Zlobin conta tudo: Das «condições como no exército» em Alcochete ao «céu na terra» no Seixal

BENFICA 15-06-19 3:54
Por Pedro Soares

O guarda-redes Ivan Zlobin deu entrevista ao site russo Championat em que revelou como teve a carreira por um fio em 2014, depois de lhe ter sido detetado um sopro no coração nos juniores do CSKA. Chegou mesmo a pensar que nunca faria carreira no futebol. E foi essa a razão pela qual nunca jogou no campeonato russo, apesar das boas indicações que sempre foi dando no clube moscovita.

«Lutei por Zlobin, sempre me convenceu, mas com um sopro no coração, a ser alvo de exames de seis em seis meses, os médicos ficaram com medo e o CSKA perdeu pessoa maravilhosa e talentoso guarda-redes. Via-o como discípulo do Akinfeev», contou ao Championat o técnico de guarda-redes do CSKA, Vyacheslav Chanov.

Depois foi Zlobin a ter a palavra.

«Sempre passei com normalidade nos exames médicos, mas algo deu errado nos juniores após ter feito um eletrocardiograma (ECG) em que me detetaram sopro no coração. Disseram-me que não podia ser convocado para jogar. E pensei que acabava tudo ali, comecei a preparar-me para entrar na universidade e a pensar onde poderia trabalhar», contou.

Fez pausa de nove meses no futebol, voltou a casa, a Tyumen [cidade na... Sibéria], mas o bichinho nunca morreu. «Uma vez quis juntar-me a um jogo de vizinhos, pediram-me mil rublos. Que podia fazer? Paguei e joguei», contou. Sem ainda saber, começou a desenhar novo futuro no futebol, porque em Tyumen completou processo de reabilitação ao problema cardíaco que lhe foi detetado e após novos exames o cardiologista deu-lhe luz verde para voltar a fazer o que mais gostava. «Falei com o meu agente, que me disse que podia aparecer algo de Portugal. Comecei a preparar-me, juntei-me à equipa da universidade, depois pedi para treinar-me no FC Tyumen com o meu primeiro treinador. Até me quiseram oferecer contrato, mas surgiu o convite do Leiria», contou, sem deter:

«Alexander Tolstikov [presidente da SAD leiriense] deu-me uma chance e depois foquei-me só no futebol. Comia, dormia, treinava, treinava e treinava. Pensei que se me mostrasse poderia ir para outras equipas. Foram 3/4 meses em que o Leiria me deu muito», vincou. Foi em Leiria que se fez homem. Teve de aprender a cozinhar, a pensar no dia a seguir, a controlar as despesas.

Em Alcochete, como no exército

Antes de ir ao Seixal, Zlobin fez testes na Academia de Alcochete com os sub-19 do Sporting. «Foi momento emocionante, era a primeira grande oportunidade para chegar a grande clube no Ocidente. As condições eram como no exército: beliches, 6/7 pessoas num quarto, todos de diferentes nacionalidades», contou. Treinou num sintético e a coisa não correu bem. «Magoei-me, fiquei com queimaduras e no posto médico deram-me unguento que não ajudou. Chorei e fiquei com vergonha de voltar aos médicos. Procurei na internet como curar abrasões, nem dormia à noite, as queimaduras eram assustadoras. Vi que pasta de dentes ajudava e durante duas semanas usei mais pasta no corpo que nos dentes», recordou.

Já no Seixal, o céu na terra

Não ficou no Sporting, regressou ao Leiria, mas uma semana depois Tolstikov voltou a ligar-lhe.

«Disse para me equipar e ir ter com ele ao estádio. Quando lá cheguei, perguntei onde íamos. ‘Benfica’, respondeu. ‘Uau’, pensei. Quando cheguei e vi as condições... era o céu na terra. Quartos como no hotel, fiquei num duplo. Fui logo para a equipa B, observaram-me durante uma semana e pediram-me para ficar, apesar de eu pensar que me tinha corrido pior no Benfica que no Sporting», contou.

Já no Seixal, ainda temeu pelo coração. «Fiquei com medo antes de fazer exames. Depois do ECG, perguntei e o médico disse que estava tudo bem».

Foi, afinal, o coração que o acabou por guiar até ao Benfica. «Foi diagnóstico [do sopro] para o melhor. Vim para Portugal, abri novo mundo.»

Voltando ao presente, Zlobin sabe bem o que quer no futuro. «O desejo agora é ficar no Benfica e provar que mereço lugar no plantel principal», garantiu.