A ética no desporto (artigo de Vítor Rosa, 15)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 11-03-19 10:29
Por Redação

Mais do que uma atividade, o desporto tornou-se um estilo de vida, uma forma de estar e também de parecer. Expressão da nossa civilização, ele alinha o passo com o progresso pela performance e o recorde, mas também é um momento de convivialidade e de partilha, que a civilização individualista tende a esquecer. Ele incarna a recusa de uma civilização muito urbanizada, pela evasão de espaços naturais. Como já vimos noutros artigos, escritos no jornal “A Bola”, realidade desportiva é diversa e variada, segundo as finalidades e os modos de prática adotados pelos indivíduos.

Que uso se faz da noção de ética na retórica desportiva? Qual é o seu papel? A ética tem o mesmo sentido que a moral, que significa, etimologicamente, o conjunto dos costumes. Ela define um ideal de bem por um conjunto de valores que, sob a forma de regras, servem para guiar e prescrever as condutas dos indivíduos. Concebido em torno de valores de justiça e de igualdade, o desporto assenta em dois princípios fundamentais que são as regras e o respeito das mesmas.

O cumprimento dos valores morais traduz uma disposição durável, que chamamos de virtude. O fair-play (habitus inglês adquirido pela educação dos colégios a partir da regra do self-control, de reserva e de distanciação: a razão deve ter a primazia sobre a emoção), o respeito, a integridade são uma realidade em si mesmo. Os valores pertencem a uma categoria mais abrangente, que compreendem regras jurídicas e as regras morais. As regras jurídicas (os regulamentos, as leis) participam numa regulação do corpo social. Elas têm por objetivo tratar das relações entre as pessoas e também as relações entre as pessoas e as coisas. Elas têm a ver com um certo tipo de domínios (segurança, manutenção da ordem, proteção dos bens, garantia dos contratos, definição de normas, etc.), cuja transgressão pode incomodar a sociedade. O constrangimento moral assenta sobre a boa vontade, que tem a sua fonte na interioridade da consciência pessoal. Ela revela, literalmente, do for intérieur (para o interior) por oposição ao for extérieur (para o exterior), que representa a autoridade da justiça humana.

Coubertin está certamente na origem dos valores atuais do desporto, se bem que estes evoluíram muito. Ele via no desporto moderno um meio de atingir um ideal humano.  O ideal se prossegue com a fórmula mens sana in corpore sano, um espírito são num corpo são, emprestado à Antiguidade Romana e, particularmente, à décima sátira de Juvenal (por volta de 360 a.C.). Coubertin modificará em mens fervida in corpore lacertoso, traduzido por “um espírito ardente num corpo musculado”.

O fair-play, o jogo franco e a lealdade são os traços maiores do sportsman, que respeita as regras do jogo. Depois vem a combatividade, que se assimila à coragem, à tenacidade, à resistência, segundo a conceção darwinista do “struggle for life” (lutar pela vida). A combatividade leva à “liberdade do excesso”, que permite o recorde.

O desporto é o garante da ligação social, porque os atletas não só têm que respeitar as regras, como são, muitas vezes, obrigados a jogar juntos, a se confrontarem em conjunto, a se apoiarem mutuamente, e de se entreajudarem para pretender a vitória.

A ética no desporto surge, especificamente, sobre a forma de princípios, de valores, de proibições difundidas, essencialmente, pelo CIO – Comité Olímpico Internacional, no seio da Carta Olímpica. Muitos dos códigos estabelecidos pelas federações se inscrevem na continuidade do CIO, para promover os valores olímpicos. Estes valores do desporto constituem, para a humanidade, um ideal suposto incarnar uma verdadeira filosofia sob a forma de um estilo de vida. A Carta Olímpica é acompanhada de um código ético, cuja primeira edição data de 1999.

Um outro traço da ética do desporto é a referência à integridade. Este valor, que remete para a honestidade e imparcialidade, tem a ver, sobretudo, com os membros do CIO que têm a responsabilidade da organização dos JO – Jogos Olímpicos. Ela procura prevenir contra a corrupção. O código é um dos pilares de referência última, de todas as práticas desportivas, sejam elas federativas, profissionais, nacionais ou internacionais.

O modelo imperativo da ética considera que a moralidade se exprime na prática por princípios que os indivíduos devem respeitar de forma formal. É o filósofo alemão Kant (1785 [1984]) que está na origem desta conceção imperativa do dever, que chamamos de ética deontológica (do grego deon, que significa dever). O dever e a obrigação não têm uma origem externa da lei, mas de um atributo do sujeito moral. A Carta Olímpica e o Código Ético do Movimento Olímpico inscrevem-se nesta conceção imperativa.

Na Éthique à Nicomaque, de Aristóteles, faz-se referência à ética da virtude. A pessoa virtuosa tem o sentimento de bem fazer, de fazer com prazer e sinceridade numa ação benéfica para o próximo. É uma ação emocional e racional, que confere a quem o exprime um estatuto estimável e exemplar. A dopagem, a batota, a corrupção, as discriminações, etc. são as derivas últimas do desporto. Existe, assim, uma “plasticidade” ética do desporto.

Em algumas décadas, o universo de virtudes descompõe-se. O desporto livrou-se do lirismo das virtudes e, na atualidade, responde a uma lógica pós-moralista, narcísica e espetacular. A idade moralista terminou. É o desporto-moda que prevalece. O desporto virtuoso metamorfoseou-se numa esfera reciclada pela lógica da mercantilização e da diferenciação marginal.

* Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa.