É preciso pensar o desporto (artigo de Manuel Sérgio, 220)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 11-12-17 2:9
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“Uma manhã, ao despertar de sonhos agitados, Gregor Samsa deu por si, na cama, transformado num monstruoso inseto”. Assim Kafka inicia A Metamorfose, um dos contos de maior notoriedade, na literatura contemporânea. Eu não sei se o fenómeno não acontece também com algumas pessoas que falam e escrevem, publicamente, de desporto, discorrida e atabalhoadamente. É que o desporto nunca exclui o pensamento filosófico. Convoca-o, integra-o e acompanha-o, ao longo do tempo. Esta interação desporto-filosofia não é modalidade muito cultivada entre nós. E, no entanto, sem ela, não se entende porque só no século XVIII, a época áurea do racionalismo, desponta a expressão Educação Física. Antes, em 1569, ainda Hieronimus Mercurialis publicava o livro De Arte Gymnastica, onde a Ginástica se define como o “conjunto dos exercícios físicos”. Sendo o Renascimento um movimento tendente a ressuscitar o mundo clássico greco-latino, a Ginástica, como ampliação da helénica “arte do gymnastes” renasce, no Renascimento, como “arte médica”, mais de cunho profilático do que terapêutico. Em 1534, na abertura solene da Universidade de Lisboa (só 3 anos depois a Universidade seria instalada em Coimbra, por D. João III), sob a presidência do Rei e aplaudido por seleta assistência, o dominicano André de Resende (1498-1573), famoso humanista e o introdutor da arqueologia, em Portugal, proferiu a tradicional Oração de Sapiência. Ficou célebre esta Oração, conhecida hoje pelo seu título latino Oratio pro Rostris e que foi afinal, entre nós, o Manifesto do Humanismo, ou seja, a exaltação das Humanidades, as quais, para a cultura clássica, tornavam mais humana a humanidade, por oposição aos “bárbaros”. Para a renovação cultural que André Resende ansiava se concretizasse, no reino de Portugal, as Humanidades eram absolutamente necessárias. Seguindo atentamente as palavras de André de Resende, exponho sucintamente as suas ideias: A nobreza das artes liberais, o Trivium (lógica, gramática e retórica) e o Quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia) que só os “homens livres” praticavam e que se opunham às Artes Mechanicae (artes mecânicas), próprias dos servos e dos escravos. A consciência de uma era nova, que despontava da filosofia greco-latina, em tudo oposta à “noite de dez séculos” que fora a Idade Média. O latim e o grego, instrumentos necessários da cultura, para que pudessem conhecer-se os ensinamentos de Sócrates, Platão, Aristóteles e outros Mestres. E ainda a introdução, no meio escolar, da pedagogia humanista e a renovação da teologia. Era o racionalismo que se anunciava e que, nas palavras de André de Resende, se convertia no espaço alternativo ideal ao progresso da humanidade. O próprio dualismo antropológico cartesiano é precedido pela Filosofia do Renascimento, onde encontramos autores como o Nicolau de Cusa (lembram-se do “De Docta Ignorantia”?), Leonardo da Vinci, Copérnico, Kepler, Galileu, Giordano Bruno, Maquiavel, Hugo Grócio, Montaigne, Francisco Sanches (filósofo português, que viveu entre 1551 e 1632 e emigrou muito novo para França, onde ensinou durante 25 anos). Francisco Sanches escreveu um livro célebre, Quod Nihil Scitur, donde respigo duas frases que, ainda hoje, se repetem: “nem sequer sei que não sei nada; nada se sabe” e “para achar a verdade, têm os míseros humanos dois meios: a experiência e o juízo. Nenhum deles pode subsistir bem sem o outro”. Em Descartes (1596-1650) é visível não só o dualismo antropológico, mas também uma “mathesis universalis” que procurava “quantificar o raciocínio”. E da quantificação do raciocínio se tentou chegar, mais tarde, à quantificação de tudo o que era especificamente intelectual, espiritual, emocional, sentimental e psicológico. No pensamento medieval, notava-se uma sujeição absoluta à autoridade do dogma e da hierarquia eclesiástica. A partir do Renascimento, assistimos ao desmoronamento desta unidade que o dogma exigia e à emancipação da razão, em relação à autoridade aristotélico-tomista. Os descobrimentos marítimos, o aparecimento do capitalismo, a invenção da imprensa, a Reforma, o despertar da consciência nacional e o movimento humanista muito contribuíram ao triunfo da Razão sobre o Dogma. Os nomes que acima citei, todos eles se assumiram como vozes críticas de um mundo em decomposição e simultaneamente preocupados em perspetivar um mundo novo, um homem novo. Só que, de tanto se salientar o homem-animal-racional, não se tinha na devida conta a complexidade humana, onde a razão é um elemento inter-relacionado com outros elementos, sem os quais aliás não funciona. E assim, para o racionalismo, ao estudo do físico, do orgânico bastava a fisiologia. E, porque os mais notáveis fisiologistas eram médicos, a tolice, que parece ter ainda fervorosos adeptos, de subordinar a educação física e o desporto ao paradigma biomédico. No meu modesto pensar, os chamados “professores de educação física” têm um paradigma fundante próprio. Não precisam portanto de, epistemologicamente, se confundirem com nada, nem com ninguém. Para mim, o paradigma fundante do desporto e da impropriamente denominada educação física é “o ser humano no movimento intencional e em equipa da transcendência, ou superação”. É o ser humano, ou seja, encontramo-nos numa província do saber: as ciências hermenêutico-humanas. Trabalhei durante doze meses, com o meu Amigo Jorge Jesus, no Sport Lisboa e Benfica, e confirmei o que já constituía, para mim, uma conclusão lógica: o desporto só como ciência hermenêutico-humana pode investigar-se e estudar-se. No livro Para uma epistemologia do discurso e da prática antropológica (Edições Cosmos, Lisboa, 1996) Adolfo Yáñez Casal, o seu autor e professor catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, escreve: “A Antropologia, à semelhança de outras disciplinas sociais, procurou a sua legitimidade científica à sombra das ciências naturais-exactas, consumando com elas um parentesco de conveniência, que lhe permitiu reivindicar o tão desejado estatuto de cientificidade” (p. 16). Que o mesmo é dizer: triunfou, então, nas ciências humanas, o padrão epistemológico racional-positivista que hoje se contesta e denuncia, nas ciências exatas. O empenho cego num saber, eminentemente quantitativo, desviou as atenções dos cientistas “do seu objectivo principal: pensar o homem na sua totalidade, como ser e como representação, como produto e como actor, como igual e diferente, sem esquecer o fascínio das suas origens, ou as grandes hipóteses teórico-filosóficas de referência” (p. 17). Ora, o grave erro de subordinar o desporto e a educação física “às ciências naturais-exatas” reside aqui: considera os factos sociais e humanos, como coisas, como objetos, como exterioridades sem emoção, sentimento, razão, consciência, ou seja, há neles explicação e não há compreensão. Grave erro (repito) porque esquece que no humano se descobre, para além da natureza, do quantitativo, natural e opaco, a qualidade, os valores, a cultura. Um ponto ainda a realçar: “a essência da cultura é o sentido, a intenção, logo explicar, nas ciências sociais, é compreender sentidos, significações. Intenções”(p. 38). Por isso, se bem penso, os desempenhos desportivos não são simplesmente produto da tática, ou das ordens do treinador, ou ainda da vontade, da inteligência e personalidade dos jogadores, mas também do sentido que emerge do processo de interação entre as pessoas (de todas as pessoas, incluindo a direção, o departamento médico e todos os assessores e adjuntos). É aliás, a partir da compreensão deste sentido, que se pode começar a pensar o desporto (neste caso, o desporto de alto rendimento)… Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto