As técnicas do corpo e o desporto (artigo de Vítor Rosa, 46)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 05-07-19 12:2
Por Vítor Rosa

As “técnicas de corpo” é uma conferência dada por Marcel Mauss (antropólogo francês), em 17 de maio de 1934, perante a “Société de Psychologie”, cujo texto é publicado, pela primeira vez, no “Journal de Psychologie”, em abril de 1936, e depois, com outros textos, na “Sociologie et Anthropologie”, nas edições Presses Universitaires de France, em 1950. Mauss estuda a noção de “técnicas do corpo” e as suas variantes entre as culturas. Quais são as técnicas de corpo descritas? Que conclusões Mauss tira das suas observações? 

Na introdução da sua conferência, Mauss evoca o contexto no qual ele é levado a forjar este conceito de técnicas do corpo. Este conceito impõe-se pouco a pouco nele, de forma “concreta”, em resposta a diferentes observações realizadas ao longo da sua vida. Estas reteriam a sua atenção pelo conjunto de fatos sociais, aparentemente, “heterógenos” e inclassificáveis, que a etnologia da época não sabia como descrever e categorizar, levando, assim, a colocar um item de “diversos”. O conceito de “técnicas do corpo” permitiram-lhe reunir justamente numa mesma categoria um conjunto de fatos saídos de observações diversas e de ser um objeto digno de análise científica.

Mauss conhece bem as “técnicas do corpo”: a natação, a corrida, o boxe, a esgrima, o pedestrianismo e o alpinismo, pois foi um praticante assíduo. No caso da evolução das técnicas de natação e dos métodos de aprendizagem, Mauss constata a sua evolução, no espaço de uma geração: passagem da braçada ao crawl, diferentes formas de mergulhar, etc. Existe, na sua perspetiva, uma variação das técnicas no seu tempo e revela a dificuldade de se “libertar” da técnica que lhe foi ensinada. Para ilustrar este pensamento, apresenta o caso da pá de trincheira. As tropas inglesas não conseguiam se adaptar às pás francesas, o que mostra as diferenças no uso dos utensílios. Das suas observações no meio militar, coloca em evidência a “discordância” entre a marcha francesa e a inglesa. Os soldados ingleses não conseguiam desfilar ao ritmo francês. Assim, a sua conclusão é a de que as “técnicas elementares” diferenciavam segundo o país. Uma outra observação completa a análise destas diferenças: a maneira de marchar não é fixa e definitiva numa mesma sociedade. Ela pode mudar e evoluir em função do modo de vida, meios de transportes, modos de vestir, etc. e os modelos culturais. Mauss constata a similitude entre a marcha das enfermeiras americanas e as jovens francesas. Nos anos 1930, estas pouco a pouco adotaram a marcha específica das estrelas americanas. Este exemplo traduz a difusão de uma técnica do corpo de uma sociedade para outra. Neste caso particular, através da influência crescente do cinema americano (caso que prefigura um movimento mais amplo da globalização cultural que tenderia para uma uniformização dos modos de vida através a difusão dos modelos ocidentais). Um outro exemplo apresentado foi a posição das mãos e as maneiras (in)convenientes de estar à mesa. As técnicas do corpo não são neutras, mas regidas por normas, regras de bem-fazer, que eram relembradas na infância. Estas regras e normas podiam variar igualmente segundo o país: o que é conveniente numa cultura não é forçosamente noutra (exemplo disso são as diferentes relações que se tem com o pudor, a nudez…). Mauss evoca também uma técnica de corpo especificamente desportiva. É o caso da corrida, onde ele constata que os atletas na época adotavam uma técnica mais eficaz do que aquela que lhe tinha sido ensinada trinta anos antes (posição de braços e de punhos), o que remete para a questão da “eficácia” das técnicas ou do seu nível de “rendimento”. Estas observações mostram que os gestos, que podem parecer mais “naturais”, em aparência (caminhar, nadar, correr), são as “técnicas do corpo” adquiridas por cada indivíduo quando da sua socialização no seio de uma sociedade e num período de tempo.

Esta ideia pode parecer relativamente banal nos dias de hoje. No entanto, ela foi inovadora para a época de Mauss. O estudo do corpo era, antes de mais, um fato das ciências naturais (biologia, medicina), que o tratavam como um objeto natural (exemplo: usos da dissecação para estudar o seu funcionamento). No âmbito da antropologia, no início do século XIX, procura-se comparar as sociedades focalizando a análise nas diferenças corporais, comparando os tamanhos dos crânios. A antropometria procurava explicar os comportamentos culturais e sociais pelos fundamentos biológicos. 

A sua análise rompe com a visão biológica do corpo, colocando em evidência a dimensão social e cultural, através da definição que ele dá às técnicas do corpo: “as formas que os homens, sociedade em sociedade, de uma forma tradicional, sabem se servir do seu corpo” (Mauss, 1936,  p. 365). Assim, não existe uma forma natural ou inata de se servir do corpo, mas de usos diferentes, moldados e transmissíveis por cada sociedade. Mauss emprega a noção de “habitus”, que será desenvolvida posteriormente por outros autores, nomeadamente pelo sociólogo Pierre Bourdieu, para sublinhar a dimensão coletiva das técnicas. Mesmo se existem variações de um indivíduo para outro, é antes de mais a “razão prática coletiva” que orienta os comportamentos e molda os gestos.

 

Referências:

Mauss, Marcel (1936), « Les techniques du corps », in Journal de Psychologie, XXXII, n.ºs 3-4, 15 mars-15 avril.

Mauss, Marcel (1950), Les techniques du corps. Sociologie et anthropologie, Paris, PUF, pp. 363-386.

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares de Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa