Karaté: ainda ontem… (artigo de Vítor Rosa, 149)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 01-06-21 10:9
Por Vítor Rosa

Um praticante e instrutor avançado de karaté (5.º dan) sentiu a necessidade de escrever uma longa carta (21 folhas) em 09 de fevereiro de 1987, remetendo-a para diversas entidades, pedindo a interferência de quem de direito. Na opinião desse praticante “o funcionamento do Karate, da forma como se vai processando na presente situação, nem sempre estará correcto”. Lamenta-se que “(…) dei o meu contributo para que as coisas estivessem assim (…)”. “Penso que o Karate, tendo como forma institucional as inúmeras associações (de âmbito nacional e não regional) existentes, com as respectivas divergências de ideais, servindo os seus interesses através de democráticas votações, (…), em nada ajuda o Karate Português, pois são mais as divergências do que as coincidências”. 

O que estava em causa? Eram as atitudes de alguns dos dirigentes da Federação Portuguesa de Karaté e Disciplinas Associadas (FPKDA) (1986-1992). Vejamos algumas: 1) a sede da FPKDA estava domiciliada na sede da Associação Shotokan Karaté de Portugal (ASKP); 2) o presidente de direção da FPKDA era presidente de direção da ASKP; 3) o presidente do Conselho Técnico da FPKDA tinha funções semelhantes na AKP; 4) outros cargos desempenhados na FPKDA eram desempenhados por elementos da ASKP. Se não bastasse, as reuniões eram marcadas sem a devida antecedência, impossibilitando a comparência dos instrutores e praticantes. A história é velha e repete-se! 

Nesta carta foram alvitradas sete propostas, por forma a alterar um conjunto de situações, que este instrutor considerava importante. De facto, “(…) entre nós, associações, clubes e praticantes de Karate, acossando-se e tentando cada um ser o melhor da paróquia, sem tantas vezes olhar a meios”, salienta o instrutor autor da carta. Acusava ainda a Comissão Diretiva de Artes Marciais (CDAM), criada em 1972 (Decreto-Lei n.º 105/72 de 30 de março) e extinta em 1987 (DR I Série n.º 33, de 9 de fevereiro de 1987, com o n.º 69/87), de querer sobreviver, servindo de “pêndulo nestas ‘guerras’, aplicando e modificando as leis conforme as necessidades e possibilidades”. As receitas financeiras da FPKDA eram escassas. Eram os praticantes de karaté que pagavam a sua formação, deslocações e estadias. De lá para casa, esta questão não se alterou muito. O autor da carta interrogava-se para onde teriam ido as receitas do 1.º Curso Nacional de Arbitragem? “As receitas desapareceram… As despesas não foram pagas”, arrematava. 

Em 1987, a FPKDA realizou o primeiro torneio interassociações, em Miraflores. Contou com a participação da arbitragem do 1.º curso nacional de árbitros (que teve lugar em 14, 15, 21 e 22 de junho de 1986, onde foram qualificados 6 juízes 3 árbitros associativos). Incluiu provas de kumité (combate entre dois praticantes) e katas individuais e por equipas, femininas e masculinas. O segundo torneio teve lugar no Porto, contando com a participação de 99 praticantes. Esta prova serviu para o exame final de 23 novos árbitros que terminavam o 2.º curso nacional de arbitragem.

A história da FPKDA é cheia de peripécias, que mereciam um estudo aprofundado. Num estado de alma, o autor da missiva refere “quando um dia formos velhos, e soar a hora de nos juntarmos a tantos outros que já estão no outro mundo, não sei para que terá servido tanta luta pelo PODER e por uma RAZÃO que tantas vezes não é nossa”. 

As lutas entre a Federação Portuguesa de Karaté (1985-1992) e FPKDA (1986-1992) viram depois a fundir-se na Federação Nacional de Karaté – Portugal (FNK-P). Passou a haver uma unificação federativa a partir de 1992. 

Agradeço à FNK-P a referência à minha tese de doutoramento na sua página web.

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa