Quando uma criança nasce… (artigo de Manuel Sérgio, 118)

ÉTICA NO DESPORTO 20-12-15 4:32
Por Manuel Sérgio

Nunca ensinei futebol, nem ao José Mourinho, nem ao José Peseiro, nem ao Rui Vitória, nem a nenhum dos alunos que tive a honra de conhecer, nos meus 46 anos de docência, quer em Portugal, quer no Brasil, quer no Chile. No que ao futebol diz respeito, eu é que muito aprendi com todos eles. Sem favor! Embora as cintilações da memória se vão apagando, com o crescente domínio da aterosclerose, sei o que procurava ensinar-lhes: em primeiro lugar, que a ciência só se justifica como fator de transformação pessoal e social; que se repensasse o nosso objecto de estudo como construção histórica e decorrente de uma “revolução científica”; que, contrariamente à “pedagogia da certeza”, deveria instaurar-se uma “pedagogia da incerteza”, onde deixassem de haver portos seguros e certezas inamovíveis; que o desporto deverá estudar-se como uma ciência humana; que o treinador desportivo e o professor de educação física têm, por isso, de consciencializar que deverão cultivar-se, na leitura dos mais marcantes cientistas e literatos. E chegava a dizer-lhes isto: como complemento ao vosso estudo, leiam os grandes escritores que, ao retratarem a vida, nos dizem o que o desporto é. De facto, invoca-se o desporto e é toda a aventura humana que acode à chamada – aventura humana que a poesia espelha, admiravelmente. Nesta altura do Natal, ao mesmo tempo que deixo a todos os meus leitores um abraço sobre o coração, deixo também um poema da minha autoria, intitulado “Quando uma criança nasce. E… Boas Festas e um 2016, com muita felicidade e muita paz. Como diriam os latinos: Pax et Bonum Quando uma criança nasce Nada de novo acontece O mar continua inquieto E os prédios pestanejam sono No chão secreto das cidades Quando uma criança nasce Os aviões e os pássaros Misturam-se no ar Com asas imaginadas E acordam o silêncio longínquo das manhãs Quando uma criança nasce Continuam decapitados os ponteiros Da tolerância no mostrador do tempo Tudo parece doente Como um suor nocturno Quando uma criança nasce Os iluministas e os positivistas Proclamam a resolução de todos os enigmas Como cavalos de Tróia Saboreando a mentira Quando uma criança nasce Nada de novo acontece Nem a boiar no oceano de lágrimas dos pobres Nem nos gemidos de angústia Dos barcos que vão passando Quando uma criança nasce Nada de novo acontece No imprevisto silêncio dos homens E no entanto algo de novo aconteceu Tão novo tão jovem tão fecundo Que uma criança nasceu Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto