A formatura (artigo de José Antunes de Sousa, 93)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 27-04-21 7:17
Por José Antunes de Sousa

A questão tem a idade do homem: saber se é suficiente ser-se como os outros ou sê-lo como ninguém, sendo certo que sê-lo como ninguém é não só ser morfologicamente único, mas ser melhor que qualquer outro. Dito de um outro modo: envolve-se, nessa empresa avaliativa, o critério sociologista da comparação com os demais, mas também o de um horizonte assintótico de uma perfeição referida a um furtivo absoluto a que inelutavelmente se aspira.

Trata-se de esclarecer o que é isso de formar alguém - se é, qual escultor, cinzelá-lo, lasca após lasca, até alcançar o feitio da obra que se tem em mente ou se dar formação a alguém é, antes, permitir que esse alguém seja hábil e apto a realizar a sua forma, única e inconfundível. Está bem de ver que, em tal empreendimento, se implica uma incontornável dicotomia motivacional - ou ela se alimenta do fluxo acontecimental das circunstâncias (exógena), ou, pelo contrário, ela nasce e nutre-se a partir de dentro (endógena), a partir das suas inegociáveis razões de ser.

Sejamos afoitos e resolutos: formar é fornecer e disponibilizar ao formando as condições adequadas à expressão, livre e criativa, da sua própria natureza, enquanto formatar é submeter alguém a um formato previamente estabelecido: a sua realização deve-se à metódica execução de um padrão rígido e impositivo - como, por exemplo, o modelo de jogo adoptado na Academia, uma tessitura, mais ou menos voluntarista, de elementos técnicos, tácticos e outros.

A postura facilitadora do formador deve incluir, no seu cardápio instrumental, o jogo como elemento prioritário e privilegiado da sua acção educadora junto da criança e do adolescente, porque, bem vistas as coisas,, só através da ludicidade se cria realmente: “o curso do Mundo é uma criança que brinca e coloca as peças aqui e ali. É o reino da criança.” (Heráclito).

As crianças não podem ser as vítimas de um desporto ancorado no primado de uma “razão imperial”, numa lógica excludente de poder e em que o ter se converte em absoluto axiológico. A tal ponto que há país que, perante a evidência do talento que desponta no filho, tendem a olhá-lo sobretudo como um meio expedito de fazer fortuna - o filho-mealheiro!

Entretanto, predadores furtivos rondam os viveiros para abocanharem a truta mais apetitosa e luzidia. Eis como se comportam os chamados olheiros: são-no não tanto por serem bons na arte de detectar talentos, mas por terem olho para o negócio, melhor, para a negociata.

E quando vejo os rapazes da Liga Revelação a entrarem, em formatura, nos campos esquecidos de Portugal, é como se, regressado aos tempos gloriosos de Lanceiros 2, visse um pelotão de recrutas em exercícios de ordem unida na parada do profissionalismo. Ou, para os gostos mais requintados, um desfile de modelos, sob o olhar voraz dos agentes da moda.

Eis o segredo do sucesso: dar de mamar a muitos - e, assim, o sistema se alimenta a si próprio. E quando um facto se torna sistémico, obtém, exactamente por via disso, a aura indiscutível de auto-justificação e a consequente aquiescência social.

E assim se opera a mercantilização do desporto, mormente o futebol, através da reificação do agente desportivo, jogadores e treinadores. O termo resulta da junção de duas palavras latinas (res=coisa+facere =fazer/tornar). Coisa: o nominativo raso e neutro de tudo e de nada: é o lado incolor do mundo - a palidez ôntica do objecto.

O futebol descaracterizou-se e tornou-se numa medonha indústria de mercadoria anónima e transacionada não em função do que é mas do que faz.

O futebol, numa deriva teratológica, está cada vez mais convertido numa bisonha caricatura de si mesmo.

Perante o mais recente assalto de que foi alvo, urge que se congreguem as boas vontades no sentido da sua refundação.

José Antunes de Sousa

Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa