Os Utópicos e Irrealizáveis Jogos Olímpicos da Península Ibérica (2442) (artigo de Gustavo Pires, 89)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 25-06-18 7:3
Por Gustavo Pires

A mais recente manifestação do desejo de receber, em Portugal, os Jogos Olímpicos aconteceu através de uma divertida entrevista institucional que o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP) deu ao jornal “O Jogo”. O dito, na peugada da competência do seu antecessor, anunciou a possibilidade do COP “juntar os trapinhos” com o Comité Olímpico Espanhol a fim das duas instituições se candidatarem a receber a organização de uns Jogos Olímpicos. Presumimos que os Jogos Olímpicos da Península Ibérica.

 

Disse o presidente do COP:

“Eu veria, com muito bons olhos, uma candidatura Ibérica à organização de uns Jogos Olímpicos. Espanha já foi candidata e não correu bem, mas tem capacidade para isso e acho que Portugal poderia ser parceiro desse desígnio, permitindo que se aproveitasse muito daquilo que nos é comum” (O Jogo, 2018-06-21).

Independentemente da falta de rigor epistemológico da referida ideia, o que não admira, o que é necessário esclarecer é que a hipotética candidatura portuguesa a receber os Jogos Olímpicos não é de hoje. Não é de hoje porque, há mais de vinte e cinco anos, faz parte das oníricas fantasias do nosso divertido nacional olimpismo uma vez que existem dirigentes que, como solução para o miserabilismo em que o desporto nacional se encontra, não são capazes de ter outra ideia mais de acordo com as verdadeiras necessidades dos portugueses e do País do que defender uma candidatura à realização dos Jogos Olímpicos em território nacional.

Vejamos, então, o que se passou nos últimos vinte e cinco anos.

Tuto começou em 1993 quando o jornal O “Público” (1993-11-13) informou que os dirigentes do PSD, durante a campanha para as autárquicas daquele ano, logo secundados pelo PS, prometeram a realização dos Jogos Olímpicos no Porto em 2004! No frenesim em que transformaram a campanha, bem podiam ter prometido o elixir da vida eterna pois seria a mesmíssima coisa.

Passado o prazo de 2004, surgiu a candidatura a 2008. Em 30 Outubro de 1999, o jornal Público informou que o próprio Presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) anunciou que havia treze cidades candidatas à realização dos JO de 2008 entre as quais Lisboa! Contudo, poucos dias depois, num audacioso rasgo de bom senso, o Governo e o COP anunciaram não existirem condições para que tal pudesse acontecer. E o secretário do COP foi obrigado a apresentar uma patética justificação ao País: “Portugal precisa, primeiro, de se afirmar no plano desportivo, com obtenção de grandes resultados” (Record, 3/2/00). Ora bem, os resultados desportivos estão à vista. Enquanto em 2004 a Missão Portuguesa aos Jogos Olímpicos ganhou três medalhas, em 2016 ganhou uma única e de bronze.

Seis meses depois o problema estava resolvido! Armando Vara, Ministro do Desporto do XIV Governo, acabadinho de tomar posse a 14 de Setembro de 2000, certamente ainda ofuscado pelo fogo-de-artifício de Sydney e embalado pelas palavras dos nossos olímpicos dirigentes, portanto em perfeitas condições para tomar uma decisão de, ao tempo, pelo menos, sete mil milhões de euros, deu “luz verde à candidatura Lisboa 2012”. E, para tal, num rasgo de populismo à portuguesa, afirmou: “Há uma grande vontade de todos em avançarmos com o projecto” (Record, 2000-01-10). Felizmente, a “cultura de rebanho” relativa à “grande vontade de todos” foi travada a tempo.

E foi travada na medida em que, em boa hora, José Lello substituiu Armando Vara. Lello emendou a mão do Governo e fez com que o presidente do COP regressasse ao Planeta Terra. E, afirmou ao jornal “Record” (2001-07-01): “Temos de ter a noção do que podemos fazer e eu acho que lançar uma candidatura aos Jogos Olímpicos (…) é continuar a investir no discurso da retórica e não no discurso do rigor”.

Até José Sócrates (Record, 2001-07-28), ao tempo responsável pelo Ministério do Ambiente e da Administração do Território, disse: “Achei sempre ridículo e caricato alguém falar disso”.

Apesar da posição de José Lello e de José Sócrates, o Presidente do COP recusou-se a regressar ao Planeta Terra. E, passados uns dias, ao sair de uma audiência com o então Primeiro-ministro António Guterres, informou, solenemente, a comunicação social (Público, 2001-07-31): “Fiz a proposta utópica e irrealizável de Portugal receber os Jogos Olímpicos. Não é importante em que ano, 2016 ou 2020...”. Ora, a propósito desta hilariante informação, o saudoso jornalista Rui Cartaxana expressou magistralmente a sua opinião no “Record” (2001-08-01): “Totalmente de acordo, quanto à proposta. Quanto ao ano, sugiro antes 2442, que é uma capicua”. Nunca em Portugal o Olimpismo tinha atingido tão alto grau de humor.

Entretanto, perante a vulgaridade que tomou conta do nacional olimpismo foram vários os políticos que tiveram de manifestar a sua opinião relativamente à irresponsabilidade que é a pretensão de receber em Portugal uma edição dos Jogos Olímpicos. Por exemplo, Carlos Carvalhas, Secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP) numa entrevista à “A Bola” (2002-03-13) disse: “Nas condições atuais essa candidatura não faria sentido e poderia ser mesmo uma irresponsabilidade”. E Durão Barroso, em vésperas de tomar posse como primeiro-ministro disse: “Primeiro temos que atingir padrões europeus de prática desportiva, depois poderemos pensar em outros desafios” (A Bola, 2002-03-14).

Chegados a 2004, na abertura dos Jogos de Atenas (2004), tal qual tragédia grega, foi preparado um novo cenário para, duma forma maviosa, envolver o Presidente da República na candidatura aos Jogos de 2016. Para que tudo parecesse idilicamente perfeito foi atracado no porto de Pireu o Navio Escola Sagres a fim de fazer de residência oficial do Presidente da República. Contudo, Jorge Sampaio não foi no canto das sereias do nacional olimpismo. E, numa espécie de Ulisses à portuguesa, fez-se amarrar ao mastro principal da Sagres, quer dizer, à realidade social, económica e desportiva do País. E recusou patrocinar a hipotética candidatura. E disse: “Trata-se de um empreendimento demasiado avultado” (Record, 13/8/04). Quer dizer, não podia haver Jogos Olímpicos para além do défice. E Marcelo Rebelo de Sousa, ao tempo, comentador na TVi (2004-08-22), concluiu que quem defende a organização dos JO em Portugal não sabe o que está a dizer.

Mesmo assim, o presidente do COP não desistiu. Desta feita, acompanhado pelo edil de Lisboa propôs uma “candidatura aos Jogos…para perder” (Record, 2004-09-22). Mas o edil, ainda deslumbrado pelo cenário mitológico da abertura dos Jogos de Atenas a que assistiu, declarou: “…apercebi-me do tipo de preocupações, de necessidades e investimentos que tiveram de ser feitos, e seguramente Portugal está à altura do evento” (Correio da Manhã, (2004-11-27). Nem mais, nem menos! Quer dizer que Portugal estava perfeitamente à altura de apresentar uma candidatura para perder. Uns meses depois José Sócrates na qualidade de Secretário-geral do Partido Socialista, depois de um encontro com as altas figuras do associativismo desportivo no âmbito da campanha eleitoral para as Legislativas de 20 de Fevereiro de 2005, afastou qualquer hipótese de uma candidatura. E encerrou a questão: "As atuais condições económicas e financeiras não permitem ao país entrar nessa aventura” (TSF, 2005-01-18).

Já na vigência do XVII Governo Constitucional o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, apanhado completamente de surpresa, sobre a possibilidade de poder haver uma candidatura portuguesa à realização dos Jogos Olímpicos respondeu: “o país precisa de sonhos e ambições (…) esses projetos têm de ser avaliados, sobretudo porque envolvem importantes recursos financeiros públicos” (Diário de Notícias, 2006-11-02). E o Secretário de Estado da Juventude e Desporto Laurentino Dias, no discurso que proferiu na gala comemorativa do aniversário do COP (2006-11-06), perante centenas de dirigentes desportivos, para que não ficassem dúvidas disse: “não temos condições para promover um evento desportivo internacional” dessa envergadura. E, posteriormente, após uma visita à China a fim de tomar conhecimento das infraestruturas dos Jogos Olímpicos de Pequim, concluiu: “Só loucos podem pensar que alguma cidade portuguesa pode organizar uma coisa destas” (Correio da Manhã 2007-02-01).

Finalmente, António Costa, ao tempo em que presidiu à Câmara Municipal de Lisboa, depois de também ter visitado Pequim encerrou o dossier “utópico e irrealizável” do COP e rematou: “É algo que a Câmara Municipal de Lisboa nem sequer está a equacionar” (Lusa, 2007/10/24).

Perante a posição de António Costa o presidente do COP disse compreender as suas palavras mas que mantinha o sonho. E, na brilhante lógica de apresentar uma candidatura para perder, insistiu: “Mantenho este sonho, embora compreenda que atualmente as dificuldades talvez sejam maiores do que nunca (…) Fazer uma candidatura não quer dizer ganhar uma candidatura (...) é um conjunto de intenções” (Meia-Hora, 2007-10-25).

Pensava eu que, por excesso de ridículo, a questão tinha sido colocada na “gaveta dos esquecimentos” do COP. Todavia, estava completamente enganado porque, a 21 de Junho de 2018, os portugueses, através de uma entrevista do presidente do COP, viram-se novamente confrontados com uma hilariante proposta de candidatura para receber os Jogos Olímpicos a apresentar ao COI a meias com Espanha! Não ficámos esclarecidos se o tal desígnio passa por fechar os Comités Olímpicos dos dois países e, de acordo com o pensamento de José Saramago, instituir um Comité Olímpico da Península Ibérica como prelúdio de uma próxima futura União Ibérica.

Por isso, perante o extravagante anúncio do presidente do COP o que urge perguntar ao Governo português é: O que é que tem a dizer sobre o assunto? Também vê “com bons olhos” tal onírica fantasia? Ou vai, mais uma vez, fazer regressar o presidente do COP ao Planeta Terra?

Por nós, na linha da proposta de Rui Cartaxana diremos que: Totalmente de acordo, quanto à organização de uns utópicos e irrealizáveis Jogos Olímpicos da Península Ibéria. Quanto à data, ainda de acordo com o jornalista, sugerimos o ano de 2442 porque é capicua.

 

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana