Esta palavra Cultura… (artigo de Manuel Sérgio, 366)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 06-09-21 3:26
Por Manuel Sérgio

Esta palavra Cultura (reincido no que já disse, anteriormente) muitos a utilizam como o fariam os humanistas e depois os racionalistas dos séculos XVII, XVIII e XIX.  Quero eu dizer, em poucas palavras: culto é aquele que, além de um exemplar e promissor comportamento, apresentava inusual erudição. E, mais visível nuns do que noutros, verdadeiramente propenso à reflexão filosófica. Era um conceito elitista, pois esta Cultura só a podia usufruir um determinado estamento social, que já beneficiava do ócio que lhe permitia o estudo e a frequência de uma universidade. No fundo, era de uma “cultura de classe” que se tratava. No Concílio Vaticano II, Cultura significa tudo o que, neste mundo, é criação humana e não é natureza, “em estado puro”. Malinowski incluiu, no conceito de cultura, os produtos elaborados não materiais: língua, arte, filosofia, ciência, leis religião, os valores e toda a realidade material, produzida ou transformada, pelo trabalho humano. Um exemplo: não apenas são cultura a tecnociência que precede a criação de um automóvel como a próprio automóvel e a organização sócio-económica e administrativa que, por último, o faz e o negoceia. O que é Cultura, para mim? É o mundo próprio do ser humano: no seu sentido mais subjetivo, coincide com a educação, designadamente uma educação continuada; no seu sentido mais objetivo, é o resultado da ação das pessoas sobre o mundo e sobre a história. O Concílio Vaticano II sublinhou que “o género humano se encontra hoje numa fase nova da sua história, na qual mudanças profundas e rápidas se estendem progressivamente ao universo inteiro” (GS, 4). Na vida, tudo é movimento e a história também o revela. Principalmente a partir de Hegel, uma “consciência histórica” ensinou as pessoas que o progresso das nações e dos povos não resulta dos imperativos de forças misteriosas e ocultas mas das decisões conscientes dos cidadãos. O que representa a tarefa humanista da libertação de imperativos totalitários (outro exemplo) senão movimento e emancipação de uma falsa consciência? Mas a  emergência das aspirações típicas de um período histórico significa, antes do mais, que um dia não poderão esconder, ou o seu termo, ou a sua transformação. Tudo é movimento!...

Ninguém é plenamente verdadeiro quando intenta definir o ser humano. Sendo Matéria, Vida e Espírito, não há palavras que nos digam quem ele é. Ora, é este ser humano, avesso a qualquer indiscutível definição, que muitos tentam definir como jogador de futebol que, ao não poder usar as mãos, sente despontar, em si, uma certa liberdade não racional, espontânea, uma primitiva matreirice. Ou seja, a perda de alguma racionalidade anuncia, no jogador de futebol, um acréscimo do instinto. “A mais elementar experiência revela-nos que, para além da palavra e do pensamento, há mensagens que podem ser transmitidas para realizar uma ação imediata e sintética. Dois jogadores que jogam juntos há muito tempo conhecem-se intimamente através do futebol e desenvolvem naturalmente uma espécie de relação muda em que os seus movimentos falam, funcionando como eficazes sinais de comunicação entre os dois” (Álvaro Magalhães, História Natural do Futebol, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, pp. 182/183). E nem é preciso que, fora do relvado, se estabeleça entre eles uma indestrutível amizade. No “campo”, eles comunicam, jogando, com uma naturalidade e um rigor, que nos deixa, a nós, simples espectadores, verdadeiramente deslumbrados. Não falando, nem por isso eles deixam de “falar” um com o outro. Há, neles, como que uma comunicação mais animal do que integralmente humana. Ou será por acaso que os balneários (quase todos) se situam em nível subterrâneo, em relação ao relvado, como as tocas dos animais? E releio Álvaro Magalhães: “Assim não admira que os gestos dos jogadores nos pareçam decalcados da vida animal: certas cargas, fintas de corpo, mudanças de velocidade, súbitas paragens, pequeninos voos. Como os animais, eles correm, saltam, carregam, estabelecem um território” (op. cit., p. 197). E não são inúmeros os futebolistas que vêem o seu nome associado aos animais? Não era o Eusébio a “pantera negra”? E o Jackie Charlton a “girafa”? E o Ardiles a “formiguinha”? E o argentino Kempes a “gazela”? E lembram-se do brasileiro Leandro, jogador do Valência que, após os golos, imitava os gestos dos cães a urinar? Enfim, o futebol é uma espetacular celebração do animal que, afinal, todos somos também…

Os próprios clubes (e grandes clubes!) identificam-se com animais. Em Portugal: o F.C.Porto, com o dragão; o Sporting C.P.. com o leão; e o S.L.Benfica, com a águia. Existe, no futebol, um tal sentido de fidelidade â Natureza que o enraizamento, no instinto, do gesto desportivo parece redescobrir o verdadeiro conteúdo desta modalidade. Insinuávamos atrás que “o futebol é uma espetacular celebração do animal que, afinal, todos somos também”. Por seu turno, o relvado permanece, normalmente, ao sol, à chuva, ao vento, sujeito à variabilidade do clima.  Ou seja, sem qualquer tendência redutora, em relação à originalidade do futebol, como via de acesso ao natural, ao animal. Se, como considerava Adorno, “a cultura oscila dialeticamente, entre a manipulação e a redenção”, o futebol parece oscilar, acima do mais, entre o natural e o religioso. Segundo o Edgar Morin de O Paradigma Perdido, se a Terra surgiu, há 5 mil milhões de anos, o ser humano só há cem mil anos existe. E por que adiantamos esta ideia com tamanha convicção? Porque é a consciência da morte que mais distingue o ser humano das restantes criaturas de Deus. E foi nesse então que os Neandertalenses começaram a sepultar, com ritos, os seus mortos. Assim como, para mim, não há jogos, há pessoas que jogam, também não há mortos, há pessoas que morrem. O ser humano, em todas as circunstâncias, não é “algo”, é “alguém”.         Ora, abordar o sentido último e definitivo da própria vida não se revela um dado imediato e intuitivo. Significa, se bem penso, que não absolutizamos o relativo, nem tomamos o efémero pelo definitivo. As questões, como estas: Quem sou eu? Donde vim? Para onde vou? – não são perguntas de hoje, são perguntas de sempre. E perguntas que ultrapassam o imanente, o histórico, surgem afinal associadas à condição humana. O homem hodierno, filho espiritual do humanismo, do racionalismo, do positivismo, dos “mestres da suspeita”, entende-se como “secular” e “anti-metafísico”. No lugar de Deus, a tecnociência. Mas, sem Deus, como fim último, toda a vida me parece um processo fracassado. Respeitando os que não pensam como eu, repito-me: a vida, sem Deus, parece-me um processo fracassado…

Patrícia Portela, com assento certo, no JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias (jornal que muito aprecio e onde muito aprendo e… há muitos anos!) não abusa das palavras, nem burila as frases. Leio-a, de facto, com verdadeiro prazer. É uma escritora de vasta cultura e de vasto mundo. Desta feita, no nº. 1327 deste Jornal (11 a 24 de Agosto de 2021) diz “não”  a um  desporto (será desporto?) que eu abomino também particularmente. Realço que este “não” me chega de E. Bloch e, portanto, é “fome” que nos impele ao “possível”, ao “ainda não”. Este “não” tem, como futuro, o horizonte dinâmico da História. Este “não” radica no facto, como a Patrícia o refere, de muitas e muitos atletas de alta competição findarem as suas carreiras “paraplégicos físicos ou emocionais”. Ela “põe-se na pele” destes paraplégicos. E escreve: “Fizemos tudo. Fomos o entretenimento perfeito que as feras já não oferecem nos coliseus. Atingimos as pontuações máximas, batemos recordes nacionais, mundiais e olímpicos. Fomos os melhores na Terra. Em atletismo, no triplo salto, na ginástica, no lançamento do disco, no judo, agora também no surf. Endeusados por minutos, em troca de vidas inteiras, todos nós escondemos o nosso calcanhar daqueles: as vidas isoladas e dedicadas a esticar tronco e membros, a deformação que nós próprias infligimos aos nossos corpos a ensaiar ad nauseam o menor gesto, a praticar saltos e manobras impossíveis, a ouvir que não prestávamos, que não nos estávamos a esforçar o suficiente, que tínhamos de fazer melhor, mesmo quando os pés e as mãos sangravam”.  Por isso, “as olimpíadas são piores do que um carnaval, são quatro anos a treinar, para dez segundos de glória, que podem nunca acontecer. Muitas de nós não se safaram, não ganharam medalhas, não viveram um momento de glória. Mas todas nós tentámos. Para lá do que é humano, para lá do que é decente, para lá do que é possível”.

Peço licença para uma citação de um livrinho de que sou autor, Algumas Teses sobre o Desporto (6ª. Edição, 2019): “De tão amarrados nos encontrarmos ao sistema capitalista, não descortinamos que ele fomenta o bellum omnium contra omnes (a guerra de todos) dando o primado à dimensão económica e siubalternizando a dimensão política. No desporto, fomenta ele a mais despudorada mentira, quando os futebolistas, tenistas, basquetebolistas, ciclistas, etc. negam, contra todas as evidências, o consumo de substâncias dopantes; quando treinadores e atletas escondem a frequência e a gravidade das lesões, numa prática que nada tem de saudável; quando uma idolatria acrítica do desporto percorre os manuais escolares. Tudo é objectualizável no capital, incuindo a pessoa humana”(p. 30). No rio heraclitiano, que é a História, nem o comunismo, em todas as suas formas e essências, soube ser outra coisa senão capitalismo. Quero eu dizer: um capitalismo de estado. E, daí, o desporto dos países comunistas reproduzir e multiplicar as mesmas taras do capitalismo liberal: alta competição, medida, rendimento, lucro e recorde. O desporto, como instituição, começou imbuído de uma “cultura de classe”, como passatempo da burguesia. O desporto decorre, sem margem para dúvidas, do desenvolvimento das forças produtivas capitalistas e, também no desporto, tudo é, acima do mais, objeto, instrumento mercadoria. O atleta de alta competição transforma-se assim num novo tipo de trabalhador que vende a um patrão a sua força de trabalho, como produtor de um espetáculo que tem, em seu redor, como nenhum outro, milhões e milhões de espectadores. E que ajuda a interiorizar uma certa cultura que aplaude e legitima a maximização do lucro para a maximização do poder. E por aqui me fico, deixando um abraço fraterno à Patrícia Portela.     

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto