Exclusivo Ronnie: «Não quero voltar a enveredar por maus caminhos»

SNOOKER 01-08-20 5:38
Por Redação

O inglês Ronnie O’Sullivan, de 44 anos, pentacampeão mundial de snooker (2001, 2004, 2008, 2012 e 2013) e atual número cinco do ‘ranking’, promete «dar o melhor» no Mundial, que decorre em Sheffield, e no qual se estreia nos 16avos de final domingo, dia 2 do corrente mês - primeira sessão, 14.30 horas, conclusão na manhã de segunda-feira, dia 3, 10 horas -, ante o tailandês Thepchaiya Un-Nooh, de cabeça limpa, após as inúmeras polémicas e controvérsias que marcam uma carreira de 28 anos à mesa.

Em exclusivo para Portugal a A BOLA, na antevisão da prova, em curso no Crucible Theatre, em Sheffield (Inglaterra), o Rocket, também embaixador do EuroSport, recordista de triunfos em provas de ‘ranking’ (36, tantas quantas o escocês Stephen Hendry) e que busca igualar os seis títulos mundiais do galês Ray Reardon e do compatriota inglês Steve Davis na edição em curso, revela uma maturidade despretensiosa antes de competir, após uma época de 2019/2020 que agora termina e na qual venceu apenas o Xangai Masters, prova não pontuável para o ‘ranking’.

- De que forma esta pandemia do Covid-19 o afetou em termos mentais? Foi relaxante até, para quem tantas vezes já se disse saturado da competição, ou, como para muitos, bem duro?

- Não, aprendi coisas simples da vida e fartei-me de correr pela floresta. Foi a constatação de que não precisas de ter uma vida tremendamente ocupada para teres uma vida… fantástica! Alguns dias não fui fazer o meu ‘jogging’ e senti falta disso. Mas há sempre coisas para fazer. Há sempre trabalho. Aprendi a tirar maior satisfação das coisas. Aprender a gerir o tempo disponível, que é coisa que não tinha muito. Gosto de ser dono do meu tempo. Toda a gente passou mais tempo em casa. A verdade é que não quero voltar à minha vida antiga, intensa, sem pausas. Quero ter tempo para a minha família, para outros desportos sociais e outras atividades. Aprendi a saborear o tempo. É preciso ter tido uma agenda cheia toda a vida para saborear o bom que é, acredita. Penso que todo o Reino Unido está motivado para não voltar à vida com o frenesim de antigamente, antes do Covid-19.

- Começou o Mundial. Um sexto título seu, nestas circunstâncias, não valerá tanto como qualquer dos outros cinco já ganhos, em 2001, 2004, 2008, 2012 e 2013, ou é igual?

- Não creio. Um título mundial é, sempre, um título mundial! Se pudesse, tinha ganho 19 títulos mundiais. E se puder ganho este, de 2019/2020. Mas se não suceder, sem problemas: a vida segue igual. Pois se nos últimos 15 anos ganhei 3 vezes… não será tragédia alguma. Será um regresso de Ronnie O’Sullivan aos seus dias felizes, vós direis, é o que espero.

- Com condições idênticas às da Championship League, em Milton Keynes, à porta fechada depois de público só sexta-feira, no primeiro dia, isolados e fechados no quarto todos os dias da prova, será duro? Queixou-se da alimentação e do isolamento nos quartos, por isso sugere alguma alteração às condições para o Mundial?

- Bem, o hotel era bom, a ‘malta’ simpática, em termos de saúde tudo foi feito, as condições eram fantásticas. Todo o dia fechado no quarto sem poder sair foi duro, mas pior será se for um hotel barato e a comida não for a condizer. Assim, não será um grande ambiente. E isso é importante para os jogadores. E o orçamento da World Snooker nunca foi por aí e além: foi sempre a cortar no que podem. Mas isto não são poucos dias, são 17 dias. Espero que não vão por um hotel baratinho e comida ‘fast food’ ou quase. Vão quase sempre pela opção de orçamento mais baixo, mas espero que isso não suceda no Mundial, até dia 16. Não podemos escapar do que comemos. Eu gosto de levar a minha comida saudável. Pode ser um tema importante. Provavelmente vou ter de passar fome ou recusar a comida do hotel, talvez até quase greve de fome durante 17 dias [risos]. Veremos. A saúde e bem-estar de todos têm de ser prioridade. Fui a Milton Keynes, experimentei a ver no que dava, veremos se Sheffield é igual. Vou ter os meus médicos sempre contactáveis, todos os dias. Nada será o mesmo.

- Deixou crescer o bigode durante estes quatro meses, disse ser uma homenagem ao falecido Willie Thorne, Que memórias guarda da lenda do snooker, que nos deixou após uma leucemia?

- Passei uma semana com ele na Irlanda do Norte, quando ganhei o Mundial pela primeira vez [2001] e… foi uma das melhores semanas da minha vida: não parámos de rir. Era um indivíduo… estupendo! Mais do que ser CEO de uma empresa, era feliz, e realizado. E é assim que quero sentir-me ao deitar todos os dias: de bem com a vida. Ele ria-se de tudo, quero ser assim. Teve infelicidade na vida e na carreira. Às 9 da manhã já emborcava uma imperial, se preciso fosse, e dizia que me dava uma sova à mesa, enquanto eu pensava ‘ele não me pode ganhar’. Mas a disposição era tudo. Recordo-me de uma vez que estava feliz, a sorrir, após perder um jogo por 2-9. ‘Foi só um jogo’, respondeu-me, ante a minha perplexidade. É a atitude certa na vida. Era uma figura, tinha caráter, personalidade forte, muita classe, a sua falta será sentida por todos.

«Não me vejo a fazer outra coisa»

- Como domina as emoções durante os jogos, ao fim de 28 anos no circuito? Ainda fica nervoso, ou vai calmo e relaxado?

- Sim, claro que ainda fico nervoso. Muitas vezes durmo mal na noite antes, a pensar que ‘não consigo fazer isto ou aquilo’, ou que vou falhar e ser eliminado. Quase fico doente. Mas isso não é mau, é normal: não me vejo a fazer outra coisa e não há outro lugar do Mundo onde mais quisesse estar do que à mesa, a competir. Mas a minha reputação está sempre em jogo, e isso é duro, tenho de olhar por ela. Todos estão sempre à espera de algo inesperado de mim, e essa é a pressão com a qual, por vezes não lido bem. A pressão de ganhar o jogo, dessa, gosto… e acho que me leva a jogar melhor, muitas vezes.

- De que forma o Mundial, prova longa, de 17 dias, e exigente, o afeta física e mentalmente?

- Nas últimas duas vezes que venci, foi um prazer e adorei [2012 e 2013], joguei bem. A primeira vez que venci [2001] senti-me… aliviado, pois já era profissional há nove anos, desde 1992, e era uma velha ambição e sonho meus que finalmente tornei realidade. Mesmo na segunda [2004] e terceira vez [2008] que o ganhei, o sentimento no fim é maravilhoso, de dever cumprido: sentia-me com forças para mais 17 dias a jogar. Óbvio que é um alívio sair por cima, ao fim de 17 dias… mas tinha energia para ir correr uns quilómetros na manhã seguinte, sempre! Ou então, tirar um ou dois dias de folga e recomeçar a jogar mais 17 dias. Nunca me senti cansado após ganhar o Mundial. E isto porque, felizmente, na maioria dos jogos que me correm bem, em que voo na mesa, nunca me cansei e a sensação foi sempre fantástica!

- Já admitiu que em certos períodos da carreira poderia ter ganho mais, mas distraiu-se com ‘la dolce vita’. O que o trouxe de volta ao foco no jogo, o ‘jogging’, a comida saudável, a família?

- Fui para o The Prior [clínica de recuperação] duas vezes, e queria tudo para ontem, demasiado. Tive um grave problema de alcoolismo. Quando saí, tive períodos de abstinência e durante três ou quatro dias sentia-me o melhor do universo. Compreendo a adição, por isso correr e ‘jogging’ foi a maneira de ter um vício… bom. Substituí a adição má por uma boa. Mas tendo sempre presente que a escolha é minha e não queria voltar a enveredar por maus caminhos. Tinha de aproveitar o meu tempo. Nunca gostei de perder e sempre amei competir. Quero dar o meu melhor. Já lá vão alguns anos a entrar e sair da mesa, é verdade. Mas se alguém há 20 anos me tivesse dito que ganharia o que já conquistei, diria que era maluco…

Tiger Woods e Michael Jordan como referências do 'Rocket'

- Predestinado sempre foi, mas algum mentor ou técnico o ajudou especialmente a superar?

- Michael Jordan, se tivesse treinador basebol quando era miúdo, teria sido fantástico como foi no basquetebol? E o Tiger Woods, se tivesse jogador basquetebol na infância, teria ganho tudo o que ganhou? Não me parece. É um pouco como eu. Sou como o Liverpool no futebol, entendo a bola [risos]. Só têm de me mostrar a técnica… e a bola faz o que eu quero. Não tenho medo delas. Percebo o ‘top spin’ no ténis. Ao longo da estrada, precisei de pessoas para me tornar mais sensível às bolas, a perceber e mostrar-me táticas alternativas, a ir mais longe nos limites. Como o Tiger Woods. O desejo natural de enfiar a bola… esse, está lá. E continua a ser uma sensação magnífica. Todos nós precisamos de boas influências, e de reparos para melhor lá chegarmos.

- Viu o documentário ‘The Last Dance’, sobre a hegemonia dos Chicago Bulls e de Jordan no basquetebol e na NBA? O que achou?

- Claro. Michael Jordan podia ter sido um grande jogador de basebol, poderia ter sido o presidente da Microsoft, tamanha era a sua vontade de superação, de ser melhor do que os demais. Era… o ‘boss’. Tinha aquela mentalidade vencedora. Mas teve de trabalhar muito, ganhar músculos, velocidade, motivar-se a si próprio. E eu faço o mesmo, muitas vezes, sabes? Tenho de arranjar razões para estar ao máximo. Preciso de um pouco de pressão para vos mostrar o que valho. O pior são as críticas, quando passas a vida a tentar corresponder às expetativas. Acho que todas as grandes figuras do desporto precisam de um pouco de controvérsia nas suas vidas, fora das provas, para inspirar os outros.