Valores: evolução ou degenerescência? (artigo 3 de Armando Neves dos Inocentes)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 24-09-18 11:29
Por Armando Neves dos Inocentes

Na Piscina Oceânica de Oeiras deparamo-nos com um painel onde se afirma que a prática da Vela “procura aprofundar valores de cidadania, companheirismo, amizade, tolerância, confiança e auto-estima em cada um dos participantes”.

É mais que comum no Karaté recorrer-se a cinco máximas, afirmando-se que a prática do mesmo aperfeiçoa o carácter (1), cultiva a sinceridade (2), incentiva o desenvolvimento do esforço (3), fomenta o respeito pelo próximo recorrendo à etiqueta (4) e promove o autocontrolo (5).

Não há modalidade desportiva que não alarda a existência de valores no seu seio durante a fase de formação dos seus praticantes.

E se podemos estabelecer uma comparação entre a ontogénese e a filogénese da motricidade do ser humano, também nos deparamos com um paralelismo entre a evolução axiológica do desportista e a evolução dos valores do e no desporto…

Se na fase de iniciação e formação do praticante o modelo pedagógico pretende inculcar valores no mesmo, o objectivo principal do desporto até à primeira grande guerra mundial era a moral e a educação.

Na fase da especialização do desportista o resultado começa a ser sobrevalorizado, isto é, sobrepõe-se a qualquer um outro valor - treina-se e compete-se com vista a um determinado resultado tendo-se em conta o espectador que assiste ao evento. Foi após a primeira grande guerra mundial que começou a emergir no desporto o objectivo espectáculo.

Quando o desportista se encontra na fase de rendimento, a vitória é a única coisa que conta, tentando-se alcançá-la por vezes sem se olhar a meios. O desportista começa a estar sujeito já não só ao seu desempenho mas também a pressões exteriores e o desporto metamorfoseia-se dado que o desportista tem de satisfazer o treinador, o clube, o patrocinador… Compara-se à fase do desporto moderno em que “Ganhar não é o mais importante, é a única coisa que importa!” (como referiu Vince Lombardi) e muitas vezes, para além da vitória, importante é também o recorde. Foi a partir da década de 80 que o desporto começou a ser mais uma indústria geradora de comércio e de comunicação.

Por fim chega-se à fase da profissionalização. O desportista é peça de uma engrenagem da qual já não se consegue libertar e, por isso mesmo, tem de fazer parte da mesma. Estamos então no desporto pós-moderno: tudo se quantifica, tudo se negoceia, tudo é mercantilizado. Entram em cena no desporto nesta etapa os mass media, a alta tecnologia, a publicidade, o direito, a economia e a política.

Parece assim haver em toda esta evolução uma degeneração de valores… Se no primeiro caso se pode considerar essa degeneração como adaptação a um sistema em constante mudança, no segundo existe um processo intencional e planeado onde as disputas de poder acabam por programar mudanças de comportamento.

Como refere Mihir Bose em “The Spirit of the Game – how sport made the modern world” (2012, London, Constable), “o desporto adquiriu uma filosofia antes de ter sido adequadamente organizado e, em grande medida, o principal problema do desporto moderno é esse choque entre sua filosofia do século XIX e o subsequente desenvolvimento de muitos jogos, já que eles tiveram que reagir a um diferente, e em constante mutação, mundo”.

As consequências dos acontecimentos acima referidos levam em primeira instância a uma reprodução. Em segunda instância levam a uma inovação, ou a constantes inovações, onde uma análise abrangente das mesmas nos remete para aquilo a que Jack D. Forbes (1998, “Colombo e outros canibais”, Lisboa, Antígona) chamou de “patologia uética” – o desprezo pelo ser humano, a exploração do trabalho de outrem em função de objectivos ou lucros privados. Poderemos dizer pois que a patologia uética invadiu o desporto.

A reprodução torna-se então madre dessa inovação.

Lev Tolstoi dá-nos um exemplo muito concreto em “A morte de Ivan Ilitch”, quando a personagem principal, juiz, é atendido pelo médico: “Ivan IIich foi-se. Passou-se tudo como ele esperava, e como sempre se passa. Longa espera, ares solenes e doutorais, bem conhecidos dele – porque fazia o mesmo no tribunal –, auscultação, as perguntas do costume, exigindo certas respostas antecipadamente determinadas e evidentemente inúteis, um ar importante que queria dizer: não tem mais que nos obedecer e nós arranjaremos tudo; estamos fartos de saber, sem dúvida possível, como as coisas se arranjam, sempre da mesma maneira, seja qual for o paciente. Tudo se passava exactamente como no tribunal. Tal como ele representava no tribunal diante dos acusados, o célebre doutor representava ali diante dele”.

A questão não são os que representam, porque aproveitando-se destes outros ditarão novas leis, gerirão novos destinos, administrarão novas organizações ou novas instituições. A questão coloca-se perante aqueles que não abandonando a sua zona de conforto permitem que surjam, para além dos danos centrais consentidos, danos colaterais.

Bose (op. cit.) salienta ainda que o desporto transformou-se num gigante económico que se tornou muito maior do que ele – mais do que um meio de passar o tempo, de se exercitar ou de ter um pretexto para uma aposta. Essa transformação levou a uma degenerescência dos valores do e no desporto.

Armando Neves dos Inocentes é licenciado em Ensino de Educação Física, Mestre em Gestão da Formação Desportiva, cinto negro 5º dan de karate-do, treinador de Grau IV.