Uma narrativa não ficcionada (artigo de Manuel Sérgio, 260)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 05-10-18 6:50
Por Manuel Sérgio

Sempre guardei ciosamente a minha identidade e, o mais que pude, a minha independência. Daí, que os meus signos não sejam os mais usados e os meus códigos pareçam transgressivos. Daí, que a prática dita desportiva, ou se apresenta com valor formativo, ou não se reduz à linguagem financeira, ou surge norteado por valores – ou, para mim, não é desporto. Iniciei, com 31 anos, a minha atividade quase literária, no extinto jornal Os Belenenses, ora  criticando, com filtro severo e apaixonado, a vida do meu Clube, ora relatando avidamente jogos de futebol. Passados alguns anos, comecei a escrever, a convite do jornalista Luís Alves, no caderno desportivo do jornal O Século. E, em 1971, o dr. Raúl Rego, diretor do jornal República, honrou-me com um convite para colaborar neste jornal de genuíno ideário liberal, laico e anti-fascista. Nas minhas visitas semanais à redação, onde deixava a minha colaboração habitual, conheci pessoalmente o Alberto Arons de Carvalho, o Mário Mesquita, o António Reis, o Jaime Gama, o Álvaro Guerra, o José Jorge Letria e outros jornalistas que sabiam usar palavras de atraente recorte e ressoante contestação. Os meus escritos que pareciam (e parecem) de mera convivência pacífica e que não merecem qualquer assomo de crítico empolamento, também não pretendiam (não pretendem) instalar-se no “desporto pelo desporto”. Rejeitando embora o lardo da intolerância, faço do desporto (como já o tenho dito inúmeras vezes) um “pretexto” para concorrer, na medida das minhas posses, ao enraizamento dos valores universais do humanismo, na História, na Sociedade e na Vida. Concordo com os que dizem que “o futebol é a coisa mais importante das coisas pouco importantes”. Não diria o mesmo do desporto – que, no meu modesto entender, não se confunde com o gongorismo e a truculência de um certo futebol muito publicitado e propagandeado.

Relembro com saudade a minha conversa com o Dr. Armando Rocha, diretor-geral dos Desportos, a quem fui pedir autorização para colaborar no “República”. Acolheu-me com simpatia (éramos sinceros amigos) e, com fremente curiosidade, perguntou-me: “ Ainda não reparou que a sua colaboração no República pode criar-lhe problemas, como funcionário público que é?”. E, porque nele a amizade se tornara um ponto de honra, murmurou ainda: “Embora você de mim só possa esperar compreensão e estima”. Na sua autobiografia, intitulada Memória (Federação Académica do Desporto Universitário, Lisboa, 2003) escreve, no prefácio, o Prof. Veiga Simão: “Armando Rocha é uma personalidade fascinante, que merece a estima e admiração dos que o conhecem, até porque o seu relacionamento humano é marcado por uma frontalidade e acutilância invulgares, traduzidas na forma como coloca e analisa os problemas da vida e avalia o comportamento das pessoas e das instituições. Ao mesmo tempo, e sejam quais forem as perspectivas com que nos debrucemos sobre os actos da sua vida, emerge sempre com nitidez o amor ao trabalho, o respeito pela hierarquia, a lealdade ao Estado e uma preocupação constante pelo rigor, pela verdade, pela justiça”. Armando Rocha consagra um capítulo da sua Memória à “colaboração de um oposicionista” (pp. 108/109). O oposicionista fui eu, mas… sem paixões espetaculares, nem lances supérfluos, quero eu dizer: escrevia, pensava, defendia os ideais democráticos com alguma audácia juvenil. Mas nunca passei disto – o suficiente, no entanto, para não confundir-me com os que ainda admiravam António Sardinha e deitavam melancólicos adeuses ao miguelismo e ao integralismo… na década de 70 do século passado!

A verdade é que saí do gabinete do Dr. Armando Rocha, com a firme convicção de que ele me concedera um afetuoso “nihil obstat”. E assim comecei a colaborar no República, acentuando, logo no primeiro artigo (há mais de 40 anos!) a minha visão do desporto e do “homo competitivus” que o corporiza: “Também concorre ao aperfeiçoamento das características psicológicas de todas as idades e de cada um dos sexos. Nada esquece no movimento humano, sob o ponto de vista articular, muscular, funcional. Pretende dar ao praticante força, velocidade, “endurance”, resistência, coordenação. Não se limita a fazer bestas esplêndidas, ou mesmo animais racionais com impecável coordenação neuromotora. É mais ambicioso: quer ser um factor de enriquecimento das estruturas sociais, porque reivindica tempo de lazer e nível de vida aceitável, porque quer fazer parte da vida quotidiana de todos (todos!) os homens, porque se afasta do “panem et circenses” das turbas massificadas e quer ser um meio de o homem se exercitar no uso da liberdade. Este é o desporto em que eu acredito. Conserva intacta a função biológica do desporto percepcionado à maneira antiga. Mas acredita firmemente que tem uma função social e política, por outras palavras: que se situa na esfera da responsabilidade social. Pensando bem, talvez possa mesmo adjetivá-lo de político. Isso mesmo! Achei! Um desporto político! Porque recusa a esfera do primado do íntimo, do subjectivo e aceita o predomínio da categoria do encontro e do intersubjectivo. Este é o desporto em que eu acredito. Não ostenta recordes, estádios monumentais, campeões-superstar. Não tem por ele as letras grandes das páginas dos jornais. Mas tudo considera instrumental, em relação ao ser humano. Tudo!”.

Desde então, até hoje, não mudei de caminho, de ritmo e de sinal, fazendo da palavra uma forma decisiva de participar na transformação de um desporto, que mais parece “guerra” do que outra coisa qualquer, num desporto como poderosa expressão de transcendência física, psíquica, emocional, social, política. O “homo competitivus”, ou melhor: o “homo ludens-competitivus”, ou seja, o praticante desportivo, tanto no lazer, ou na educação, ou na reabilitação, como no espetáculo desportivo e na alta competição – o praticante desportivo não deverá esquecer-se nunca que é homem e são as mais lídimas qualidades humanas que nele devem brilhar e como fundamento das próprias qualidades desportivas. A vida nunca me foi fácil. Aos 22 anos de idade tinha, como habilitações literárias, a Instrução Primária; aos 27 anos, completei o sétimo ano dos liceus, trabalhando simultaneamente no Arsenal do Alfeite. Mas nunca invejei ninguém. Quem, como eu, criou, em larga medida, o seu próprio destino, procura mais os seus próprios defeitos e limitações do que as limitações e defeitos do seu semelhante.  Sendo impiedoso para comigo, dou pouco crédito à impiedade dos outros, designadamente os que se mostram incapazes de admirar as virtualidades alheias. Posso antipatizar com uma pessoa, mas este sentimento não me impede que aplauda os seus méritos indiscutíveis. Será isto sinal de fraqueza? Aceito sempre a minha fragilidade! No entanto, muitas vezes o faço também por imperativo categórico das minhas mais profundas convicções. A nossa cultura ocidental aceita, quase sem pensar, o polo ateniense (e iluminista, acrescente-se) da Razão e com dificuldade o polo pascaliano do Coração, em poucas palavras: prefere as leis à poesia.  Nesta narrativa não ficcionada de uma pessoa que sempre viveu próxima do desporto, há mais cultura do que civilização, há mais coração do que razão, há mais sabor do que saber. E há Amor, acima de tudo! 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto