QUINTA-FEIRA, 27-07-2017, ANO 18, N.º 6389
José Augusto Santos
Espaço Universidade
Crenças e crendices no futebol (artigo de José Augusto Santos, 4)
12:15 - 04-07-2017
José Augusto Santos
Cada ser humano que alguma vez se inquietou com o mistério da existência pode tentar resolvê-lo de duas formas, ou através da ciência ou da religião. Ambas as vias chegam a um ponto para lá do qual a resposta é sempre insatisfatória. Para os crentes em dogmas salvíficos o ponto ómega da evolução universal é Deus; para os que rejeitam as certezas da religião nada mais lhes resta que assumir que a matéria e energia que constroem o universo são realidades atemporais, de génese impossível de discernir, mas que acompanham, a par e passo, toda a aventura cósmica que a nossa limitada mente vislumbra.

Vem isto a propósito da força das crenças dogmáticas na vida da grande maioria pessoas em todo o mundo. Convenhamos que é diminuta a percentagem daqueles que não têm âncoras escatológicas a que se agarrar e que se assumem sós perante os mistérios do universo. Por isso, crenças e religiões ganharam espaço na esfera noológica humana e são motor de muito de bom, e também mau, que caracteriza a vida do homem em sociedade.

A fuga do homem à realidade telúrica através da religião ajudou a construir os mitos que sustentam, de forma delegada, o sentido de transcendência que a maioria dos seres humanos possui. Os deuses, maiores ou menores, são construídos através dos espíritos de uma comunidade crente que os assumem como parte integrante e real da sua vida social. Para os crentes, os deuses têm existência real e interferem, por vezes em grau dramático, com a vida dos crentes. Os deuses e demónios têm uma realidade objetiva, podemos afirmar inclusive, tão objetiva como o mundo objetal que nos rodeia. Embora construção humana, a crença autonomiza-se do homem e regula a sua condição existencial. Logicamente que temos de fazer uma ressalva. Embora tenham uma dimensão objetiva, os deuses e as crenças que os sustentam, não têm o mesmo grau de objetividade de uma árvore ou um computador. Enquanto estes continuam a existir para lá da existência do homem, os deuses e as crenças que os objetivam deixam de existir quando o homem termina o seu ciclo biológico.

Por isso, não devemos analisar as crenças e crendices que se manifestam no futebol e noutras atividade humanas com o crivo crítico da ciência e da racionalidade. Razão científica e crenças religiosas são campos que não se podem ligar. A religião pouco pode ajudar a razão científica. Aquela é fechada, doutrinária, imutável e renovada continuamente na fonte mitológica inicial. A ciência assenta em teorias, abertas, refutáveis e continuamente renovadas no conhecimento novo.

Na minha longa experiência no futebol vivi situações em que as crenças e crendices se manifestaram de forma muito real. Logicamente não coloco nomes nos intérpretes para não ferir suscetibilidades. Devo muito ao futebol e não o posso denegrir com delações nominais. Ficam as situações em si. Certo dia, chego ao balneário antes de um jogo importante e vejo parte significativa do banco repleto de velas a alumiar vários santos e santinhas da predileção dos jogadores. Afirmei, escudado no meu mais irreverente ateísmo: - Porra, isto parece Fátima num dia de romaria, ainda incendiais o balneário. O fácies dos jogadores brasileiros, os construtores daquela manifestação de fé, de imediato denunciou a crítica à minha atitude.

No primeiro treino após o jogo, perante toda a equipa, pedi desculpa afirmando que não tinha o direito de criticar as crenças religiosas dos outros. Outra vez, o capitão de equipa chega perto de mim, muito aflito, com um embrulhinho feito por um bruxo guineense (parece que a Guiné tem o monopólio das bruxarias) perguntando-me o que devia fazer com aquilo. Afirmava ele que o bruxo dizia que tinha de jogar com aquilo enrolado nas meias. Tremia o homem. Acalmei-o de imediato: - Dá-me isso, pois como sabes estive na Guiné na guerra e aprendi muito sobre as práticas do oculto. Não precisas de ser tu a colocar a mezinha, pode ser qualquer outro elemento da equipa. Coloco eu nas minhas meias. O capitão respirou de alívio e lá foi fazer um grande jogo que ganhamos por 3-0. Mal ele virou costas vou à casa de banho e mando o bruxedo pela sanita abaixo. Parece que a bruxaria faz efeito mesmo quando viaja descontraída a caminho da ETAR.

Além de galinhas pretas degoladas a favor do êxito desportivo, o que era normal em todos os clubes por onde passei quando as coisas estavam pretas, uma certa vez, vejo o “mister” com quem teria de regressar a casa no seu carro, a passear pelo campo fora, já de noite. Chego perto dele e vejo que tem os bolsos cheios de sal que iam semeando metodicamente pelo campo todo. Encho também os meus bolsos com sal e toca a ajudá-lo na tarefa de esconjurar os espíritos maus. Pergunta-me admirado: - Ouve lá, tu não acreditas em nada disto, porque razão estás a fazê-lo? Respondi a brincar, porque assim regressamos mais depressa ao Porto. No carro, dissertando sobre o assunto, reitero que o importante não sou eu e as minhas convicções.

O importante é que se ele acreditava naquelas práticas eu teria de respeitar as suas crenças, naquele caso particular, pura crendice. Se estamos cometidos a um projeto coletivo e se o chefe acredita nas forças do além, nada mais temos a fazer que respeitar essa crendice, pois o coletivo determina, em parte, a anulação das nossas próprias convicções. Isto é fazer parte de uma equipa, no bom e no mal, no lógico e no irracional.

Qual é a força das crenças e crendices? Todos os dias recebemos notícias de mortes suicidárias por motivos de crenças religiosas. Morre-se também por uma ideologia. O caso mais extremo, que os anais da sociologia e psicologia nos apresentam, é o caso da morte Vodu. Numa comunidade crente nos poderes do feiticeiro, todos sabem que o feiticeiro amaldiçoou um indivíduo. De imediato a comunidade evita o amaldiçoado que vem a morrer como resultado de uma síndrome complexa de rejeição ao não encontrar apoio social que lhe permita ultrapassar o esconjuro.

Para quem acredita nos feitiços, estes têm a força da causalidade determinante. Por isso, devemos respeitar os outros, inclusive a expressão das suas mais íntimas e irracionais crenças.

José Augusto Santos é Professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

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