O peso da Telma (artigo de José Antunes de Sousa, 104)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 29-07-21 3:50
Por Redação

O que nos pesa realmente não é o peso que temos, mas o peso que somos - e pesamos o peso das palavras que se nos vão integrando. Quando dizemos de alguém que é um tipo de peso, estamos a avaliá-lo muito para lá do número de quilos que constam do seu cartão de identidade - que, apesar dos seus 57 quilos, é grande a influência que exerce sobre os demais. Como é o caso da judoca de Almada, a Telma Monteiro,  que soçobrou como uma árvore arrancada por um daqueles tufões que costumam assolar o Japão. E por que arreou assim tão rendidamente a nossa amada atleta?

Por isso mesmo: peso a mais! Ela já tinha trabalho bastante a lidar com os seus 57 quilos regulamentares. E, como se não bastasse ter que aguentar com outro tanto da adversária, abateu-se sobre os seus ombros o descomunal peso das insensatas e desmesuradas expectativas de dez milhões que lhe exigiam a vitória, mesmo tendo em conta a histórica abulia da menina de Almada em palcos olímpicos.

O peso das expectativas afoga e paralisa - como acontecera com Fernando Mamede, nos jogos olímpicos de Los Angeles, em 1984: sabendo que, àquela hora, três da madrugada, o país espantava o sono com gritos e cerveja, na certeza antecipada da categórica vitória do recordista mundial do 10.000 metros, o elegante fundista de Beja, sob o olhar ansioso do Prof. Moniz Pereira, afundava-se clamorosamente, desaparecendo, a meio da prova, da pista, ante o olhar atónito dos seus compatriotas. Tremuras e vómitos: eis no que deu a euforia esperançosa dos portugueses - e o pobre do Mamede não aguentou tão grande peso e arreou.

Este insuportável peso das expectativas é-o na exacta medida em que o/a atleta se aceita permeável ao que dele/dela a sociedade cobra e reclama. É nessa incorporação patológica dos anseios vindos de fora, que se desenvolve o drama dentro.

A propósito, Aldous Huxley: escreveu que “ a experiência não é aquilo que nos acontece mas o que fazemos com aquilo que nos acontece “. Quando, no palreio dos serões televisivos, se diz que fulano ou sicrano não sabe lidar com a pressão é desta fragilidade ôntica do atleta que estamos a falar. É que não é apenas o peso psicológico das expectativas depositadas na performance do nosso atleta, mas é essa sua condição de “nosso” que faz dele uma aposta social infalível - e não há modo mais seguro de insucesso do que o medo de falhar e, assim, desapontarmos tantos (todos) que confiaram em nós: ao peso psicológico das naturais expectativas há que juntar o elemento épico da dimensão simbólica da representação.

E, nesse plano, todos temos bem presente a tragédia grega em 2004, no estádio da Luz, como os franceses recordarão a tragédia à portuguesa, em 2016, no estádio de France.

Ceder ao peso das expectativas é ceder à centrifugicidade ôntica do tempo: é deixar-se capturar pelo engodo fátuo do amanhã, em vez de instalar-se na densidade ontológica do agora: a única instância onde tudo acontece: “ Quem de vós pode crescer um só centímetro à custa de se preocupar com isso? (...) não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá as suas preocupações. Basta a cada dia a própria dificuldade “ (Mt 6,27,34).

A magia do sucesso radica no culto sereno de uma doce presença - aí a âncora a que vale a pena agarrarmo-nos.

E tu, Telma, não permitas que o peso excessivo das nossas expectativas te atirem ao tapete.

Por favor, continua a confiar em ti mesma!

José Antunes de Sousa

Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa