O desporto fenómeno social e o problema da responsabilidade (artigo de Vítor Rosa, 182)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 10-01-22 3:51
Por Vítor Rosa

A Ilíada do poeta Homero (928 a.C. - 898 a.C.) é o primeiro “monumento” literário, onde as descrições artísticas glorificam os atletas e as suas proezas. Em várias passagens, verifica-se como os Aqueus se dedicam aos exercícios físicos mais diversos: corrida, luta, lançamento, etc.Mas é apenas no século V que o desporto foi erigido pelos Gregos sob um pedestal que só viria a cair com a queda da Nação. Pierre de Coubertin (1863-1937) enfatizava que “a religião do atletismo nasceu na Grécia”, onde se encontrava em cerimónias esporádicas e nos seus Templos para os cultos quotidianos. As cerimónias serão os Grandes Jogos, sendo o mais ilustrativo de todos os Jogos Olímpicos (JO). Os Templos serão os ginásios, juntando jovens e menos jovens em torno de uma preocupação: exaltar a vida e a humanidade, que eram a base do helenismo. Tais princípios dão aos cidadãos gregos uma distinção de espírito, de uma força e de uma beleza corporal extraordinária. Nada de mais belo, viril e emotivo o que os jovens pronunciavam em juramento: “Eu juro jamais desonrar as armas sagradas do meu posto durante o combate. Sozinho ou na companhia de todos, eu combaterei pelos deuses e pelo meu país. Morrendo, não deixarei a minha pátria diminuída, mas mais forte e com mais potência. Cumprirei as ordens na prudência o que os Magistrados que me queiram dar. Eu serei submisso às leis atualmente em vigor e também as que serão decretadas pelo povo. Se alguém se recusar a obedecer a essas leis e se alguém as quiser destruir, eu me oporei e combaterei por elas sozinho ou na companhia de todos” (Bergeron, 1936, p. 8). O ginásio assumiu uma importância na Cidade, como os exercícios físicos assumiram na moral. Os grandes jogos públicos exerceram nas instituições políticas do país, sobre os códigos morais e sobre a Arte uma influência considerável. Desde esta época, o desporto apresenta as caraterísticas que serão perpétuas, dominado pela ideia de glória. As tréguas nos combates tinham um caráter sagrado. 

Em Roma, o povo era prático. Não se agarravam a futilidades e faltava o sentimento estético. Os jogos praticados apresentavam o sinal da brutalidade: gladiadores. Na Idade Média, o gosto pelo exercício físico perde-se. No fundo era uma reação do cristianismo contra os jogos romanos. Só com o surgimento da cavalaria é que os exercícios corporais começaram a ser praticados. Predomina, sobretudo, os longos e penosos Torneios. 

O renascimento do desporto dá-se no final do século XIX, sob a influência da Inglaterra. Assiste-se a uma eclosão de clubes e federações. A partir daí assumiu uma ascensão vertiginosa, onde se encontra nos dias de hoje. As repercussões no tecido social são incalculáveis. As grandes reuniões desportivas modernas (Mundial de Futebol, JO, etc.), com o entusiasmo que suscitam, provocam receitas de proporções consideráveis. Nasce um novo jornalismo: o desportivo. Ele ajuda a provocar e a aumentar o entusiasmo. A histeria coletiva vai ao rubro.

Referência:

Bergeron, R. (1936). Le Sport, phénomène social, sa réglementation, le problème de la responsabilité. Thèse de doctorat. Faculté de droit, Université de Lyon.

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa