O Páthos Olímpico (artigo de Gustavo Pires, 86)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 18-04-18 8:1
Por Gustavo Pires

O poeta Herberto Helder (1930-2015) lembrava que os gregos antigos não escreviam necrológios. Quando alguém morria perguntavam apenas: “Tinha paixão”? Para eles, tudo devia estar provido de paixão e tudo aquilo que não estivesse era censurável. A palavra grega páthos significa paixão, sentimento, emoção, um estado de alma que, na Grécia antiga, se traduzia na luta competitiva em busca da vitória cujo sentido transcendental da disputa atribuía ao desportista sentimentos para além de uma dimensão exclusivamente terrena. Por isso, quando cultivavam o gosto pela luta, os gregos antigos desenvolviam o talento e a vocação através da competição. Ao fazerem-no, tornaram-se pedagogos tremendamente eficazes. Porque, conforme referiu Nietzsche n’ “A Competição em Homero”, a competição, enquanto ethos (costume, hábito), desencadeia o indivíduo ao mesmo tempo que o reprime e disciplina, segundo o jogo sagrado entre o logos (lógica) das leis eternas da vida e os ditames da moda e da cultura. Assim, no mundo grego, era impossível separar a palavra agôn da tríade jogo, festa e sagrado. Porque, na defesa da “nobreza de espírito”, o sentimento que devia resultar da disputa entre dois rivais valorosos não era o ódio ou a vingança, mas o respeito, porque um antagonista de brio proporcionava ao outro a possibilidade de se conhecer a fim de, continuamente, renovar as suas forças vitais em busca da excelência. O páthos grego, na sua paixão competitiva, tinha expressão fundamental nos Jogos que se realizavam em diversos locais da Grécia antiga, dos quais o mais famoso era, sem dúvida, Olímpia. Ao tempo, os gregos viajavam longas distâncias para participarem nos grandes festivais de destrezas, de lutas, de corridas, de récitas, de música e de dança que eram os Jogos Olímpicos (JO) realizados em honra de Zeus, o rei dos deuses mas, também, para consultarem os oráculos e ouvirem as previsões das musas, cassandras e pitonisas, a fim de ultrapassarem as dúvidas e anseios das suas vidas de modo a organizarem o futuro que lhes fosse mais conveniente. Os Jogos eram o ponto nevrálgico da vida grega que, numa perfeita euritmia de compromissos, de emoções e de sentimentos, entre o homem, a natureza e a sociedade, tinham por base o ethos, quer dizer, a ética de uma cultura de competição que não se restringia só ao desporto. Se a música, a dança ou a declamação eram geridas pela deusa da alegria, do prazer e do divertimento, de seu nome Paidia, o logos dos exercícios e do treino que preparavam o corpo e o espírito para a luta competitiva, que decorria sob o comando de Ares o deus da guerra, podia ir até à violência selvagem cantada por Homero quando Aquiles, na loucura de uma vingança descontrolada, maltratou o cadáver de Heitor, arrastando-o com o seu carro de guerra à volta das muralhas da cidade de Troia, depois de o ter vencido num combate de morte. Como refere Nietzsche: “… o ser humano, nas suas mais elevadas e mais nobres energias, é inteiramente natureza e transporta consigo o inquietante duplo carácter daquelas”. Contudo, continuava o filósofo, “as suas capacidades terríveis e consideradas desumanas talvez sejam até o solo fértil donde exclusivamente pode brotar tudo o que seja humanidade, sob a forma de sentimentos, ações e obras”. Porém, para que tal aconteça é necessário que o indivíduo esteja provido de páthos, isto é, de sentimentos de superior elevação que o projetem para além da mediocridade do atávico usufruto de ridículas mordomias terrenas, quer dizer, do mal de húbris daqueles que, pelo poder autocrático que usufruem, se julgam na presença dos deuses do Olimpo. Para Coubertin, o desporto devia ser uma paixão. Para ele, o homem moderno, na sua paixão pelo desporto, devia “ver longe, falar franco e agir firme”, quer dizer, afirmar a distância da sua nobreza perante os outros. Era o “páthos da nobreza e da distância” de uma elevada “estirpe senhorial” que devia ser a condição, isto é, o ethos, de qualquer atleta, bem como de qualquer treinador ou dirigente. Georges Rioux afirma mesmo que as numerosas publicações de Coubertin revelam o logos da sua enorme paixão que chegava até ao “fundo do coração”. Para ele, uma vez que tinham sido instituídas restrições à incorporação militar abaixo de um certo limite de idade, os adolescentes, na sua conquista da vida, tinham a oportunidade de, pelo desporto, se compararem aos homens e, deste modo, encontrarem “um espaço de aventura e de paixão enquanto alimento racional da imaginação”. Porque, se a cultura do tempo proclamava um novo quadro de valores, Coubertin, tendo como meio a educação desportiva, sugeria um super-atleta capaz de enfrentar os desafios colocados pela nova sociedade. Tratava-se de instituir um novo paradigma para as atividades físicas de carácter recreativo que, do ponto de vista ideológico, se deviam organizar numa nova lógica (logos) de valores centrada na universalização de uma competição desportiva estandardizada à escala mundial e aberta à participação de todos os atletas, independentemente da sua nacionalidade, fé religiosa, condição económica ou grupo social. E, na lógica do Princípio do Ostracismo, Coubertin defendia que para que a competição se pudesse desenvolver à escala máxima ela devia ser regulamentada. E até propôs um Juramento Olímpico que os atletas, a fim de participarem nos JO, deviam honrar. Por isso, o pathos olímpico não se tratava de uma “paixão sensorial” em busca das regalias da vida como hoje vemos por aí. Como Coubertin teve a oportunidade de expor no Congresso de Psicologia Desportiva realizado em 1913 na cidade de Lausana, tratava-se de uma paixão existencial que, como todas as paixões deste tipo, embora pudesse criar problemas maiores, os benefícios ultrapassavam, em muito, as eventuais desvantagens. Nestes termos, preconizava uma “sã paixão”, como expôs numa mensagem que dirigiu à juventude americana, com o objetivo de a motivar para o aperfeiçoamento pessoal e social pela prática desportiva. O páthos, para os gregos antigos, significava, também, amor à verdade. Neste sentido, para Coubertin, o Olimpismo moderno, antes de tudo, devia exprimir amor à verdade competitiva que, quer em termos pessoais, quer em termos sociais, teria, sempre, de ser justa, nobre e leal. Quer dizer, o Olimpismo moderno devia ser muito mais do que um sistema de valores. Devia ser “um estado de ânimo” surgido do duplo culto do esforço e da euritmia”. Só assim, o páthos Olímpico, paradoxalmente, podia aparecer associado a duas características fundamentais da condição humana, o gosto pelo excesso e o gosto pela moderação que, para Coubertin, embora contraditórios, estavam “na base de toda virilidade completa”. Tratava-se, de uma abordagem apolíneo-dionisíaca do fenómeno desportivo que ele, muito possivelmente, foi buscar a Nietzsche para quem a dialética entre Apolo e Dionísio era uma das questões centrais do seu pensamento, uma vez que a existência de cada uma daquelas divindades dependia da existência da outra. Nesta conformidade, em Coubertin, o dionisíaco gosto pelo excesso do atleta capaz de realizar feitos extraordinários dependia do apolíneo gosto pela moderação eurítmica do rigor do treino desportivo conducente à conquista de resultados e de recordes. Assim, ainda hoje, o páthos olímpico requer um sentimento de ligação afetiva a um humanismo universal num contexto pluricultural baseado nos princípios, há muito, expressos na Carta Olímpica pelo que não se compadece nem pela redução do Olimpismo à contabilidade das medalhas olímpicas, nem pelo “dress code” das mordomias dos presidentes dos Comités Olímpicos Nacionais (CONs). Desde logo porque significa a nobreza de uma elevada ascendência no sentido da busca da superação pessoal, numa ética de autenticidade, ao serviço do social. Por coincidência ou por projeção do passado na atualidade olímpica, Coubertin atribuiu ao atleta a imagem do super-atleta tal como Nietzsche já o havia feito na representação que fez do homem na imagem do super-homem. Cada um deles, tanto o super-atleta quanto o super-homem, em busca da superação e da transcendência. Hoje, o “atleta limpo”, o “treinador limpo” e o “dirigente limpo”, tal como na Grécia antiga em que tudo aquilo que não pressagiasse páthos era objeto de crítica, são expressões que decorrem da Agenda 2020 do Comité Olímpico Internacional (COI) que se propõe erradicar do mundo do desporto a utilização de meios fraudulentos a fim de conseguir a vitória tanto nos terrenos de jogo quanto fora deles como está a acontecer com a corrupção do carácter que tomou conta dos dirigentes de alguns CONs por esse mundo fora. Sempre que tal acontece, os propósitos que decorrem dos princípios e dos valores olímpicos não passam de frases feitas sem qualquer sentido para além da, cada vez mais habitual, “conversa fiada” que, tanto no domínio da ação dos governos quanto do associativismo desportivo, tomou conta do discurso dos dirigentes. Quando tal acontece, o Olimpismo, em vez de promover uma força emocional vinda do interior de cada um, representa a mais completa frieza que caracteriza a falta de páthos de uma burocracia institucionalizada no poder desportivo, público e privado que, pelo oportunismo dos interesses pessoais, tem vindo a corromper a generalização da prática desportiva e os próprios JO transformando os CONs em simples comités de alta competição ao serviço dos regimes políticos. Todavia, para Coubertin, os JO deviam ser um evento espiritual com o objetivo primordial de transformar os princípios, os valores, as normas, os procedimentos e os rituais olímpicos, numa certa religiosidade a fim de colocar o praticante desportivo numa situação de superação pessoal e social em busca da excelência a que os gregos antigos chamavam de areté. Quando, hoje, por esse mundo fora, vemos os dirigentes olímpicos: serem apanhados pela corrupção; viverem obcecados pelas mordomias dos lugares que ocupam; estarem mais interessados nas luzes da ribalta e no culto de personalidade do que nas verdadeiras questões do desenvolvimento, temos de concluir que estamos perante gente: Sem ethos porque são incapazes de, no respeito pelo passado, promover um projeto partilhado promotor de futuro. Sem logos porque estão a promover um sistema desportivo ausente de valores, de cultura e de projeto. Sem pathos porque não têm paixão, emoções e sentimentos para além daqueles que o circo romano em que estão a transformar o desporto lhes pode proporcionar. Os gregos antigos, quando alguém morria, perguntavam apenas: “Tinha paixão”? Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana