Gareth Thomas, Râguebi e Futebol (artigo de Manuela Hasse, 14)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 20-12-19 10:41
Por M. Hasse

Espero que os aficcionados do râguebi que me lerem me desculpem. Vivo em guerra com o meu teclado profissional que teima em ajustar as palavras, em especial aquelas que de algum modo têm alguma semelhança entre si, e, em vez de ficar a palavra teclada, no texto fica uma adaptação electrónica obtusa. Em vez de relativo fica quase sempre relative, por vezes insiste em escrever inglês ainda que nem inglès se possa chamar pois entram todo o tipo de sinais, mesmo o #, em vez de Gareth Thomas ou de Jonny Wilkinson (esqueci Brian O’Driscoll, o irlandês extraordinário!) ficou algo que não corresponde ao nome dos melhores jogadores britânicos de râguebi de todos os tempos. O interesse em enviar o artigo antes do fim de semana fez o resto. E daqui em diante o tema deste novo texto começou a esboçar-se. Essa distância imensa entre dois tipos de desportos com uma conhecida raíz em comum (o futebol) e a forma como o seu desenvolvimento em si e a sua relação tanto com o público quanto com a sociedade é tão diferente. O râguebi, cujos adeptos decidiram – entre outras alterações – optar por conservar as características mais duras e consideradas mais viris do jogo, entre as quais a canelada fazia parte das tacadas do jogo inicial, e os outros que optavam pela valorização do jogo sem caneladas e com a dinâmica de um jogo mais civilizado  Até meados do século dezanove, estes jogos de bola conhecidos por futebol,  e outros do género, eram considerados selvagens. Em meados desse século, entre as décadas de 40 e 60, em grande parte nas escolas públicas inglesas (na verdade frequentadas pelos filhos da aristocracia, desde o século dezasseis, e da alta burguesia da terra mais tarde, um outro fenómeno inglês) o jogo foi sendo submetido a um conjunto de transformações que conduziram à formação da Associação de Futebol em 1863, momento em que uns defenderam um tipo de jogo – o football association ou simplesmente football e outros o rugby football ou simplesmente football. A Rugby Football Union foi criada oficialmente em 1871.

Interessante é o facto de, pouco depois da separação, os grupos que haviam defendido a conservação da canelada também a terem banido. Não deixa também de ser intrigante o facto do jogo de futebol ter conquistado multidões de adeptos em Inglaterra e no mundo inteiro. Quanto a isso, os estudos de Elias e Dunning, indicam que terá sido a necessidade de se encontrar um equílibrio entre diferentes aspectos do jogo que favorecem um equilíbrio entre a tensão e o domínio dessa mesma tensão que se revela indispensável à conservação do interesse, à paixão desencadeada  pelo jogo de futebol  ainda que outros jogos colectivos tenham seguido uma orientação equivalente. Na lógica da teoria desenvolvida do processo de civilização em que o desporto moderno participa  e constitui um meio fundamental na transformação das relações entre os indivíduos entre si, esse aspecto não deixa de ter interesse. Nessa mesma linha o râguebi participa do processo em causa. Mas a proposta e a explicação com base na teoria das configurações, sendo valiosa para entendermos o desenvolvimento da sociedade, deixa campo aberto para outras explorações dos factos. Porque na verdade não nos explica, tal como reconhecem os próprios, porque razão alguns desportos são rapidamente integrados noutras sociedades (em Portugal após a I Grande Guerra, a partir da década de 20, o futebol destacou-se como o desporto de longe mais popular) e outros não (por exemplo ainda no nosso país, o cricket), e porque razão o futebol se tornou um desporto de massas, apesar do interesse e dos seguidores de outros desportos – tanto em Inglaterra quanto no resto da Europa e no mundo ocidental em geral. O interesse pela história do desporto (e os desportos em si) enquanto fenómeno social, desperta de forma mais ou menos sistematizada nos anos 60 do século passado com Peter McIntosh. A sua integração nos planos de estudo universitários vinte anos depois coincide com a escalada do favorecimento deliberado das disciplinas ditas duras, as quais se tornaram verdadeiras ditaduras, que impõem nas academias – com honrosas excepções – não só um isolamento da disciplina de História do Desporto, a falta de um indispensável apoio aos financiamentos, a desvalorização das ciências sociais e humanas que procuram lidar com esses estudos e a total impossibilidade de integração de novos investigadores. O processo de Bolonha mais não fez do que agravar a situação com a redução dos anos das licenciaturas e, com ela, a selecção das ditas áreas duras, que estudam e se orientam particularmente para as características do corpo biológico, a rentabilização das técnicas e do comportamento motor, exigidas pela elevada performance do desporto profissional de alta competição, bastante mais rentoso a todos os níveis. Sendo assim, a maturidade desta área, no âmbito das ciências sociais e humanas, quer na Europa quer nos próprios USA, está longe de ser alcançada. Daí que sejam necessárias décadas, e bastante mais estudos, para que se possa ver com maior nitidez as implicações profundas que se ligam às diferenças de popularidade verificadas entre um desporto como o futebol e o râguebi. Na Austrália e na Nova Zelândia as diferenças de popularidade existem porém, pelo contrário, com a larga da vantagem do râguebi sobre o futebol. E na Ásia, o interesse pelo futebol não deixa de crescer.

Em todo o caso, essa situação não nos impede, antes nos impele, a pensar sobre estas questões em especial quando entre nós o futebol conhece uma atenção do fôro obsessivo, logo excessivo. Desde os inícios do século vinte, áreas urbanas e industriais onde uma população de operários convergia (por exemplo na zona fabril de Alcântara, em Lisboa) o associativismo dos trabalhadores rapidamente assumia um cunho recreativo, cultural e desportivo onde o futebol se destacava. Em Inglaterra o fenómeno teve início bastante mais cedo. Mas nem mesmo aí, nas principais cidades, nas diferentes regiões, o futebol e o râguebi não grangearam da mesma atenção, variando também aí consoante aspectos culturais e sociais particulares – por exemplo, no País de Gales o râguebi seria adoptado com determinação por uma população operária para ali atraída pelo trabalho nas minas, enquanto na Escócia, pelo contrário, era reforçado o amadorismo, restricto portanto às élites das escolas públicas de Edimburgo, e desencorajando a participação dos trabalhadores manuais com a imposição acentuada de rígidos códigos de actuação no jogo dos quais o operariado permanecia afastado – a separação de classes que as maneiras de jogar da aristocracia e da alta burguesia que cada vez mais se assemelhava e estava empenhada em confundir-se – pela forma rude e sem ‘esses’ códigos como jogava, como desde sempre jogara. Ainda hoje em dia, a preparação anterior dos jogadores de râguebi é diferente o que representa outra distinção entre um desporto e outro: Jonny Wilkinson, por exemplo, considerado o melhor jogador de todos os tempos, obteve as mais elevadas médias em biologia, química e francês ainda que, depois de ter sido admitido na Universidade de Durham acabou por abandonar a Universidade para se dedicar profissionalmente ao râguebi. Recebeu o Doutoramento Honoris Causa pela University of Surrey. E o irlandês O’Driscoll é licenciado em Gestão do Desporto, pela University Collegue of Dublin. Pela sua parte, recebeu o Doutoramento Honoris Causa pela Dublin City University (2013), pela Queen’s University of Belfast (2014), e pelo Trinity Collegue of Dublin (2017). O desenvolvimento do desporto não poderia deixar de ser afectado pelas características locais, relações e transformações sociais.

No entanto, o próprio jogo em si poderá ter sido construído sobre bases que, a par dos exigentes códigos de conduta adoptados, se afastaram bastante entre si: no râguebi, de aparência mais violenta do que pode realmente ser, o jogo assenta em grande parte no contacto físico directo, exige uma enorme contenção – de outro modo facilmente poderia descambar para uma verdadeira batalha campal – um elevado auto-controlo e, dado um contacto físico de grande intensidade, quer nas formações espontâneas quer nas formações ordenadas, tanto quanto na corrida e placagens, o respeito pelo adversário impõe-se. Sem este, os ténues limites entre o jogo e a guerra desapareceriam e a luta facilmente seria mortal. Os confrontos são frontais, leais. O desenvolvimento do jogo requer um exigente código de conduta que se observa, por exemplo, no respeito pelo árbitro, numa maior decência na própria brutalidade viril na forma como se joga e vísivel no estado em que ficam os jogadores – verdadeiros blocos de betão, de grande estatura, pescoços tremendos e ombros largos e possantes, cabeças ligadas, orelhas rasgadas ou protegidas (todas deformadas) por um pequeno capacete de râguebi ou mesmo adesivo, sobrancelhas abertas, mãos protegidas por luvas ou ligaduras, protectores de dentes, troncos e coxas de músculos maciços identificados por equipamentos de pano grosso e resistente com as cores dos clubes em jogo que representam. O jogo joga-se literalmente com o corpo todo, com a determinação de enfrentar o adversário sem receio, de se atirar na sua direcção e seja o que Deus quiser. Faz parte do jogo o confronto directo, o impacto dos corpos, as fugas apenas se admitem com a bola, em ziguezague, bola sempre lançada no sentido oposto ao da corrida, quer dizer, para trás, e a corrida no sentido da linha de fundo, dos postes adversários sempre que possível, embora dificilmente se chegue ao outro lado sem se ser atirado para o chão, diga-se: sem cerimónias. Outras vezes, na fuga é o jogador que se esforça por marcar que mergulha compacto no chão e em deslize consegue marcar ainda que com três, quatro, cinco ou mais latagões a perseguirem-no e a acabarem em cima do fugitivo, para não falar nos elementos da equipa atacante que, em apoio limite do fugitivo, às vezes a centímetros da linha de marcação, se atiram para cima da molhada e procuram arrancar os adversários do molhe sem infringir as regras. Admita-se: não é fácil e requer características que os jogadores e os jogos de futebol não têm, não permitem. É aí que é indispensável o video-árbitro, a bola fica totalmente oculta sob os corpos sobrepostos, nada se consegue ver – magnífica jogada, extraordinária finalização. Wolves, Harlequins, Warriors, Lions, Barbarians, sejam lá quem forem, no final do jogo a atmosfera é pacífica e exaustos retiram-se sem pressa, mais pesados do que entraram embora tivessem acabado de perder uns quilos.

No futebol, assiste-se precisamente ao contrário. O contacto é evitado e, na maior parte das vezes, punido. Apenas a bola estabelece a ligação entre os jogadores, entre os adversários. O que requer maior agilidade, uma atenção periférica quase eléctrica, o jogo assenta na habilidade e na manha, na capacidade de melhor ultrapassar, antecipar-se e, acima de tudo, ludibriar o adversário, uma condição de qualquer confronto mas aqui mais acentuada em todas as jogadas possíveis. As faltas são, com maior frequência, provocadas e simuladas onde nem o video-árbitro – que esclarece qualquer dúvida no râguebi e adoptado bastante antes de o ter sido no futebol – esclarece seja o que for, antes agrava as dúvidas e as deliberações tomadas pelos árbitros – quase sempre contestados e uma das actividades mais sujeitas a abuso no desporto e na esfera profissional em geral.  O jogo jogado com os pés e a cabeça, por vezes com o peito, as coxas e até com as costas, é segmentado, o fulcro está nas pernas e nos pés, jogar um jogo limpo é possível, isto é, um jogo frontal, decente, mas onde denunciar as jogadas é logo uma desvantagem e benefícia o adversário. Por outro lado, mesmo quando o jogo deixou de apoiar-se no drible e nas vedetas individuais e se joga como um todo, progressão em equipa, bem entrosada, bem oleada, o jogo vive do espectáculo das habilidades, das capacidades individuais, da investidas treinadas ou espontâneas que surpreendem sempre adversários e público que espera, com avidez, o momento de se extasiar com a jogada conseguida, com o mais inesperado.

Naturalmente, ambos provêm da mesma raíz, ambos partilham de aspectos comuns no âmbito da própria atitude lúdica dominante: a competição, o agôn. Porém, enquanto o râguebi foi muralhado com um conjunto bem delimitado de normas de conduta, no futebol as regras apresentam-se menos marcadas, as linhas de conduta são de certo modo mais fluídas, há mais espaço para fazer de conta que se cumprem ou que, típico, simulem a intervenção determinada do adversário em obter a bola ou derrubar em falta, mesmo que assim não tivesse sido. A acção do árbitro e dos juízes de linha em geral contestada entre nós, é assertiva em Inglaterra se recorre à manha nas jogadas me as decisões dos árbitros e dos juízes de linha, embora contestada mais recentemente pelos treinadores latinos, são mais acatadas mesmo que, por vezes possam ser injustas. A aceleração e a complexidade crescente do jogo, da tensão do jogo imposta pela necessidade de vencer os jogos, de marcar pontos, tenha vindo a tornar a intervenção dos árbitros cada vez mais complexa e difícil. Mas dentro das exigências limpas do jogo, sem contaminações externas, a própria decisão do árbitro faz parte do jogo – seja ou não correcta. O humano não é infalível. Desde que lícita, a decisão do árbitro enquanto elemento integrante do jogo, faz parte do jogo.

Dadas as diferentes características dos dois jogos, râguebi e futebol, o futebol profissional tende a atrair um tipo de público agressivo e violento, ordinário, onde as massas assentaram arraiais, facilmente provocam o desmoronamento dos princípios socialmente aceites, imperiosos na consciência de cada um quanto à importância vital para a sobrevivência de todos, a necessidade sentida do seu cumprimento, do respeito pelas normas que são indispensáveis à vida em comum. Não se trata apenas da concentração da multidão embora esta seja já uma condição propícia ao desenvolvimento de comportamentos inaceitáveis e criminosos. Ao contrário do que se observa nos jogos de râguebi, onde na generalidade as famílias inteiras vão assistir tranquilamente aos jogos, pai, mãe e filhos, alguns ainda de colo, participam aos sábados com serenidade, no nervoso e agitado público do futebol essa presença seria uma insensatez, um risco. Ao evitarem (como se vê) essa participação, as famílias protegem-se. Outros entretanto, parte integrante das massas, constituem a escória da sociedade e servem-se desse cenário do futebol que sendo mais propício à violência (cada vez mais sancionada – o que reforça esta ideia) para descarregarem as suas frustrações sociais de todo o tipo, nefastos, excluídos de uma vida normal também pela sua natureza de escumalha, encontram no futebol um recinto onde se alojam e encontram a oportunidade de expulsar o que não sabem nem conseguem digerir pois, na realidade, não têm lugar numa sociedade decente. Não existe futebol sem público.