Olimpismo & Religião (artigo de Gustavo Pires, 108)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 28-11-19 5:3
Por Gustavo Pires

A comunicação social que pouco ou nada se preocupa com o desporto para além dos casos da bola e das estatísticas das performances do Ronaldo, de um momento para o outro, acordou porque uma menina de treze anos de idade foi impedida de participar num jogo do campeonato porque os árbitros, e bem, entenderam que, a maneira como ela equipava por constrangimentos de ordem religiosa,  não respeitava os regulamentos que são determinados pela Federação Internacional de Basquetebol (FIBA). Ora, o que acontece é que, numa cedência que vai contra o próprio espírito olímpico, uma vez que o desporto deve estar liberto de qualquer manifestação religiosa ou política, o regulamento da referida Federação até prevê "a possibilidade de os jogadores poderem equipar de acordo com as suas convicções religiosas, desde que o mesmo garanta a liberdade de movimentos e assegure a segurança dos intervenientes no jogo". Portanto, nunca existiu qualquer fundamentalismo por parte dos árbitros que se limitaram a aplicar o regulamento, até porque já haviam cedido em jogos anteriores, numa atitude de condescendência e mentalidade aberta de acordo com a maneira de ser da generalidade dos portugueses. Segundo comunicado da Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB), o treinador do clube até já tinha sido informado pela equipa de arbitragem que o equipamento da jogadora teria de estar de acordo com as regras definidas pela FIBA o que, diga-se de passagem, não era nada difícil de conseguir. Por isso, não aceitamos a  posição do treinador do clube quando disse que estava "desiludido" com a explicação da FPB!!! Tenho para mim que a FPB é que devia estar desiludida com o treinador. Porque não é, certamente, para desencadear atitudes deste tipo que a FPB e a FIBA fazem formação de treinadores. E nunca lhe teria sido atribuído o título de treinador se ele afirmasse não estar disponível para cumprir os regulamentos da FIBA. Também não aceitamos a atitude do pai da menina que, utilizando o idioma inglês (como se verificou na reportagem da TVi), numa estratégia subliminar, pretendeu fazer passar a ideia de que Portugal inteiro apoiou a sua filha.

Somos um país com várias comunidades que vivem em coexistência fraterna há centenas de anos. Somos todos portugueses no maior respeito e simpatia uns pelos outros. Milhares professam a fé muçulmana como outros milhares professam a fé cristã, judaica ou outras. Fazemos todos parte de uma cultura miscigenada da qual nos devemos orgulhar. Somos um Estado laico pelo que os crucifixos nas salas de aula um dos símbolos mais afirmativos do Estado Novo deixaram de estar presentes. Por isso, não se aceita que, de um momento para o outro, surja um conflito entre religião e desporto que, se bem entendemos, foi trazido de fora. Estamos, certamente, todos solidários com a menina de 13 anos de idade que, em pleno século XXI, num país laico, democrático e liberal, por motivos religiosos, foi impedida de jogar basquetebol. Mas não me quer parecer que a solução da FPB tenha sido a melhor quando, numa estratégia de marketing político, entendeu por bem ultrapassar o problema e entregar um equipamento regulamentar à menina. E não estamos de acordo porque, ao fazê-lo, institucionalizou uma situação em que, por via oficial, a menina, como Miguel Sousa Tavares teve a oportunidade de referir na TVi, passou a ser discriminada relativamente às outras atletas uma vez que o vestuário que por imposição religiosa é obrigada a usar prejudica a sua performance atlética.

Seria bom que os dirigentes desportivos de todas as fés religiosas entendessem que o desporto moderno há muito que se libertou dos constrangimentos da fé cristã quando esta punha obstáculo à livre prática desportiva pelo que, agora, é inaceitável que possa cair nos constrangimentos impostos por qualquer outra fé religiosa.

Pierre de Coubertin foi o primeiro a perceber que, para além da imposição das igrejas cristãs que exigiam a proibição da prática desportiva ao domingo e do próprio “cristianismo muscular” que pretendia instituir a distinção entre “cristãos musculados” (muscular christians) e “homens musculados” (musclemen), quer dizer, entre atletas cristãos e não cristãos, o sucesso universal do Movimento Olímpico passava por se afastar das questões de ordem religiosa. Acresce que, quando em finais do século XIX, durante o 1º Congresso Olímpico (1894), a máxima olímpica, idealizada pelo Frade Henri Didon foi, pela primeira vez, institucionalmente proferida, foi-o com a seguinte ordem das palavras: Citius, Fortius, Altius. E porquê? Porque se tratava, com o Altius em último lugar, de conferir à máxima olímpica um sentido de elevação e superação competitiva dos atletas relativamente aos Céus e a Deus. Coubertin, durante vários anos, até à morte de Didon, utilizou o lema olímpico com a mesma ordem das palavras – Citius, Fortius, Altius que o Frade havia idealizado. Todavia, depois da morte de Didon, que aconteceu a 13 de Março de 1900, Coubertin, num texto publicado em 1901 onde abordava a problemática da educação pública, já não utilizou a ordem inicial das palavras. Utilizou a ordem que hoje é conhecida: Citius, Altius, Fortius. E porquê? Porque, Coubertin tinha a perfeita noção de que o Movimento Olímpico moderno para se desenvolver a uma escala mundial tinha de o fazer na realidade terrena da vida, superando a metafísica cristã e assumindo-se como uma espécie de religião laica. Tinha de descer à terra e ao convívio de todos os Homens para além das suas convicções religiosas. Para Coubertin o êxito do Olimpismo obrigava a cortar com a ideia de que a sua máxima estava na elevação do espírito de cada atleta ao Deus da cultura vigente na Europa que era o Deus cristão. Assim, era necessário cuidar do futuro do Movimento Olímpico que não podia estar cativo de nenhuma religião em particular. E como “o sagrado não morre desloca-se”, a estratégia consistiu em ultrapassar a busca da transcendência cristã a fim de adotar uma nova transcendência, desta feita de características temporais que, a partir do conceito grego de areté, introduzisse uma religiosidade terrena na busca da excelência pessoal e social pela prática desportiva.

Coubertin assumiu o desporto como um produto do industrialismo e do consequente progresso e desenvolvimento, isto é, como um lugar de racionalidade à margem de um pensamento mítico-religioso no âmbito da fé cristã ou de outra qualquer. Como ele escreveu no livro L'Education Anglaise en France, podia-se ser católico, luterano, calvinista, ortodoxo, agnóstico ou ateu porque o Olimpismo, como filosofia de vida, não era qualquer coisa a apreender, mas “uma atmosfera a respirar”. E as religiões não se podiam sobrepor à própria força criadora do neo-Olimpismo porque os jogos deviam estar envolvidos no seu próprio poder espiritual que buscava a transcendência pela educação e a cultura competitivas à margem de qualquer religião em especial.

Perante esta perspetiva de futuro introduzida por Coubertin no Movimento Olímpico há mais de cem anos, pergunta-se:

Faz algum sentido pretender-se introduzir a questão religiosa no desporto sujeitando-o a procedimentos e restrições ao contrário daquilo que foi a sua história durante o século XX?

É, para mim, claro que não. Porém, o hijab, enquanto símbolo religioso, está, com a maior das complacências das autoridades desportivas, a ser utilizado nas competições desportivas por muitas atletas como símbolo da sua identidade religiosa. E elas fazem-no nos países laicos em que o Estado nada tem a ver com as religiões que os seus cidadãos professam.

O que é que resulta de tais atitudes? Consciente ou inconscientemente o que resulta é o começo da islamização do desporto como uma das etapas iniciais da islamização dos países. Dirão que o caso em apreço não tem significado porque é “uma gota de água no oceano”. Não estou de acordo. São casos como este que acabam por causar um “efeito de borboleta” sem que, inicialmente, ninguém dê por isso. Quer dizer, através de um caso desportivo ao qual não se atribui a devida importância, começam a abrir-se as portas que vão permitir a destruição de um desporto que, no passado, conseguiu libertar-se dos constrangimentos religiosos da fé cristã.

O que é importante considerar é que o desporto, com as suas diversas organizações internacionais que se replicam nos mais diversos países do mundo incluindo os islâmicos, pode ter um papel de extrema importância assim os dirigentes europeus políticos e desportivos saibam assumir com coragem e dignidade as suas responsabilidades. Por exemplo, as Federações Internacionais que de acordo com o COI regem o programa técnico das respetivas modalidades nos jogos Olímpicos e Campeonatos do Mundo e Regionais podem, através de regulamentos claros e de acordo com os princípios da Carta Olímpica, proibir a utilização de qualquer vestuário com o qual possam ser estabelecidas relações de tipo político ou religioso. A este respeito a Liga Internacional pelos Direitos da Mulher (ILWR) remeteu um documento para o Comité Organizador dos Jogos Olímpicos de Paris (2024) (ILWR) em que é pedido que seja proibido o uso do hijab bem como outras peças da roupa islâmica a fim de garantir que as muçulmanas possam competir sem quaisquer constrangimentos de ordem religiosa. Annie Sugier, autora do livro “Como o Islamismo Corrompeu os Jogos Olímpicos”, acusa os países islâmicos de, para além de não permitirem que as mulheres participem em competições mistas, impedem-nas de participarem em quaisquer desportos que não estejam de acordo com as leis islâmicas. Nestes termos, a ILWR solicita ao Comité Olímpico Internacional que cumpra a Carta Olímpica e impeça as atletas de utilizarem qualquer indumentária de ordem religiosa. As cedências que neste domínio têm sido, contra a Carta Olímpica, admitidas pelas Federações Internacionais, para além de prejudicarem e humilharem as mulheres acabam por transmitir a ideia para os países islâmicos que aqueles prejuízos e humilhações são perfeitamente admissíveis. E assim acontece porque às autoridades daqueles países acaba por nunca chegar qualquer crítica ou reprovação com um verdadeiro significado político e social.

Acresce que, na lógica da aceitação de um relativismo cultural sem um sentido crítico, os países liberais-democratas estão sempre disponíveis para acomodarem exigências que atentam contra a epistemologia monocultural do desporto moderno baseada no legado grego. Ela é o resultado de uma evolução histórica de escolhas técnicas, políticas e sociais com tempos próprios de maturação que não podem nem devem ser pervertidas aos desígnios de uma qualquer crença política ou religiosa, sob pena do desporto entrar num processo de implosão.

Assim, o que se passou com o clube a que se refere o presente texto foi um balão de ensaio com origem externa em que se procurou aferir o padrão de aceitação dos portugueses aos preceitos islâmicos em matéria de prática desportiva. A confirmar-se esta tese somos levados a considerar a seguinte hipótese: O Cristianismo Muscular há muito abandonado, pela nova ideologia do Crislão, vai ressuscitar através do Islamismo Muscular só que desta feita será, certamente, para destruir o desporto e o Movimento Olímpico modernos. Ora, isto a acontecer não será, certamente, bom para os judeus, os cristãos ou, entre outras fés religiosas, os muçulmanos.

Não se podem dar tréguas a quaisquer fundamentalismos religiosos que pervertam a lógica monocultural do desporto moderno. E, a este respeito, não pode haver atitudes de apaziguamento. Se o Movimento Olímpico se libertou dos constrangimentos e imposições das Igrejas Cristãs não pode, agora, ceder às imposições do radicalismo de uma qualquer fé religiosa sob pena de, inadvertidamente, entrarmos numa espécie de novos jogos antropológicos desta feita de características religiosas.

A Carta Olímpica é clara quando diz que “toda e qualquer forma de discriminação relativa a um país ou a uma pessoa com base na raça, religião, política, sexo ou outra é incompatível com a pertença ao Movimento Olímpico”. Ninguém impede um judeu, um cristão, ou um muçulmano de praticar desporto devido às suas convicções religiosas. Está fora de causa. O que não se pode aceitar é que os judeus, os cristãos ou os muçulmanos, transportem para o desporto as suas convicções religiosas e obriguem os outros a aceitarem-nas e a terem de conviver com elas. O desporto moderno, na sua essência competitiva, antecede um qualquer processo de integração multicultural. Enquanto competição organizada a nível internacional entre todos os Homens, o objetivo “sine qua non” está na organização de competições justas, nobres e leais, a fim de se compararem performances atléticas para além da raça, do credo ou das condições sociais de cada um. Foi esta a ideia que, desde a primeira hora, animou o espírito de Coubertin. O seu grande objectivo, como  referiu nas suas Memórias Olímpicas, foi o de, através da organização dos Jogos Olímpicos, levar à mesa de negociações as várias nacionalidades europeias que se encontravam em disputa, transpondo, deste modo, para os terrenos do desporto os conflitos que, até então, eram resolvidos nos campos de batalha.

Assim, o desporto moderno obriga a um processo de assimilação pelo que todos aqueles que desejam aderir, devem aceitar, de A a Z, as regras que têm vindo a ser construídas e partilhadas de há mais de cento e vinte anos a esta parte. Alterar o standard desportivo por motivos religiosos ou outros é destruir o próprio desporto. Por isso, não é possível aceitar a existência de uma qualquer forma de mediação dialética entre o desporto e a religião sob pena de recuarmos mais de cem anos e transformarmos o desporto num espaço de afirmação e até confrontação religiosa. Por isso, não podemos, agora, aceitar que, em pleno século XXI, queiram impor novas exigências religiosas ao desporto sejam elas quais forem. Se essas exigências não forem recusadas em nome da dignidade das mulheres em particular e da pessoa humana em geral que o sejam em nome dos princípios e dos valores do Olimpismo enquanto realidade ecuménica de partilha da paz e do futuro entre todas as raças, todos os credos e todas as civilizações.

Temos de cerrar fileiras. Não podemos ser ingénuos ao ponto de, perante quaisquer extremismos, venham eles de onde vierem, aceitarmos fazer o papel do apaziguador. Como Winston Churchill um dia afirmou, “apaziguador é aquele que alimenta o crocodilo na esperança de ser o último a ser devorado”.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana