Carta Aberta ao Doutor António Damásio (artigo de Manuel Sérgio, 225)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 14-01-18 4:10
Por Manuel Sérgio

Senhor Doutor Sou um idoso de 84 anos de idade e levo quase 60 anos de vida a escrever sobre o Desporto e a fazer do Desporto (o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo) um pretexto para pensar a Ciência e a Filosofia. O facto de manifestar pelo Senhor Doutor uma particular simpatia resulta da sua síntese Ciência-Filosofia, patente em todas as suas obras, como atualmente bem poucos o sabem fazer - síntese de flagrante atualidade que, sem rejeitar a metodologia objetivante da corrente empirista, acentua também que o empirismo não pode ser o paradigma exclusivo das ciências humanas. A sua simpatia por Espinoza, o qual parte da certeza que só existe uma substância única e infinita (que o mesmo é dizer: possui uma infinidade de atributos) significa, para si, o reconhecimento dos limites do racionalismo, em Descartes, com especial relevo para o dualismo antropológico. Em Espinoza, a substância infinita e única é Deus ou, se quisermos, a própria Natureza, ou seja, o Deus de Espinoza é inteiramente imanente, não aflora n’Ele um assomo sequer de transcendência. Há um aforismo de S.Tomás de Aquino que poderá recordar-se, neste passo: “operari sequitur esse” (o operar segue o ser). Ora, no seu último livro, A Estranha Ordem Das Coisas (Temas e Debates, Círculo dos Leitores, 2017) é nos sentimentos que encontraremos a causa das causas da evolução humana - nos sentimentos e na homeostasia, já que “os sentimentos, como colaboradores da homeostasia, são os catalisadores das respostas que deram origem às culturas humanas” (p. 44). Entendo agora por que respondeu assim à entrevista do Expresso, de 28 de Outubro p.p.: “Deixei de me chamar um neurocientista. Sou um biologista interessado na mente e no cérebro”. E acrescenta, na mesma entrevista: “Isto faz parte das muitas coisas que mudaram com este livro. O primado da biologia”. Mas primado da biologia, porquê? Porque, na expansão da mente humana, parece necessário estudar, antes do mais, “os objetos e os acontecimentos no mundo, em torno do nosso organismo, presentes de facto ou recuperados pela memória, e os objetos e os acontecimentos do mundo interior”. E ainda: “Em primeiro lugar, os principais dispositivos sensoriais com que o mundo em redor e no interior de um organismo interagem com o sistema nervoso. Em segundo lugar, os dispositivos que continuamente reagem de forma emotiva à presença mental de qualquer objeto e acontecimento. A reação emotiva consiste na alteração do rumo da vida, no interior antigo dos organismos. Estes dispositivos são conhecidos como impulsos, motivações e emoções” (pp. 125/126). Mas o António Damásio, com a paciência narrativa de um criador, chega a um ponto em que se assume como um biólogo de invulgar talento e escreve: “A unidade básica para a criação das mentes é a imagem, seja ela a imagem de uma coisa, do que uma coisa faz, ou do que a coisa nos leva a sentir; ou a imagem daquilo que pensamos da coisa; ou as imagens das palavras que traduzem cada uma destas possibilidades ou o seu conjunto” (p. 134). Mas “as imagens estão de tal modo desesperadas pela companhia do afeto que até aquelas que são elas próprias um sentimento podem ser acompanhadas por outros sentimentos (…). Não há ser, no sentido restrito do termo, sem uma experiência mental espontânea da vida, um sentimento de existência (…). A completa ausência de sentimentos implicaria a suspensão do ser, mas até uma ausência menos radical dos sentimentos comprometeria a natureza humana” (p. 147). E a sua penetrante investigação (e ensaio?) não nos deixa sem uma definição de sentimentos: “os sentimentos são a experiência de determinados aspetos do estado da vida num organismo” (p.151). Na página 169, o António Damásio tenta aprofundar a noção de sentimentos: “Para compreender a origem e a construção dos sentimentos e para avaliar a sua contribuição para a mente humana, é necessário inseri-los no panorama da homeostasia (…). A homeostasia eficaz, ou mesmo ótima, exprime-se como bem-estar e até alegria; por outro lado, a felicidade causada pelo amor e pela amizade contribui para uma homeostasia mais eficiente e promove a saúde (…). Curiosamente, o custo homeostático de uma doença física pode ativar o mesmo eixo hipotalâmico-pituitário e causar a libertação de dinorfina, uma molécula que conduz à tristeza e à depressão”. Não sei se, neste passo, não me é lícito invocar o auxílio do Edgar Morin, ao sublinhar que o sapiens é demens também: “é um ser de uma afetividade intensa e instável (…), um ser apreciador da vida, ébrio, estático, violento, terno, um ser invadido pelo imaginário, um ser que sabe da morte e não pode acreditar nela, um ser que segrega o mito e a magia (…). Somos constrangidos a ver que o homo sapiens é homo demens (Le Paradigme Perdu, pp. 28/29). Esta problemática da sapiência e da demência, da ordem e da desordem, do mito e da magia decorre da hipercomplexidade do cérebro, da hipercomplexidade que o ser humano é. Mas eu tenho de voltar ao seu livro (onde se nota, confesso, uma implacável exigência de perfeição): “Se não houver distância entre corpo e cérebro, se corpo e cérebro interagirem e formarem uma unidade organísmica, então o sentimento não é uma percepção do estado corporal no sentido convencional do termo. A dualidade sujeito-objeto, ou percetor-perceção, deixa de existir. Ao seu invés, relativamente a esta parte do processo, encontramos unidade. O sentimento é o aspeto mental dessa unidade (p. 180). Se bem penso, remato assim este parágrafo: se tudo é sistema e portanto um todo organizado, a unidade é inevitável… Escreve o Doutor António Damásio : “O dualismo arraigado que teve início em Atenas, que teve Descartes como patrono, que resistiu aos ataques de Espinoza e que tem sido ferozmente explorado pelas ciências informáticas, é uma posição que o tempo vai abandonar impiedosamente “. No entanto, “aumentar o conhecimento da biologia, desde as moléculas aos sistemas, reforça o projeto humanista” (p. 331). Sou, “minimus inter pares”, um seu discípulo. E só através das suas belas, densas e ressonantes páginas, já que não sou biólogo. No entanto, já há bem 50 anos, que me distanciei do dualismo antropológico cartesiano e, anos depois, cheguei mesmo a erguer um corte epistemológico, que arrostou sempre com a ameaça de uma solidão crescente, em relação ao treino desportivo e à educação física desses anos idos… por sofrerem de cartesianismo desmesurado! Mas, após a leitura do seu magnífico livro, que eu voltarei a ler, o mais depressa possível, permita-me deixar-lhe as seguintes interrogações de um estudioso da filosofia e da epistemologia: São os nossos genes, ou os nossos sentimentos, que dão mais vida à nossa vida? Não tenho dúvidas que somos bios antes de sermos logos, mas não é verdade que o Padre Teilhard de Chardin já dizia o mesmo, sem o rigor do conhecimento biomédico do Doutor António Damásio? Acredita que a história da evolução é uma ascensão, desde o biológico até à inteligência-consciência? Cito de cor uma frase de Assim falava Zaratustra, de Nietzsche: “sou inteiramente corpo e mais nada”. Ressoa esta frase nas conclusões científicas a que já chegou? O desporto pode considerar-se uma tecnologia do corpo, ao lado de outras, pois que se pensa que a eficácia é, hoje, a principal fonte de progresso? Para mim, não há jogos, há pessoas que jogam. A ética radica na biologia? Atualmente, na alta competição, ninguém pratica desporto para ter saúde, pratica-o porque tem saúde. Não é verdade que este desporto reproduz e multiplica as taras da cultura dominante? Senhor Doutor António Damásio, já li, em língua portuguesa, todos os seus livros, que o mesmo é dizer: devo-lhe muito! Tenho diante de mim o livro de Lévinas, En découvrant l’existence avec Husserl e Heidegger: “A consciência, mais que totalidade é totalização”. É verdade: tudo é processo. E quem o estudou, como eu, fica intelectualmente outro, embora as minhas inúmeras limitações. Se observarmos o que se produz, no âmbito da filosofia analítica, sobre o “MInd-Body Problem”, constata que algumas das suas teses já há muito se conhecem, na filosofia, mas… sem o seu rigor científico! Sou em crer, no entanto, que a linguagem da biologia não abrange a complexidade do ser humano, o qual faz uso preferencial da linguagem do sentido. É impossível uma integral objetividade do ser humano. A ciência não é uma certeza, mas uma “ideia reguladora” (expressão que aprendi com o filósofo brasileiro Hilton Japiassu). Creia-me, por isso, o seu admirador muito grato. Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto