Quem “matou” a mudança? Suspeito nº 13 (artigo de João Oliveira)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 31-01-19 6:57
Por João Oliveira

O dia tinha começado bem cedo: com os adeptos dos dois Clubes de maior rivalidade, F.C. Galácticos e Dallas F.C., a deslocarem-se para o estádio nacional, onde acabou de se disputar a Final da Taça; com as televisões de mais de 100 países a acompanharem o último treino, todo o estágio e deslocações das duas equipas; com entrevistas a antigos jogadores; com os comentadores a fazerem as suas projeções sobre o que poderia ser o jogo.

O Detetive Colombo estava no camarote Presidencial, a convite do Presidente do F.C. Galácticos, o Sr. Mark Angie, onde todos os olhos estavam virados para a televisão, para ver e ouvir as entrevistas rápidas. O Treinador Brad Wooden apareceu no ecrã, com cara de poucos amigos e começou a abordar a derrota da sua equipa – “a nossa equipa entrou no jogo algo precipitada, mas assim que se reposicionou, por volta dos 10 minutos, esteve por cima no jogo, criou mais situações de golo, encostou o adversário às cordas e foi sempre superior em posse de bola, remates, cantos, …” – faz uma pequena pausa, enquanto coloca a mão esquerda sobre o queixo e continuou – “mas, infelizmente, o árbitro não nos deixou ganhar, ao marcar um penalti inexistente” – e retira-se.

“Detetive Colombo” – chamou o Presidente Angie e continuou – “tem disponibilidade de me acompanhar, para trocar umas impressões consigo?”. “Claro, Presidente Angie” – respondeu o Detetive Colombo.

Depois de ultrapassados todos aqueles momentos iniciais e já na sala das refeições do Hotel, em que a Equipa estava alojada, o Presidente Angie e o Detetive Colombo estavam sentados, numa das dezenas de mesas redondas, naquela sala com um pé direito equivalente a pelo menos três andares, envidraçada de alto a baixo e com uma vista fantástica para o jardim e para a piscina.

Todo o mundo estava a abordar o jogo, se tinha sido ou não penalti, (…), enquanto naquela enorme sala, estavam apenas duas pessoas que começavam uma conversa de enorme impacto. O Presidente Angie começou por dizer – “Detetive Colombo quer como jogador, quer como dirigente e agora também como presidente, algumas vezes acusei o árbitro de nos ter retirado a hipótese de ganhar e hoje, ao ver a entrevista rápida no nosso Treinador, vi-o a fazer o mesmo, questionei-me sobre o real efeito deste tipo de intervenções e agora pergunto-lhe a si, se culpar os árbitros é a melhor forma de conseguirmos os resultados que desejamos?”.

“Qual é o resultado desejado? Que resultado é que o presidente queria alcançar e agora o Treinador desejava alcançar?” – perguntou o Detetive Colombo. “As vezes que utilizei esta estratégia, fi-lo porque alguém tinha feito algo de errado, que nos prejudicou, queria que essa pessoa melhorasse e não voltasse a repetir esse erro. Julgo que o nosso Treinador desejava o mesmo, teve a perceção que o árbitro de hoje nos prejudicou e quer que esse tipo de erros não volte a acontecer” – respondeu o Presidente Angie.

“Compreendo, os jogadores, os treinadores e os dirigentes dedicam muitas horas a planear, prepararem-se, treinarem para obterem os melhores resultados e quando têm a perceção que há uma pessoa que erra, sentem que todo esse trabalho foi atacado, tem que ser defendido e não pode voltar a ser desrespeitado” – começou por dizer o Detetive Colombo e continuou -“convido-o a colocar-se no lugar no árbitro de hoje e a ver o treinador a acusá-lo de ter feito algo de errado que prejudicou o jogo. Como se sentia?” – começou a explorar o Detetive Colombo. “Provavelmente iria sentir-me chateado, zangado, irritado e furioso” – respondeu o Presidente Angie, enquanto o Detetive Colombo colocava uma nova pergunta – “como é que reagiria numa situação como esta?”. “Muito possivelmente iria contra-atacar o acusador, embora perceba que outras pessoas pudessem ignorar a situação” – devolveu o Presidente Angie. “Recordo que o resultado desejado era que a outra pessoa corrigisse o erro. Neste contexto, de ser atacado, sentir-se irritado e com vontade de contra-atacar, o Presidente ia concentrar a sua energia a melhorar alguma coisa, a corrigir e evitar o erro?” – perguntou o Detetive Colombo. Enquanto o Presidente Angie olhava para o chão e abanava com a cabeça, da direita para a esquerda, e respondeu – “não, pelo contrário, iria criar novos problemas”.

“OK, queremos que os outros mudem, culpámo-los e eles não mudam, como queríamos, mas porque razão as pessoas culpam os outros?” – perguntou o Presidente Angie, enquanto fez uma nova pergunta – “Porque razão os Pais culpam os Filhos, os Treinadores culpam os Árbitros, os Professores culpam os Alunos ou Pais ou os Gestores culpam os Colaboradores ou as circunstâncias, quando querem que estes mudem, se culpar não os leva a mudar ou se mudam é temporariamente?”

“Essa é uma excelente pergunta e tem pelo menos duas ideias a explorar” – respondeu o Detetive Colombo, enquanto o Presidente Angie se desencostava da cadeira, como que aproximando-se do Detetive, para ouvir melhor algo de muito importante, enquanto o Detetive continuava – “por um lado, ao culparmos os outros ou as circunstâncias, responsabilizamos os outros ou circunstâncias, ao mesmo tempo que nos desresponsabilizamos, isto é, não reconhecemos o que é que fizemos de errado e com isso, comprometemos qualquer hipótese de melhorarmos. Por outro lado, os Pais, os Professores, os Treinadores e os Gestores utilizam a culpa para corrigir os erros dos Filhos, Alunos, Jogadores, Árbitros e Colaboradores, porque todos implicitamente sabem que a culpa está para a mudança como a vara está para o saltador à vara: do mesmo modo que sem a vara um saltador não consegue ultrapassar a fasquia, também as pessoas sem a culpa não conseguem mudar”.

“Detetive Colombo percebo perfeitamente a primeira parte, que ao culpar os outros podemos estar a camuflar os nossos erros e a comprometer a nossa mudança, mas estou um pouco confuso com a segunda parte” – comentou o Presidente Angie.

“Presidente, quem foi o maior saltador à vara de todos os tempos?” – Perguntou o Detetive Colombo. “Foi o Sergei Bubka” – respondeu o Presidente Angie. “Pois bem, o Sergei Bubka chegou a saltar mais de 6 metros. Alguma vez poderia saltar os 6 metros sem a vara?” – perguntou o Detetive Colombo, enquanto observou o Presidente a abanar a cabeça como que a dizer não e continuou – “pois bem, do mesmo modo que o Sergei Bubka não teria saltado mais de 6 metros de altura sem a ajuda da vara, também as pessoas não mudam sem a ajuda da culpa, pois sem ela não conseguem saltar a fasquia da mudança.”

“Como assim? Como é que a culpa alavanca a mudança das pessoas e como culpar a compromete?” – perguntou o Presidente Angie.

“Há uma diferença entre culpar e culpa” – começou por dizer o Detetive Colombo e continuou – “culpar é atribuir aos outros ou atribuir a si a culpa, enquanto a culpa é um estado, um facto, uma circunstância que resulta de termos feito algo de errado do ponto de vista moral ou legal. Por outro lado, a consequência natural de culpar os outros é envergonhá-los, ataca-los, o que provoca defesa em vez de mudança, enquanto a consequência natural de fazer algo de errado (culpa) é sentirmos vergonha, que infelizmente está conotada negativamente, quando apenas nos tenta entregar uma mensagem e nos oferece a energia para tornar essa mensagem em realidade” – explicou o Detetive Colombo.

“Que mensagem é essa? Para que é que essa energia é disponibilizada?” – indagou o Presidente Angie, que por esta altura, não estava só com o tronco para a frente, para ouvir melhor, encontrava-se completamente focado, como uma pessoa que persegue um tesouro, acaba de o encontrar e só lhe falta abri o baú. “A mensagem é: emenda, corrige, melhora, evita os erros; e a energia é oferecida para MUDAR” – respondeu o Detetive Colombo.

“Ok, já percebi” – começou por dizer o Presidente Angie – “quando vemos que alguém fez alguma coisa de errado, como por exemplo marcar um penalti inexistente, culpamos essa pessoa para ver se ela muda, mas culpar os outros e envergonhá-los vai ativar a irritação, a vontade das pessoas se defenderem, uns fazem-no ignorando e outros contra-atacando e essas pessoas não mudam, ao mesmo tempo que camuflamos os nossos erros e comprometemos a nossa mudança. Ou seja, não conseguimos o resultado que desejávamos. Se dirigentes, treinadores, professores, gestores e pais querem que exista mudança, necessitam de começar por mudar o objetivo de - mudar os outros - para - os outros quererem mudar. Para as outras pessoas quererem mudar, estes necessitam de ter a consciência de que fizeram algo de errado, de aceder ao sentimento (vergonha) associado a fazer-se algo de errado (culpa), de conhecer a mensagem desse sentimento e utilizarem essa energia para mudar”. “Excelente resumo Presidente Angie” – respondeu o Detetive Colombo.

O Presidente Angie fez uma pequena pausa e continuou – “como as pessoas não conhecem a mensagem da vergonha, a vergonha torna-se desconfortável e as pessoas evitam a todo o custo aceder a este tipo de sentimentos; como não conhecemos o papel da culpa ou nos confundimos com o que fazemos, repelimos a culpa; como aceder à culpa exige reconhecer que fizemos algo de errado; e como fazer algo de errado requer a consciência da diferença entre o que está correto e errado, a Culpa Morre Solteira e comprometem-se as possibilidades de mudança. Se queremos mudar, necessitamos de deixar de camuflar, culpando os outros, o que é que podíamos ter feito melhor, e se queremos que as outras pessoas mudem, necessitamos de substituir este objetivo por - elas quererem mudar – e de as deixar de culpar e envergonhar. Detetive Colombo, mas por onde começar?”

“Presidente, recorda-se de ter referido que a culpa resulta de termos feito algo de errado do ponto de vista moral ou legal?” – perguntou o Detetive. “Sim, perfeitamente” – devolveu o Presidente Angie. “Então, podemos começar por educar as pessoas sobre os valores e princípios morais e sobre as leis para mais pessoas distinguirem o certo do errado e depois juntar a isto literacia das emoções” – continuou o Detetive Colombo. “Ou seja, se no meu Clube, se nas Famílias, se nas Escolas, se nas Universidades, se nas Empresas, se nas (…) houverem programas de ética, direito e inteligência emocional é mais provável que a mudança aconteça” – rematou o Presidente Angie.

João OliveiraDoutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia – ISMAI e formador em Desenvolver Equipas Eficazes, Motivação e Gestão do Pensamento em Contexto Profissional, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.