SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Liderator: A Excelência no Desporto (artigo de Manuel Sérgio, 198)
20:24 - 17-06-2017
Manuel Sérgio
Liderator: a Excelência no Desporto, de Luís Lourenço e Tiago Guadalupe (Prime Books, 2017) é, em minha opinião, o mais notável livro sobre liderança, editado, no nosso país, nos últimos dez anos. Notável pela temática, pois é um dos mais singulares livros acerca da arte de liderar, partindo epistemologicamente do conceito de “motricidade humana”; notável pelos objetivos que se propõe alcançar, num tempo onde a decadência dos povos significa, em larga medida, indiscutível falta de liderança.

Em Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa (Planeta, Lisboa, 2017) o filósofo Miguel Real instabiliza-nos, afirmando: “Entre a decadência e o declínio se tem gizado a teoria da história de Portugal, desde o século XVII (…). O mito sebastianista (…) como processo alucinatório, instaurador de uma verdade auto-referente, base da narrativa mítica sobre el-rei D. Sebastião, realiza em perfeição a suspensão do tempo histórico cronológico, ou desqualifica-o ontologicamente, como tempo fraco ou de decadência, substituindo-o por um tempo mítico” fruto, entre outros motivos, de uma ausência de liderança. “Neste sentido, o sebastianismo possui uma vertente positiva, uma espécie de motor ético de futuro, que força o português a agir e a buscar algo ou alguém, no exterior da decadente elite política e administrativa do País” (p. 151).

Por sua vez, Luís Lourenço e Tiago Guadalupe escrevem, no Liderator: “Portugal vive, neste início do século XXI, uma das épocas mais difíceis da sua vida e da nossa história, como povo. Atravessamos, ao longo de quase uma dezena de anos, muitas, diferentes e dramáticas crises. Contudo, talvez à exceção das Invasões Francesas, todas as outras tiveram um fator comum, que lhes deu início: crise de liderança” (p. 7). Miguel Real é um (homem) e um filósofo singular, já com lugar inapagável na História da Filosofia, em Portugal; Luís Lourenço e Tiago Guadalupe dois pensadores do “fenómeno desportivo” na linha do que mais sério se faz, em Portugal. Miguel Real, Luís Lourenço e Tiago Guadalupe – o mesmo tema, magistralmente estudado, por caminhos diferentes.

Depois de um notável e vasto fresco da nossa sociedade, os autores do Liderator salientam: “Culturalmente, em Portugal existe a ideia de que a liderança se posiciona e deve posicionar, no topo da pirâmide. O líder é percecionado, quase exclusivamente, como o superior hierárquico. De resto, esta ideia errada, diga-se, tem levado a uma das grandes confusões sobre a temática. Uma confusão que acaba sempre, por desvirtuar e até desvalorizar o papel da liderança (…). Prevalece a ideia que manda quem tem poder (…). Temos de pensar o problema, através de uma outra perspetiva: a liderança no centro de círculo. Esta ideia está implícita nas palavras do treinador Leonardo Jardim, numa entrevista que nos foi concedida”.

Diz Leonardo Jardim: “Em termos de relação, esta deve ser ao nível do grupo porque, na minha opinião, se fores capaz de te colocar num espaço mais próximo do staff, mais próximo dos jogadores, mais próximo da organização, com certeza terás uma melhor ideia do que se passa, um melhor controlo sobre os jogadores e consegues rentabilizá-los ao máximo”. Portanto, o líder deverá ser um homem capaz, digamos sem receio: forte, ao nível da razão e da emoção. Relembram, por isso, o “erro de Descartes” - o “erro de Descartes” que eu tentava explicar aos meus alunos, sem o conhecimento científico de que o Doutor António Damásio beneficia e, com indiscutível brilho, aprofunda. O fundamento na minha visão do dualismo antropológico racionalista radica, principalmente, em Teilhard de Chardin, em Mounier e no inevitável Merleau-Ponty. Para o dualismo, presente na cultura portuguesa, eu ainda assinalava a linha órfico-pitagórico-platónica do nosso integrismo religioso. Avisadamente, Luís Lourenço e Tiago Guadalupe procuram arrimo científico, nos conceitos de inteligência emocional e inteligência contextual…

“Mas o que é então a inteligência emocional? É a capacidade de podermos conscientemente lidar com as nossas emoções e com as dos outros, dar-lhes sentido e aproveitá-las eficazmente, não de uma forma isolada, mas conjugadas com a razão”. Da inteligência emocional saltamos (pois que muito haveria a dizer, a este respeito) para a inteligência contextual. “A liderança adapta-se ao contexto em que o líder está inserido. Os seus comportamentos, as suas atitudes, as suas ações dependem em larga escala do momento que vive. Não há fórmulas gerais e abstratas, que determinem o sucesso da liderança. É por isso que muitos líderes obtêm o sucesso em determinadas situações e fracassam noutras, justamente porque não adaptam o seu estilo de liderança ao contexto” (Luís Lourenço e Tiago Guadalupe, op. cit., p. 37).

Embora temperamentalmente emotivos e simpáticos, mostram os autores, neste livro, um tal rigor, um tão nítido apego à complexidade de todas as questões que não nos surpreende o parágrafo seguinte: “Para a compreensão e interpretação do contexto, importa em primeiro lugar a noção de contexto cultural, que pode ser entendido como um padrão de comportamentos e atitudes padronizados, pelos quais os grupos transmitem conhecimento e valores. Este é um traço comum a quase todos os grupos humanos, que desenvolvem culturas, sempre em evolução, nunca estáticas e em diversos níveis” (op. cit., p. 39).

José Couceiro, um profissional que se nutre de valores de sólida impregnação moral, alude, com um saber de experiência feito, às dificuldades que assaltam um treinador de futebol que não dá o devido relevo ao contexto: “se não conhecemos a cultura, a história, o passado longínquo e recente, quer do país, quer da organização (…), começamos logo por ter problemas graves de integração, o que tornará bastante complicado o nosso trabalho” (op. cit., p. 40). De facto, o futebol é uma atividade, mais do que física, humana. São homens, sujeitos pensantes e sensíveis, que o constituem” (op. cit., p. 48) – esta frase dos autores do livro Liderator dá-nos o paradigma que preside a tudo o que este livro tem e é: no futebol, o ser humano é a medida de todas as coisas!

Mourinho, Guardiola e Ferguson são, para Luís Lourenço e Tiago Guadalupe, três incontornáveis exemplos de liderança, no mundo do futebol. Nicky Butt, um dos Fergie Babies de Alex Ferguson, assim observa o seu antigo treinador: “Ferguson vê o homem, para além do profissional, interessa-se pelo seu bem-estar, dentro e fora do trabalho” (p. 48). Jorge Costa, referindo-se a Mourinho, por quem nutria uma particular admiração, afirmou ao Luís Lourenço que Mourinho chegava ao ponto de dispensá-lo de um ou outro jogo, de menor exigência, para ele pudesse fazer umas miniférias com a família.

Na prática profissional de Guardiola, também muitos exemplos de verdadeiro humanismo poderíamos reunir, entre os êxitos conseguidos por um treinador de futebol que era líder, por um líder que era treinador de futebol. Manifestando superiores qualidades de método e de exposição, procuram depois os autores compor uma síntese sobre a indústria do futebol, mas detêm-se, com especial atenção, sobre a gestão de grupos/equipas de futebol. “Assim, e levando em linha de conta toda a vastíssima literatura que esta temática origina, deixamos aos leitores duas definições simples e que reúnem os elementos que julgamos essenciais ao enquadramento do tema.

Temos uma primeira, a do Professor João Bilhim que, sobre a temática, nos diz que se entende por grupo a reunião de dois ou mais indivíduos que interagem numa relação de interdependência, tendo em vista a realização de objetivos específicos. A segunda, de Devillard, que explica que uma equipa reúne pessoas dirigidas por um objetivo comum e que operam de forma perfeitamente estabelecida. Define-se como um grupo de indivíduos organizados em conjunto, conduzidos por um líder e funcionando no interior de um contexto, no sentido de um mesmo objetivo” (pp. 68/69). E continuam, sempre com uma argúcia que nunca é demais realçar: ”entendida a equipa desta forma, não hesitamos em rotulá-la de organismo vivo, já que age e produz, a partir de interações, inter-relações, conexões, diálogos, comunicação. É assim que a equipa ganha vida própria e se torna organismo vivo, criando história e gerando sentido de futuro” (p. 69).

Luís Lourenço e Tiago Guadalupe passam a palavra, na página 70 deste oportuníssimo livro, ao treinador que eles e eu mais admiramos, o Dr. José Mourinho: “O que de mais forte uma equipa pode ter é jogar como uma equipa. Mais importante do que ter um grande jogador ou dois grandes jogadores é jogar como uma equipa. Para mim, isto é muito claro: a melhor equipa não é a que tem melhores jogadores, mas aquela que joga como equipa. Jogar como equipa é ter organização, ter determinadas regularidades que fazem com que, nos quatro momentos do jogo, todos os jogadores pensem em função da mesma coisa, ao mesmo tempo. Mas isso só é possível com tempo, com trabalho e com tranquilidade”. E (acrescentam os autores) com autoconfiança e com uma relação de qualidade treinador-atleta. Para tanto, há que saber comunicar, para dentro e para fora da equipa. Mas fixemos agora a página 93:

“Mourinho, Guardiola e Ferguson são três treinadores que se destacaram e destacam de todos os outros, que apresentam resultados e que já ganharam praticamente tudo o que há para ganhar, no mundo do futebol. Estes treinadores juntos, nos últimos 15 anos, obtiveram mais sucesso do que todos os outros. Será que eles sabem mais futebol do que os outros? Sabem mais de tática? (…). Eles são melhores porque a sua mais-valia, enquanto treinadores, se alicerça nas suas capacidades de liderança e na eficácia da mesma”. Sir Alex Ferguson, com a sua liderança carismática; José Mourinho, com a sua liderança transformacional, Josep Guardiola, com a sua liderança de nível 5 (Humildade, Ambição, Preocupação com o Futuro e Valores Morais) – podem nem sempre inspirar simpatia, mas inspiram sempre, sempre confiança.

Os três podem nem sempre criar amigos, mas têm o imparável poder de congregar os seus jogadores à sua volta. Inteligências fulgurantes, erudição exaustiva do mundo do futebol, dotes excecionais de organização e de comunicação, a História do Futebol demora-se diante deles, para os saudar, para os aplaudir, para os estudar. Como eu, diante deste livro (muito mais rico de ideias do que esta singela e despretensiosa crítica dá a entender) de Luís Lourenço e Tiago Guadalupe, dois autores que, por via de uma alertada inconformidade e de um fervor posto numa luta que nunca se dá por finda, podem criar um novo paradigma na observação e estudo do futebol. Um abraço sobre o coração, a eles e à Prime Books, a grande editora portuguesa do livro desportivo. Que todos, autores e editora, mantenham essa força inabalável de quem tem uma missão a cumprir.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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