Ronaldo e Messi: dois santos laicos (artigo de Manuel Sérgio, 214)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 31-10-17 12:30
Por Manuel Sérgio

O Ortega y Gasset escreveu que “o futebol é a religião do século XX”. Se ele pudesse assistir ao culto vibrante e irradiante que os adeptos do futebol prestam ao Ronaldo e ao Messi, com toda a certeza não deixaria de escrever: “o futebol foi a religião do século XX e é a religião do século XXI”. Eu muitas vezes disse ao jornalista Homero Serpa que ele era um “santo laico”, pela generosa familiaridade do seu afeto, em relação aos amigos (e eu fui um deles), e pela sua fraternidade comovente diante de quem sofria ou pedia o apoio de mão carinhosa. O Ronaldo e o Messi não sei se serão tão sensíveis à dor humana, como o foi o Homero Serpa, mas que os idolatram como se fossem dois seres de excecionais qualidades e poderes, creio que ninguém tem dúvidas, a este respeito. Durante a década de 60, era como o “deus Pelé” que os adeptos do futebol conheciam o Senhor Edson Arantes do Nascimento. Em finais de 2005, Pelé, deixando aflorar em si uma fantástica megalomania, chegou a afirmar: “Sou mais conhecido do que Jesus Cristo”. O Maradona (que também produzia um futebol de raro sortilégio) após o seu golo ilegal, no jogo com a Inglaterra do Mundial de 1986, introduzindo a bola, com a mão, nas redes adversárias, não teve pejo em dizer que foi a mão de Deus que fez o golo. Cristiano Ronaldo, ao receber o seu quinto troféu de melhor jogador do mundo, igualando assim o recorde do argentino Lionel Messi, logo mereceu de alguma imprensa o epíteto de “extra-terrestre”. Aliás, como “extra-terrestre”, já o Lionel Messi, anos atrás, fora distinguido por essa mesma imprensa. “Extra-terrestres”, ou seja, “semi-deuses”, Cristiano Ronaldo e Lionel Messi são apreciados e admirados sem restrições, pelo nosso mundo globalizado. Seria interessante que, a par dos golos que marcam e da beleza do seu futebol, fossem também sujeitos capazes de pôr o futebol em cultura… Entre 1920 e 1930, ao guarda-redes espanhol, Ricardo Zamora, os adeptos espanhóis conheciam-no pelo “divino”. Os adeptos do Nápoles, “infinitamente” agradecidos a Maradona, pelo primeiro título nacional da história do seu clube, ergueram, na cidade napolitana, um altar em honra de Armando Diego Maradona. E muitos outros casos semelhantes poderia relembrar, em que os jogadores geniais são reverenciados como se de seres sobrenaturais se tratasse. Folheio agora o livro de Hilário Franco Júnior, A Dança dos Deuses (Companhia das Letras, São Paulo, 2008) e recorto este trecho: “Os jogadores, do ponto de vista da cultura cristã, na qual o futebol nasceu e mais se desenvolveu, também são às vezes assimilados a santos. Ou seja, humanos que, por certas características especiais, fazem a intermediação entre os demais homens e a divindade. É o que explicita a torcida do LIverpoool, ao acolher sua equipa, desde a década de 60, com o cântico: Quando os santos entram. A torcida do Tottenham Hotspur, por sua vez, canta: Gloria, gloria, aleluia, os Spurs estão vindo, para receber o time em campo”(p. 261). Em muitas outras situações de adoração, diante de um “semi-deus”, ou mesmo de um “deus”, já contemplámos, nos estádios ou pela televisão, alguns “torcedores” beijando, de joelhos, as botas dos futebolistas que admiram, com indisfarçável paixão e refulgente religiosidade. O futebol nunca se vangloriou de ser uma religião: não nos diz donde viemos, não nos aponta o céu, ou o inferno, para onde iremos, nem o Absoluto que devemos adorar, mas ensina que, sem Deus, a vida parece um absurdo, embora, com Ele, seja indiscutivelmente um mistério. Sim, o futebol não é uma religião, mas diz-nos que… o ser humano é naturalmente religioso! E, se não adora a Deus, tem necessidade doutros deuses, doutros ídolos. No entanto, assim como as religiões, principalmente as monoteístas, são dogmáticas e excludentes, os vários clubismos são-no também. O futebol é um politeísmo de extrema competitividade. Não há jogo de futebol, entre os principais clubes portugueses, que as claques não manchem com cânticos e palavras-de-ordem, que pretendem agredir e desvalorizar os árbitros, ou os clubes adversários. Nos nossos campos de futebol, este lamentável fenómeno é bem visível. E com o apoio de certos dirigentes, incapazes de implantar, nos seus clubes, designadamente na relação com os clubes rivais, um efusivo e amplo civismo, sem ódios. É um dos aspetos de uma “guerra santa”, que pode ultrapassar os limites da violência verbal e transformar-se em violência física, inteiramente descontrolada. Com o espírito dos cruzados medievais, ainda há, no século XXI, quem assista a jogos de futebol. Ora, há que saber respeitar um estádio, “o santuário do mundo industrial”, no entender do historiador inglês John Bale. Até ao século XVIII, o maior edifício de uma cidade era a igreja, onde cabia toda (ou quase toda) a população local. Hoje, “devido a uma densidade demográfica muito maior, o mundo contemporâneo construiu santuários futebolísticos majestosos. Quando o Maracanã foi inaugurado, em 1950, podia receber 10% da população carioca” (op. cit., p. 271). Atualmente, a população do Rio de Janeiro é de 6 milhões e 320 mil pessoas e o Maracanã comporta 94 751 espectadores. Já li que, no jogo final do Mundial de 1950, foram 199 584 os espectadores. O Brasil quis fazer daquele jogo de futebol uma afirmação imperecível das virtualidades, recursos e energias do seu povo. Só mais tarde o conseguiu e com jogadores e equipas que a História não esquecerá nunca. Mas, voltemos ao estádio: o relvado, ou o terreno de jogo, são os jogadores (e acidentalmente os treinadores) que o pisam. É um local sagrado, interdito a todos os que não são os indispensáveis oficiantes. E, assim como os sacerdotes não celebram as suas missas sem os adequados paramentos, também os jogadores competem devidamente “paramentados”, com as cores dos seus clubes. Um dia, poucos minutos antes de um jogo, no Restelo, quis falar com um jogador do Belenenses. Imediatamente, o Acácio Rosa me aconselhou, com a simpática familiaridade que me dispensava: “Mas só fala com ele, depois de o jogo terminar e ele ter saído, desequipado, do balneário. Agora, equipado, com o símbolo do clube encostado ao coração, ele é mais do que nós”. Não era só um cartaz luminoso do Belenenses. Equipado, era um símbolo do Clube da Cruz de Cristo. Para os fiéis desta religião laica, que é o futebol (refiro-me aos adeptos, aos “torcedores”), os jogadores principais dos seus clubes são verdadeiros “santos laicos”, que representam, como ninguém, a divindade, ou seja, o clube (em Portugal, três exemplos, os mais sonoros: para um “portista” a divindade é o F.C.Porto, para um benfiquista o S.L.Benfica, para um sportinguista o Sporting C. P.). Os clubes têm as características da divindade tão acentuadas que a “mística do clube” já se considera uma qualidade indispensável a todos os jogadores. Assisti, há meia-dúzia de dias, a uma entrevista do Jaime Pacheco, antigo futebolista de vibrante sensibilidade e audácia, ao Porto Canal. Registo o tema central das suas palavras: “Acima de tudo, era a mística do clube que nos animava e fez das equipas do F.C.Porto, na década de 80, as melhores da Europa e do Mundo”. Para o Jaime Pacheco, sem a “mística do clube”, não há vontade para a transcendência. A “mística do clube” é a crença que pode dar ao jogador de futebol as qualidades físicas e psíquicas, necessárias à transcendência, ou superação. O Ronaldo e o Messi vivem de uma grande crença e… são génios! Têm desempenhos que, no futebol de hoje, mais ninguém tem. Para os “devotos” do Real Madrid e do Barcelona são, indubitavelmente, dois “santos laicos”. Sou em crer que alguns sacerdotes se encontrem entre o número imenso destes “devotos”. O arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, escreveu um livro, que me deliciou, assim intitulado: “Corintiano, graças a Deus”… Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto