“Deixem-nos sonhar” - um livro notável! (artigo de Manuel Sérgio, 233)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 12-03-18 1:11
Por Manuel Sérgio

Numa perspetiva sociológica e histórico-cultural, o livro Deixem-nos sonhar (Tinta da China, Lisboa, 2017) de João Tomás e Pedro Adão e Silva, é de facto um padrão orientador de inegável relevo. O Caso Saltillo (bem me lembro) projetou-se, na sociedade portuguesa e em todo o mundo do futebol, em vivíssimos quadros, mas paralisados num motivo só: os jogadores da seleção nacional de futebol, presentes no Mundial de 1986, no México (o Bento, o Damas, o Jorge Martins, o João Pinto, o Morato, o Oliveira, o Inácio, o José António, o Carlos Manuel, o Jaime Magalhães, o Jaime Pacheco, o André, o Sousa, o Futre, o Diamantino, o Gomes, o Rui Águas, etc., etc.) – os jogadores daquela seleção nacional de futebol não souberam representar, com a disciplina e com a dignidade exigíveis, o futebol português. Demais, a história do “desporto-rei”, na Pátria de Camões e de Vieira e de Fernando Pessoa, escrevia-se aparentemente alheada das condições políticas e dos conteúdos ideológicos de um qualquer fenómeno social. João Tomás e Pedro Adão e Silva, dois representantes de um progressismo iluminista de esquerda, no entanto, podem hoje adiantar convictamente que o futebol é mais do que futebol e que não o entenderão nunca as fanfarronadas de alguns “homens do futebol” que muito julgam saber de futebol, porque sabem só de futebol. Tudo o que é humano tem significação interesse e valor. Um jogo de futebol, portanto, amplia-se numa interpretação de interpretações, onde a tática e a técnica, sendo muito, não são tudo. Inúmeros são os que vivem tão perto de um jogo de futebol que o podem verdadeiramente sentir, mas simultaneamente tão longe que não poderão compreendê-lo. O seu “realismo ingénuo” permite-lhes, sem dúvida, observações diretas da prática do futebol, mas não uma complexa leitura interpretativa do que fazem. Que o futebol é mais do que futebol – é a tese fundante deste livro, a qual, nem as frases campanudas de alguns comentaristas televisivos, nem a pedantocracia dos arrivistas o poderão negar. Os autores deste livro assim o dizem: “Saltillo pode ser descrito como o 25 de Abril do futebol português”. E, em lugar de retumbantes vitórias da “equipa de todos nós”, num Mundial de Futebol, ansiosamente esperadas pelo governo e pelo povo de Portugal, “dá-se um choque com a realidade: de um lado, estruturas federativas regidas à antiga portuguesa, fundadas numa combinação singular de amadorismo e autoritarismo da parte de quem dirige, que são ainda manifestações do modelo corporativo e que representam, de facto, apenas os interesses dos dirigentes; de outro, os jogadores que reivindicam os seus direitos de forma desorganizada, num ambiente com reminiscências do PREC, que o país que se está a descobrir europeu quer deixar para trás. Este confronto de opostos coexiste com um conflito de personalidades: não poderia existir maior contraste entre Silva Resende, presidente da Federação e homem austero, marcadamente do antigo regime, e um grupo de jogadores, de inclinação popular, com uma cultura de esquerda e dispostos a fazer ouvir a sua voz” (op. cit., pp. 14/15). É verdade que as reivindicações dos jogadores parecia resumir-se à justa repartição “dos lucros de um negócio que crescia exponencialmente”. Só que “a Federação permanecia uma estrutura amadora, sem capacidade de responder ao novo contexto (…). As qualificações para as fases finais das competições internacionais encontravam uma estrutura totalmente impreparada para planear estágios, negociar patrocínios e gerir as relações com os jogadores” (p. 19). E o rotundo fracasso competitivo da nossa seleção, no Mundial de 86, resultou mais da contraditoriedade estrutural dos interesses (mesmo em termos radicais de classe) do que da metodologia do treino, liderada aliás pelo melhor metodólogo do treino que, no meu pensar, algum dia Portugal conheceu, o David Monge da Silva. Poderia avocar, neste passo, um conhecido pensamento de Marx: “O concreto é concreto, porque é a reunião de múltiplas determinações e portanto a unidade do diverso”. E, como “unidade do diverso”, nada mais concreto do que a nossa seleção nacional de futebol, de 1986, num processo dialético que “marcou o fim de uma época” (p. 22). Rui Águas esclarece-nos, hoje, como se deu o dobre de finados do espírito reinante nas seleções nacionais de tempos idos: “Na altura, já notávamos muita diferença entre a organização nos clubes e na seleção. Chegávamos à seleção e era tipo férias. A desorganização das viagens, tudo. Na altura, a diferença era muito marcada. Em relação aos dirigentes, em relação às pessoas que lá estavam. Não era para levar muito a sério. Tudo falhava” (p. 126). E… tudo falhou! Apesar de um ou de outro lance retórico, simulando rigor e disciplina, estava por concretizar-se a rutura com a tradição – rutura que nem a maior parte dos jogadores e dos treinadores e dos jornalistas sabia fazer. Para o jornalista José Carlos Freitas, notava-se “falta de espírito crítico na maior parte dos jornalistas, eu inclusive. Uns eram mais críticos, mas a verdade é que, em termos gerais, nunca houve uma crítica muito clara à forma como o Torres comandou a equipa, porque ninguém estava à espera da qualificação” (p. 138). Ainda na opinião de José Carlos Freitas, “só com Carlos Queirós, foi quebrada na seleção a promiscuidade, entre jogadores e jornalistas. Foi o primeiro selecionador a considerar que os jornalistas são o segundo adversário. O primeiro adversário é a equipa contrária, o segundo são os jornalistas” (p. 140). Mas, em Saltillo, da oposição insanável jogadores-federação (que até política era); da inexistência de autoridade, na liderança técnica; da impreparação dos principais dirigentes federativos – de tudo isto nasceu o caos. E do caos resulta, fatalmente, o descalabro nos resultados desportivos… Ocorre-me, neste passo, a declaração, que ficou célebre, de Péguy: “Nada há tão atual como Homero e nada há, porventura, tão antigo como o jornal desta manhã”. De facto, o dinheiro movimentado em torno do Mundial já era muito, muitíssimo e os jogadores viam pouco, pouquíssimo. “Para alguns, tal sucedia porque a Federação não estava preparada para gerir esta nova realidade; para outros, porque alguém ficava com o dinheiro que deveria ser distribuído por todos. Monge da Silva e Ribeiro Cristóvão concordam na explicação desta incapacidade da Federação, para responder ao novo contexto (…). Rui Águas admite que as coisas eram tão pouco claras que acredito que, nos corredores, em vez dos jogadores, tenham sido beneficiadas outras pessoas” (p. 272). E assim “entre promessas incumpridas, que já vinham do passado e uma incapacidade de dialogar e encontrar entendimento, em relação a questões prementes (prémios, diária e direitos de imagem) o ambiente entre dirigentes e jogadores foi-se adensando (…) até um ponto de não retorno” (p. 274). Vítor Serpa, diretor de A Bola, sublinhou que, a partir de determinada altura, se formou a ideia “de que os jogadores estiveram mal, erraram. Por muita razão que tivessem, era a seleção nacional” (p. 284). No entanto, “enquanto o país se abria, a comunicação social se tornava mais independente, os portugueses despertavam para novos hábitos de consumo e os jogadores ganhavam uma consciência de classe (…) a Federação permanecia uma estrutura presa ao passado e ainda a carecer de um ímpeto modernizador que, paradoxalmente, acabaria por chegar com os estilhaços do caso Saltillo” (p. 290). E o “ímpeto modernizador” surgiu com o “caso Saltillo”, ele foi a des-ordem donde nasceu a ordem nova. João Tomás e Pedro Adão e Silva são pessoas de indiscutível erudição e cultura. Sabem, por isso, os três grandes desafios que Edgar Morin levanta à sociologia hodierna: os sociólogos devem assumir, simultaneamente, a cultura científica e a cultura humanista (sem esquecer, aqui, a filosofia e a literatura); devem também promover a complexidade antropossocial, rejeitando a simplificação, a redução e a mutilação do cartesianismo e do positivismo, tão impertinentes como grotescas; e devem mostrar, com o rigor possível, a necessidade inadiável da mudança de paradigma, em todas as ciências humanas. E assim, fiéis à metodologia de Morin, João Tomás e Pedro Adão e Silva deram ao caos uma ordem nova e significação e sentido ao “caso Saltillo”. E perceciona-se porque assim terminam o seu magnífico livro, de indispensável leitura, em todos os cursos universitários de sociologia, motricidade humana e desporto: “A rebelião dos Infantes faz parte do imaginário dos portugueses, enquanto uma das derradeiras memórias de um mundo do futebol pitoresco e em desaparecimento. Jogadores como Bento, Gomes, Jaime Pacheco, Carlos Manuel, Diamantino ou um ainda muito jovem Futre, para mencionar apenas alguns, marcaram uma geração pelo seu enorme talento, mas também por corresponderem a um último grupo de futebolistas marcadamente populares, próximos dos portugueses comuns e que, na sua autenticidade, permanecem o espelho nostálgico de um país onde simplicidade, humor e capacidade de improviso se juntaram numa combinação singular. Se em Saltillo o futebol português bateu no fundo” (p. 340), o futebol português era (é) uma totalidade em devir, que o mesmo é dizer: também em Saltillo se anunciou a lei da “complexidade-consciência” que hoje percorre o futebol português, designadamente a Federação Portuguesa de Futebol. É o momento de concluirmos esta rapidíssima abordagem, é o momento de adiantarmos sem receio que o livro Deixem-nos sonhar é uma obra meritória que muito honra quem a concebeu, escreveu e editou. Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto