos momentos podíamos ter tido uma resposta diferente. Mas aquilo que o miúdo de 15 anos sofreu fez dele aquilo que é hoje, portanto, não diria nada de diferente. Tive uma adolescência um bocadinho diferente, animada [sorri], mas acho que em alguns momentos podiam ter aproveitado mais e vivido mais.

 

- Hoje há muitos miúdos dessa idade que olham para si como uma referência. O que lhes pode dizer?

- O discurso tem de ser alterado. Hoje todos os jovens são altamente desencorajados. Não vejo sinais ou ferramentas para serem incentivados. E temos muitas ferramentas educadoras, dos professores aos pais, que são a maior fonte de educação que as crianças devem ter, mas o também o desporto, o que veem na televisão e nas redes sociais. É por aí que temos de começar a trabalhar e a dizer-lhes que é possível acreditar nos sonhos. Mas não só porque sim. Têm de trabalhar para ele e encontrar um sentido, um propósito e isso falta na nossa sociedade.

 

- No seu percurso há uma figura sempre presente, o seu pai, e fala sempre da forma como ele o levou pela mão a fazer esta caminhada. Tem saudades desses tempos?

- Saudades não diria, continuo a passar bons momentos com ele. Diria que não tenho saudades porque levava muito na cabeça [risos] naquelas alturas das viagens. O standard de educação do meu pai, o nível de exigência foi sempre muito alto e eu tentei corresponder, e ainda hoje trago isso comigo. Disso não tenho saudades. E não me posso queixar, continua a ser uma figura presente no meu quotidiano, por isso saudades não [gargalhada].

 

- Qual foi o momento em que sentiu que um mental coach poderia fazer diferença?

- Nunca achei que fosse necessário, uma vez que me julgava um tipo muito bem organizado a nível de ideias, muito focado, mas o que é certo é que, quando recebemos uma perspetiva diferente, abre o nosso campo de visão e a recetividade para aprender coisas diferentes e que possam fazer a diferença. Aconteceu há três anos, ainda na Moto2, onde senti que podia crescer um pouco mais enquanto ser humano e abordar a competição de forma diferente.

 

- Recomenda?

- Quando toca a psicologia aplicada no desporto, acho que depende muito de cada atleta e da ideia que tem formada sobre isso. Eu sempre fui mente aberta, nunca disse que não preciso nada disso, nem de ninguém que me oriente as ideias… Recomendo que experimentem, sobretudo, se querem ir mais longe é uma boa ferramenta.

 

- Faz essa abordagem com outras modalidades, de tentar perceber o que pode aprender de novo?

- Sim, claro. Ainda recentemente assisti a um documentário muito interessante sobre treinadores, com o treinador da Serena Williams [tenista norte-americana que venceu 23 Grand Slams]. O mesmo aconteceu com o documentário do Mourinho. Tento sempre encontrar boas práticas para poder aplicar no meu desporto. Podemos sempre recolher daqui e dali para melhorar.

 

- Que outros desportos gosta de ver ao vivo, além de motos?

- Motos…Motos… E motos…[risos]

 

- E na televisão?

- Aí não, sou muito eclético. Séries de homicídios, comédia…

 

- É isso que faz nos tempos livres? Quer apenas descansar?

- Por acaso o tempo preferido para consumir séries é nos aviões ou em viagem, ou no Motorhome.

 

- Como é um fim de semana típico de corrida? Ainda gosta de fazer o circuito a pé, à quinta-feira?

- Em Portimão fiz o circuito a pé, com a minha namorada, a Andreia, mas só por descontração. Nada de especial… Chego aos locais da prova na quarta-feira ao final da tarde ou à noite. Na quinta-feira, é um dia de preparação, temos a manhã mais descontraída para orientarmos as nossas coisas, para fazermos um bocadinho de desporto. Começamos com uma reunião próximo da hora de almoço com toda a equipa e depois aproveitamos o resto da tarde para compromissos dos media. Sexta treino, sábado qualificação, domingo corrida.

 

- E resume-se a circuito-hotel e vice versa, pelo menos antes do Covid-19?

- Esta época fiquei no Motorhome no circuito, não havia necessidade de me deslocar do hotel para o circuito, foi muito mais cómodo. Já no ano passado fiquei nas corridas da Europa e gostei. Dá um certo charme dizer que o Motorhome é um camião gigante [sorri], mas é como a minha casa-móvel, tenho lá tudo ao meu jeito.

 

- Tem algum ritual?

- Não. Bom, a forma como aqueço e visto o fato fazem parte desse ritual.

 

- Não acredita em superstições, portanto?

- …Não sou supersticioso, no sentido de acreditar que uma coisa me limite. Tenho os meus rituais… Apenas isso.

 

- Dão conforto?

- Sim, sobretudo quando estamos nervosos ou não sabemos o que fazer, temos algo que é automático e fazemos tudo da mesma forma.

 

- Também fica nervoso?

- Sempre! As corridas criam sempre muito nervosismo, muita inquietação por não saber o que vai acontecer.

 

- Nos momentos que antecedem a partida, na grelha?

- Não, esses não são muito difíceis. Já estamos muito mais no nosso mundo. Quando estou a vestir o fato, a ver uma pessoa ou outra é que ainda me sinto mais exposto… Assim que visto o fato parece que tudo muda. Mas sinto-me sempre nervoso. No dia em que não me sentir nervoso é o dia em que devo arrumar as botas e o fato no armário.

 

- Um piloto não pode ter medo? Mesmo quando anda a 330kms/h?

- Nunca podemos ver o medo de forma a que seja um fator que nos limite, mas algo que nos mantenha alerta. Se estivermos numa selva com um leão temos de ter medo. Se formos completamente destemidos o leão vai comer-nos. Temos de ter medo e nas motos é o mesmo. Temos de criar uma barreira de respeito, de limite para que tudo corra bem no final do dia.

 

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