Olimpicamente…, Lá Vamos Cantando e Rindo… (artigo de Gustavo Pires, 85)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 26-03-18 5:20
Por Gustavo Pires

Acabou de ser publicado neste mês de Março o relatório “Special Eurobarometer - Sport and Physical Activity - 2018”. Do relatório a primeira coisa que resulta é que, entre 28 países, Portugal, em matéria de atividade física e desporto, deixou de ser uma vergonha nacional para passar a ser uma vergonha internacional. E porquê? Porque, a par da Grécia e da Bulgária, ocupa o último lugar do ranking europeu relativo à atividade física e desporto. Mas o que é que isto interessa se Governo, na sua competência, no mesmo mês de Março de 2018, resolveu organizar uma cerimónia com pompa e circunstância no Centro de Alto Rendimento do Jamor (12-03-2018) presidida pelo próprio Primeiro-ministro acompanhado do Ministro da Educação e do Secretário de Estado da Juventude e Desporto onde anunciou ter determinado que o Comité Olímpico de Portugal deverá ganhar duas medalhas olímpicas nos próximos Jogos que se realizarão no ano de 2020 em Tóquio. E, com mais de dois anos de atraso, na presença do infeliz presidente Comité Olímpico de Portugal (COP), anunciou a afetação de 18 milhões de euros ao programa do Ciclo Olímpico de Tóquio que, em boa verdade, começou há cerca de dois anos no dia 22 de Agosto de 2016. Ora bem, com o Governo a debitar em matéria da exclusiva responsabilidade do COP (confira-se a Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto bem como a Carta Olímpica), o que se pode depreender é que, através de um admirável “toque de magia política”, mostrou o seu descontentamento relativamente ao atual modelo de desenvolvimento do desporto pelo que, perante o “país desportivo”, transformou o COP num Comité de Alta Competição, quer dizer, numa simples repartição da tutela político-administrativa, encarregue de gerir a logística do estuporado programa de preparação olímpica para os JO de Tóquio (2020). O problema é que a situação em que o desenvolvimento do desporto se encontra já não se resolve com medidas mais ou menos avulsas no sentido de corrigir o modelo falhado instituído em 2004-2005 à revelia do Sistema Desportivo, ao tempo dos Governos de Durão Barroso (XV) e do de Santana Lopes (XVI). E porquê? Porque o atual modelo de desenvolvimento: (1º) No que diz respeito ao vértice da pirâmide de desenvolvimento do desporto, considerando os resultados das Missões Olímpicas, tem vindo a produzir resultados cada vez mais medíocres; (2ª) No que diz respeito à base do vértice da pirâmide de desenvolvimento do desporto, desde 2004, tanto o crescimento do número de praticantes como o número de clubes, têm vindo, a diminuir. Relativamente aos JO, apesar dos extraordinários recursos financeiros aplicados na preparação olímpica, os resultados têm sido cada vez piores: Três medalhas nos JO de Atenas (2004); Duas medalhas nos JO de Pequim (2008); Uma medalha de prata nos JO de Londres (2012); Uma medalha de bronze nos JO do Rio de Janeiro (2016). Nestes termos, tudo leva a crer que a Missão portuguesa aos JO de Tóquio 2020 virá de lá com zero medalhas. Quantos mais desastres olímpicos vão ser necessários cumprir até que o poder político compreenda que tem de mudar de rumo é a pergunta que fica por responder. Relativamente aos praticantes desportivos de base, aos clubes e aos financiamentos, ao cabo de três Ciclos Olímpicos, considerando as estatísticas oficiais dos últimos 20 anos, a Situação Desportiva revela-se preocupante para não dizer alarmante. Até 2004-2005, considerando os três Ciclos Olímpicos (1996; 2000; 2004), o crescimento total de praticantes foi de 59%. A partir de 2004-2005, considerando os resultados dos três Ciclos Olímpicos (2004; 2008; 2012) o crescimento de praticantes foi de 30 %. Se considerarmos o último Ciclo Olímpico (2012-2016) o crescimento de praticantes abrandou para 13%. Mas, se corrigirmos os números apresentados pela FP de Natação que, no período que decorreu entre 2012 e 2016, apresentou um inacreditável e inaceitável aumento de 40704 (quarenta mil setecentos e quatro praticantes) a situação revela-se bem pior. Se subtrairmos os 40707 praticantes ao número de praticantes apresentado em 2016 nas estatísticas oficiais chegamos à conclusão que o Ciclo Olímpico do Rio de Janeiro teve uma quebra de 3% de praticantes o que nunca aconteceu desde 1974. Suspeitamos que resultados do “Erobarometer-2018” acabem por não traduzir por defeito a verdadeira mediocridade da Situação Desportiva nacional. E porquê? Porque a situação do número de praticantes ainda se agrava mais se considerarmos o que está a acontecer até aos juniores. O crescimento de 1996 a 2004 foi de 75% e o de 2004 a 2012 foi de 47%, quer dizer, a partir de 2004, deu-se decréscimo de 28% no crescimento de praticantes. Se, por Ciclo Olímpico, observarmos os números de 2004 a 2016 verificamos que tem vindo a acontecer uma diminuição progressiva do aumento do número de praticantes: 2004 (41%); 2008 (27%); 2012 (16%); 2016 (13%). Quer dizer, a formação desportiva no Sistema Desportivo português caminha para a estagnação. Relativamente à situação das mulheres, como referiu Maria José Carvalho “a taxa de mulheres no desporto está na idade da pedra” (O Jogo, 2018-03-18). De facto assim é. Se cruzarmos os dados do INE/PORDATA com os do IPDJ verificamos que a referida taxa não chega aos 5%. Entretanto, o atual modelo de desenvolvimento desencadeado em 2004-2005 está a destruir a pouca prática desportiva de base que, entre as mulheres, ainda vai acontecendo. De 1996 a 2004 o crescimento da prática desportiva das mulheres foi de 134%; de 2004 a 2012 foi de 66%; e de 2012 a 2016 foi de 24%. Se considerarmos as mulheres até juniores de 1996 a 2004 verifica-se um crescimento de 134%; de 2004 a 2012 um crescimento de 72%; e de 2012 a 2016 um crescimento de 22%. Isto significa que, também nas mulheres o crescimento de novas praticantes tem vindo a desacelerar com as estuporadas políticas públicas que privilegiam um programa de preparação olímpica que, para além dos resultados absolutamente miseráveis nos JO, está a destruir o desporto nacional que ainda existe. Quanto aos clubes, de 1996 a 2004, o seu crescimento foi de 7%. De 2004 a 2012 o crescimento foi de -4% e, de 2012 a 2016, o número de clubes cresceu 1%. Entretanto, o olímpico centralismo burocrático que, em 2004-2005, tomou conta do desporto nacional, para além de estar a destruir vários desportos e respetivas Federações como o boxe, o halterofilismo, as lutas amadoras ou, entre outras, a esgrima, também está a destruir clubes. Atualmente, o número de praticantes desportivos que alimentam as Federações Desportivas não ultrapassa os 10% da população ente os 15 e os 64 anos de idade e, de 2008 e 2016, aconteceu uma quebra de 8% de clubes. Quanto ao financiamento, enquanto de 1996 a 2004 cresceu 23%, de 2004 a 2012 cresceu 8% e de 2012 a 2016 cresceu 2%. O corte mais drástico no apoio financeiro às Federações Desportivas aconteceu em 2013 com um corte de 22% que resultou nos piores resultados de sempre nos JO do Rio de Janeiro (2016). Mas, enquanto os recursos para as Federações Desportivas têm vindo a decrescer, em contra partida, como se fosse possível “fazer omeletas sem ovos” os recursos atribuídos ao COP têm vido a aumentar com resultados cada vez mais miseráveis. Em conformidade, começa a perceber-se que a tendência vai ser a de construir Missões Olímpicas com “portugueses de plástico” em prejuízo de outros, genuinamente feitos praticantes e campeões em Portugal que, como, recentemente, referia Nelson Évora (Sapo-desporto, 2018-03-06), são “enterrando vivos”. Se existe conclusão a tirar do atual modelo de desenvolvimento do desporto em que numa perspetiva de “galinha dos ovos de ouro” são colocados competências e recursos no COP sem que exista um pensamento estratégico devidamente sistematizado a fim de alimentar a base do Sistema Desportivo é o de que os resultados, tanto a nível da elite como a nível da base, estão em profunda degradação. Tudo leva a crer que, a continuarem as atuais políticas, o desporto nacional atingirá um estado caótico de estagnação ou até regressão imediatamente após os JO de Tóquio (2020). Seria bom que os dirigentes políticos e desportivos compreendessem que a conquista de medalhas Olímpicas para um país, tal como Saladino disse após o cerco e conquista de Jerusalém (1187), podem significar tudo e podem significar nada. Pergunto: O que é que significam para a qualidade de vida da população medalhas olímpicas se elas não se traduzirem na melhoria quantitativa e qualitativa da prática desportiva a nível da qualidade de vida dos cidadãos? O valor das medalhas olímpicas, para além daquilo que, em termos pessoais, significa para os atletas e suas famílias, em termos sistémicos o seu valor depende das Políticas Públicas que, a partir delas, possam ser desenvolvidas a fim de provocar desenvolvimento a montante do Sistema Desportivo. Ora, o que está a acontecer desde 2004-2005 é um desinvestimento a montante do Sistema Desportivo Federado a fim de reforçar a jusante um projeto de desenvolvimento completamente falhado que tem produzido resultados desastrosos. E tanto assim é que, quanto mais a análise entrar dentro das Federações Desportivas, mais se concluirá que, algumas delas, já estão em estado de regressão ou, até, “morte lenta”. Apesar disso, as Federações Desportivas, salvo as devidas exceções, não se manifestam desde logo porque, muitas delas, não funcionam em função das necessidades dos praticantes desportivos mas dos interesses sociopolíticos dos próprios dirigentes. Qualquer decisão quanto ao número de medalhas olímpicas só pode ter significado ser for equacionada no âmbito do conceito de Nível Desportivo. Por exemplo, consideremos os JO do Rio de Janeiro (2016) e dois países diametralmente opostos, a Coreia do Norte e a Finlândia. Ora bem, a Coreia do Norte ganhou sete medalhas olímpicas e a Finlândia só ganhou uma. Todavia, enquanto a Coreia do Norte não tem qualquer tipo de prática desportiva de base que se note e o desporto de alto rendimento sempre foi utilizado pelo país como um instrumento de diplomacia ao serviço do regime, na Finlândia, o desporto é das atividades mais importantes das crianças e os jovens. De uma maneira geral, 90% da população pratica atividade física ou desporto, pelo menos, duas vezes por semana e 50% da população mais de quatro vezes. Para além de tudo o mais não passa cabeça de nenhum finlandês que o Governo do país possa utilizar o desporto enquanto instrumento de marketing da sua ação político nem que o seu Comité Olímpico Nacional esteja obcecado por medalhas olímpicas em vez de estar preocupado em desenvolver o desporto e os valores propugnados pelo Olimpismo. Independentemente de, no quadro teórico do conceito de Nível Desportivo, se poder arguir que se a Coreia do Norte tem medalhas a mais e praticantes de base a menos e que a Finlândia tem praticantes a mais e medalhas a menos (não considerando as dos JO de Inverno), o que é facto é que, qualquer pessoa, com um mínimo de bom senso, prefere o modelo de desenvolvimento do desporto finlandês ao norte-coreano. De resto, existem países como a Dinamarca que apresentam elevado nível desportivo precisamente pela relação eurítmica que estabelece entre praticantes de base e praticantes de elite. Em 2004-2005, alguns dos nossos dirigentes desportivos e políticos, à margem das Federações Desportivas e da generalidade das organizações que interagem no mundo do desporto, através de um contrato programa entre a Administração Pública (representada por José Manuel Constantino) e o COP (representado por Vicente Moura) com a cobertura política de Hermínio Loureiro (Secretário de Estado do Desporto), através de uma “transvaza financeira” das Federações Desportivas para o COP, resolveram optar por um modelo de desenvolvimento que ao focalizar-se no alto rendimento, sem equacionar a prática desportiva de base está mais próximo do modelo Norte-coreano ou chinês do que do modelo de desenvolvimento nos países do Norte da Europa onde se procura atingir um equilíbrio eurítmico entre a base e o topo da pirâmide de desenvolvimento. Em conformidade, os números impressos nas estatísticas oficiais do IPDJ traduzem uma Situação Desportiva desde há catorze anos em profunda degradação. Seria bom que o Governo começasse a perceber no “buraco” em que o desporto se encontra. Portugal até pode ganhar três ou quatro medalhas em Tóquio (2020), por exemplo à custa de atletas “portugueses de plástico”, ou de atletas que nem sequer vivem em Portugal. Todavia, não é por isso que, em matéria de desenvolvimento do desporto, vai deixar de ser um país com um desporto na mais profunda regressão. E aos olhos dos demais países um país subdesenvolvido onde, salvo as devidas exceções, dirigentes há que estão mais interessados no “dress code” das festarolas paralelas aos eventos desportivos do que nas condições de vida e de treino dos atletas. Acresce que alguns dirigentes desportivos, por “falta de mundo”, fazem-se transportar em “topos de gama” com motorista. Trata-se do atavismo de uma miséria ancestral, que não se compadece com o facto de, tanto na base como no vértice da pirâmide de desenvolvimento, as carências serem gritantes de injustiças, muitas vezes, mais por uma congénita má administração dos recursos existentes do que por escassez de recursos públicos postos à disposição. Por exemplo, na Holanda, um país que tem uma taxa de atividade físico desportiva de 59% e ganhou 19 medalhas olímpicas (8,7,4) no Rio de Janeiro (2016), dizia Rentes de Carvalho (Observador, 2016-03-16), “… não há carros de luxo. Quem tem carros de luxo são os traficantes de droga e as prostitutas e os parolos. As pessoas normais têm um utilitário”. Se a cerimónia presidida por António Costa no Centro de Estágio da Cruz Quebrada significou o desencadear de uma mudança de paradigma acabando com a irresponsabilidade que foi a institucionalização do modelo de desenvolvimento do desporto desencadeado em 2004-2005, quer dizer, se significou da parte do Governo a assunção de que quem tem autoridade democrática para gerir o alto rendimento desportivo no quadro das Políticas Públicas de onde deve decorrer a Missão Olímpica é o Governo, só nos podemos regozijar uma vez que se começa a salvar o Ciclo Olímpico de Paris (2024) uma vez que o de Tóquio (2020) já está perdido. Se, pelo contrário, tal cerimónia só significou mais um malabarismo de marketing político que, de uma maneira geral, os Governos do PS bem como do PSD-CDS têm demonstrado a máxima competência, infelizmente confirmam-se as palavras de Vítor Serpa (A Bola, 2018-03-24) quando diz que a classe política portuguesa entende que a problemática do desporto “deve ser entregue a gente que não suspeita, sequer, da sua própria ignorância”. Então, a cerimónia do Centro de Estágio da Cruz Quebrada foi um hino à irresponsabilidade e ignorância e ao subdesenvolvimento para onde o desporto nacional, de há catorze anos a esta parte, está a caminhar.