É o indivíduo a medida de todas as coisas? (artigo de Manuel Sérgio, 235)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 27-03-18 2:23
Por Manuel Sérgio

É de Protágoras (século V, a.C.), o mais célebre de todos os sofistas, a frase que os séculos subsequentes têm repetido: “o homem é a medida de todas as coisas”. Aliás, o relativismo cético dos sofistas introduziu a liberdade e a tolerância, no exercício do espírito crítico. E, por isso, a História os saúda, como fator de progresso, como ativos promotores de criatividade e excelência. Recordo, neste momento, o diálogo O Sofista. Platão exagera quando os aponta, unicamente, como mercenários da ilusão e do discurso mistificador. No entanto, ao pôr a discussão, o discernimento intelectual à procura imparável da verdade e do bem e não ao serviço do ter e do poder, Sócrates é um nosso contemporâneo, principalmente para nós os que, diante da triunfante invasão do niilismo axiológico neoliberal, defendemos a existência de valores que, para nós, se apresentam como irrecusáveis. Há muito tempo já, Marx adiantou que a função da filosofia era transformar o mundo e não pensá-lo tão-só. Mas não esqueço o que Heidegger escreveu, a este propósito: o pensamento age, quando pensa. De facto, o pensar, na sua radicalidade, está sempre próximo da ação, dado que provém do real e a ele regressa. É na “experiência vivida” (sirvo-me de palavras de Merleau-Ponty) que o real verdadeiramente se conhece. Porque tentei criar uma tese que se afirma contra todos os dualismos (corpo-alma, razão-emoção, homem-mulher, senhor-servo, natureza-cultura, etc.) - sou em crer também que há uma “solidariedade primordial” entre o pensamento e a ação. Do que venho de escrever se infere que, no campo político, a mais lógica posição de um pensamento atual é a defesa da igualdade de oportunidades, para todos os cidadãos, e a concomitante luta contra a desigualdade económico-social. Aumentou exponencialmente a riqueza de muitos e a pauperização da esmagadora maioria das populações. A tanto conduziram as políticas de Margareth Tatcher (1979-1990) e de Ronald Reagan (1981-1989) e… doutros mais! Hoje, não restam dúvidas que os modelos neoliberais falharam (e falham) rotundamente, no que à solidariedade diz respeito, sem políticas estatais de redistribuição. Faço minhas as palavras de Vladimir Safatle, professor do departamento de filosofia da Universidade de São Paulo: “O problema da desigualdade só pode ser realmente minorado por meio da institucionalização de políticas que encontram no Estado o seu agente” (A esquerda que não teme dizer seu nome, Três Estrelas, S. Paulo, 2012, p. 23). Os nossos últimos governos aceitaram, com maior ou menor aparato, a ideologia neoliberal, onde tudo se torna mercadoria, e a própria institucionalização de políticas contra a desigualdade cheirava ao mofo da “caridadezinha” capitalista. Também as filosofias da solidariedade, de Apel, Rawls, Ricoeur, Lévinas, Dussel, Derrida, Rorty e Van Paris, enveredando embora pelo trilho de um pensamento paciente, ainda não encontraram a política que lhes permita concretizar as suas normas morais. Entretanto a desigualdade cresce, a violência alastra e há gente que ainda não viu... A ponto chegaram as coisas que várias questões se levantam: será que não vivemos num Estado ilegal? Se as desigualdades sociais e económicas se acentuam; se há mais guerra do que no tempo da “guerra fria”; se as máquinas partidárias de muitos partidos europeus funcionam, unicamente, no interesse do grande capital e no aumento do património da minoria possidente; se a economia institucionalizada só obtem bons desempenhos à custa do desemprego, da precariedade, da exclusão; se a Lei não parece igual para todos – não estão as políticas dominantes, feridas de ilegalidade? Jacques Derrida, no livro Força de lei (Martins Fontes, S. Paulo, 2007, p. 62) assinala que o Direito reproduz e reflete os interesses económicos e políticos das forças dominantes da sociedade. E não se referia ele a Portugal. Logo nos primeiros cem dias depois de eleito, como escreve o José Manuel Pureza, no DN, de 24 de Agosto último, “Hollande só desiludiu quem sobre ele criou ilusões (…). A suposta solidez do sonho hollandista dissolveu-se rapidamente no ar com as expulsões das comunidades ciganas e a resposta sem substância à ameaça de 8000 despedimentos pela Peugeot-Citroen e de 5000 pela Air France e pela Alcatel”. Enfim, como zelador da social-democracia em voga na Europa, Hollande não foi tão radical como o Dr. Passos Coelho, mas nunca o ouviremos, em inflamado discurso, contra as injustiças do capital... Eu sei que há pessoas que, lidos os primeiros parágrafos deste artigo, logo dirão que estou a ser exagerado ou catastrofista. Demais, acrescentarão, convictos, que as anomalias que nos cercam não passam do anúncio da Quarta Revolução Industrial. Mas quem é que nos diz, reponto eu, que não estamos mais próximos da barbárie do que de uma civilização fundada sobre a liberdade, a igualdade e a fraternidade? “Sem me meter, aqui, por uma longa digressão pelo pensamento de Tocqueville, gostaria de recordar que este grande pensador do princípio da democracia insiste nos venenos que a democracia desenvolve nela mesma e contra ela mesma. Penso nomeadamente na análise de uma grande lucidez em que Tocqueville nos mostra o homem democrático a absorver-se na fruição da sua liberdade individual, deixando crescer um poder político, que se ocupa de todos os problemas comuns, longe da atenção dos cidadãos” (Maria Helena da Rocha Pereira, in José Eduardo Franco e Hermínio Rico, coord., Padre Manuel Antunes: Interfaces da Cultura Europeia, Campo das Letras, Porto, 2012, p. 41). O mais despudorado individualismo, no mais arrogante integrismo economicista; a indiferença perante a necessidade incontornável da salvação/emancipação da humanidade; a descrença na Ressurreição, ou seja, a descrença no que há de divino em cada um de nós, que nos permite a transcendência e portanto a certeza de que não há, para o ser humano, determinismo na História – são visíveis nas democracias liberais que nos governam. Por seu turno, o desporto, na Escola e fora dela, tem os seus ídolos: atletas de grandes qualidades físicas e técnicas, alguns deles pagos com milhões, muitos milhões, de euros, mas que se mostram incapazes de trilhar uma senda de inquieta demanda da inteligibilidade do que fazem. Há um detestável grupo de dirigentes (não são todos, eu sei), nos “três grandes” do futebol nacional, incapazes de ter a peito o respeito devido aos clubes adversários, principalmente os que podem tirar-lhes o título de “campeão”. E ainda têm a seu favor a taramela laudatória de certos plumitivos que, por um vencimento chorudo no fim do mês, passam o tempo todo, ora a proclamar as excelências de quem lhes paga, ora a sujar de lama a cara uns dos ouros e a um tal ponto que é difícil imaginar que isto possa acontecer. A história do desporto sugere que as diversas modalidades se criaram como representações de batalhas simuladas, nas quais se erguem sempre opositores, adversários, reais ou simbólicos, que importa superar, vencer. A espetacularidade desportiva fomenta, portanto, um espírito belicista e, sob o império de alguns dirigentes e de certa Comunicação Social, de caráter mesmo fascizante. Não conheço nada de mais alienante, no tempo que nos foi dado viver, do que um certo desporto de altíssima competição que, por aí, se consome, onde são múltiplos e repetidos os escândalos financeiros, onde o “doping” e a violência parecem inevitáveis, onde o desporto tem uma função, sobre as mais: legitimar as taras do neoliberalismo triunfante. É verdade – o desporto de altíssima competição contribui inevitavelmente à legitimação e estabilização do que há de injusto, na nossa sociedade, pelo seu individualismo sem freios; porque não se cansa de turibular os “Cristianos” e os “Messis”, enquanto um número significativo de futebolistas aufere vencimentos que mal chegam para os gastos habituais de uma família; porque canaliza o pensamento e a energia populares, em direção a problemas que nada têm de essenciais (relembro, em Portugal, nalguns casos, a estúpida, porque exagerada, rivalidade Sporting-Benfica, ou Porto-Benfica). Já o escrevi inúmeras vezes: se hoje fosse vivo, Karl Marx diria, sem receio que...“o futebpl é o ópio do povo”. Não devemos, no entanto, esconder que o aumento e a proliferação de formas desportivas competitivas não violentas representam, indiscutivelmente, um importante processo civilizador. Mas, porque pertenço a uma geração que hasteou a bandeira de um aguerrido inconformismo, em defesa de certos valores, não vejo esses valores respeitados por muita gente de relevo, no futebol português. E gente que merece o aplauso pasmado da esmagadora maioria dos sócios, designadamente os mais jovens e nómadas e rebeldes, rendidos a todos os demónios do mais inflamado caprichismo, o que pode significar que um futebol, de fortes características pedagógicas, continuará a ter, no futuro, rijos opositores. O individualismo não é a medida de todas as coisas! Mas ele é um dos mitos da sociedade capitalista, ao lado de uma competitividade que não olha aos meios para conquistar os fins e de uma hierarquia que ajuda a que se mantenha a estrutura jerarquizada da sociedade, com os dualismos habituais corpo-alma e senhor-servo. As desigualdades parecem também eternas, no futebol que reproduz e multiplica um determinado tipo de sociedade. Enfim, a presença de determinadas pessoas num certo futebol não acontece, por acaso. Não há jogos, há pessoas que jogam. E portanto o futebol será o que as pessoas forem… Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto