SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
José Augusto Santos
Espaço Universidade
Regresso a Olímpia (artigo de José Augusto Santos, 3)
22:30 - 16-06-2017
José Augusto Santos
Como posso ter regressado a um sítio onde nunca estive fisicamente? A resposta é simples e deriva logicamente da pergunta. Não estive em Olímpia através do corpo, mas muitas vezes frequentei esse lugar sagrado com o espírito tomado pela gesta histórica envolta em mistério e heroísmo daqueles que nos outorgaram o essencial da nossa cultura. Que importa a fisicidade se a flexibilidade do espírito permite transportar-nos para todos os locais que ganham espaço na nossa imaginação?

Já fui a Olímpia tantas vezes quantas as que se originaram na perscrutação hermenêutica daquele lugar “sagrado” onde tudo começou para mim, e não só para mim. Muitos milhões de anos longe de nós aconteceu o big-bang e o nascimento do universo físico que vivemos. Na Grécia, nos campos de Olímpia, há cerca de 2.800 anos, começou a saga do homo sportivus que transformou o Desporto em desígnio existencial e elevação cultural e religiosa.

Para mim, enquanto um daqueles que compete por um prémio, que é a significação etimológica do conceito – ATLETA, em Olímpia teve origem a aventura extraordinária de um fenómeno cultural que atingiu, nos séculos XX e XXI, a sua dimensão ecuménica – o Desporto. Por isso, ao calcar as pedras de Olímpia, numa viagem ao passado, senti-me mergulhar num mundo que a minha imaginação sempre julgou ideal, no que a idealidade consegue ser concretizável nas coisas telúricas. O ideal é uma tensão para, nunca uma concretização. Contudo, um ideal, tem a força motriz que molda o mundo, os homens e os seus sonhos.

Estive em Olímpia, agora em corpo e espírito, concretizando um sonho que me acompanhava deste jovem. E usufruí, enlevado, aquele terreno de deuses que tomaram dos homens as suas angústias e alegrias. Deuses agonísticos que competem entre si e interferem nas pugnas desportivas dos homens. A dimensão de sagrado é tão profunda em Olímpia que não nos custa a aceitar como verosímil ver sair, por detrás de uma arca destruída pelo tempo e pela sanha persecutória humana, um deus olímpico a desafiar-nos para uma luta, uma prova atlética ou uma performance musical ou poética. Fechamos os olhos e de imediato imaginamos Ulisses a treinar em Olímpia para ganhar a prova de lançamento contra os Trácios. Podemos imaginar as batotas dos deuses para favorecer os seus humanos preferidos e assim assumir no chão agonístico sagrado as vilezas humanas.

Em Olímpia respira-se o ar da vitória do homem sobre si próprio. Na transcendência que o gesto desportivo comporta, o homem vence os seus medos e ultrapassa as suas limitações. Através do Desporto o homem eleva-se na sua humanidade. Tudo começou com uma simples corrida de velocidade, a corrida de Estádio, mais ou menos 160 metros que segundo a lenda foi a distância percorrida por Hércules em apneia. Tive consciência, vivenciando-a, que aquela distância mítica entre as pedras de partida e de chegada, determinou a génese do desporto como realidade social e cultural, impregnada de sagrado. Os mitos que o desporto criou e a humanidade necessita derivam, todos, daquela prova atlética inicial.

Por isso, a génese do desporto humano, como momento de ascese e transcendência, tem uma simples prova de corrida como referência. A corrida, sacralizada no campo de Olímpia, marca o momento em que o Homem encontra no Desporto o ethos da sua sublimação existencial.

A corrida de Estádio, realizada em Olímpia em 776 a. C., é menos uma ação motora competitiva que visa uma performance física e mais uma forma de gratificar os deuses. Os poemas de Homero evidenciam o apreço que os deuses tinham pela prática desportiva. Por isso, para os Gregos, o Desporto era uma prática religiosamente comprometida pela busca da aretê, conceito polissémico que deve ser assimilado como virtude no sentido lato. Virtude, não como expressão moral subordinada a um guião religioso, mas uma ética de vida e comportamento que aproximava os homens dos deuses.

Por isso, neste regresso a Olímpia, permiti-me, agora através do meu corpo físico, a emulação transcendental que procurei durante toda uma vida. Naquele lugar de sonho e evasão, senti-me ungido divino, numa excecional fraternidade com todos os deuses e heróis olímpicos. Recuo, em pensamento, milhares de anos e eis-me em compita com os deuses e atletas da Antiguidade. Pela força dos meus sonhos, agora realizados, os deuses da fábula permitiram-me competir com eles. Escolhi a prova de dolikos (mais ou menso 5.000-m), pois sou mais favorecido em fibras do Tipo I. Parti célere, com os deuses atrás de mim, em ritmo de aquecimento, a perorar acerca da minha arrogância. Logicamente fiquei logo excluído nas eliminatórias. Mas quem pode competir com deuses e heróis olímpicos? Saí rápido, mas Atena enviou forte vento que me projeta para fora da pista e permite a vitória de Acanto de Lacónia que fica inscrito como primeiro campeão olímpico da história na corrida longa. Os deuses, como gajos muito elitistas, nem se permitiram terminar a prova. Como viram que eu não dava luta foram discorrer no areópago sobre as suas façanhas e esperando que um humano merecesse o favor de entrar no limbo sagrado, morada de todos os deuses. Tal desiderato demorou quase 3.000 anos, mas finalmente um homem competiu ao nível dos deuses tornando-se um deles — Usain Bolt. Bolt vingou-me da húbris dos deuses gregos que comigo não quiseram competir.

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