SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
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A receita do Vitória (artigo de José Antunes de Sousa, 80)
08:22 - 05-06-2017
Escrevo estas linhas um dia após o Benfica ter conquistado a sua vigéssima sexta Taça de Portugal, numa sessão de bailado à chuva - águas mil de abril que estavam em débito.

Com mais esta dobradinha, o Clube da Águia, confirma com altivez um ciclo vitorioso que tem tudo para se manter por mais algum tempo, em face da consistência organizativa, unidade de direcção e estabilidade humana e emocional que alardeia. E, a propósito, gostaria de acentuar o carácter dinâmico e sinérgico do conceito de estabilidade: firme e síntona comunhão de objectivos, apesar das várias entradas e das várias saídas.

Mas, nesta onda vitoriosa, o que mais espanta é o facto de um treinador, com apenas 22 meses no comando técnico da equipa de futebol, ter conseguido arrebatar nada nais nada menos do que cinco títulos, com realce para os dois campeonatos seguidos: algo nunca visto neste nosso jardim à beira-mar plantado. E se ao feito o contextualizarmos – inexperiência em clube grande e uma sucessão pesada e onerosa – eis que ele redobra de brilho. Antes, porém, de qualquer juízo ou análise, impõe-se-me uma prévia declaração de interesse: não conheço pessoalmente o Rui Vitória – nem sequer estive alguma vez perto dele.

Desvantagem? De modo nenhum, que assim o que sobre ele diga não estará contaminado pelo registo de qualquer emoção – estarei mais longe de incorrer no erro da parcialidade. Numa avaliação a olho nu, eis o que me parece: À parte o facto auspicioso de Vitória ser um nome feminino, anúncio de fertilidade (tenho amigo que é Vitório, mas confesso que não soa tão bem!), o nosso simpático Rui dá mostras de cultivar uma virtude especial, a de resistir à tentação do humanamente costumeiro e óbvio: atribuir a culpa aos outros por qualquer precalço, pois que fazê-lo é o mesmo que aceitar de ânimo leve que é deles que o seu desejado sucesso depende – dos outros e das circunstâncias.

Como é que é gerado o insucesso? Pelo olho gordo da inveja e por se ver no borda-d`água o real causador da tempestade. O insucesso é, afinal, para a generalidade das pessoas incautas, um desejo, uma intenção, que atravessa o quintal do vizinho, que, por sua vez, se morde de inveja ao mínimo sinal de bons ventos. Mas o que decide tudo contra nós é essa nossa mania de fazermos desse quintal minorca do vizinho de maus fígados, o mundo inteiro que, armado, conspira a favor da nossa desgraça.

Ao invés deste olhar amedrontado que nos consome, o segredo do Rui Vitória parece estar na sadia atitude de olhar para dentro – do próprio e do grupo, sendo que nem o olhar para dentro de um mesmo se pode confundir com egoismo (e muito menos solipsismo, que isso merece uma filosófica qualificação), nem o olhar para o interior do grupo se pode, neste caso, confundir com qualquer tipo de corporativismo. Trata-se, antes, de ajustar e aplicar a mira para o único alvo realmente compensador – o coração, sede da vida intelectiva e onde mora o verdadeiro poder criativo. Trata-se, mais que tudo, de o líder zelar pelo bom clima de trabalho e pela coesão interna do grupo.

Distrair o olhar a cada aceno fantasmático de um imaginado inimigo é ceder vergado ao poder asfixiante e letal do medo – esse monstro que nos obsidia e nos suga o sangue. O caminho faz-se também de pedras, mas a um qualquer tropeço, que sempre acontece a quem caminha, nunca a quem está pardo, o treinador do Benfica não o vê como ameaça ou prenúncio de iminente fiasco, mas, antes, integra-o, com fé, na economia do próprio sucesso, pois, como proclama Sêneca, do alto da sua imperturbabilidade, “chega primeiro não quem corre mais, mas quem sabe para onde vai”! Sim, porque o que verdadeiramente distingue os homens não é o número de vezes que caem, mas a prontidão com que se levantam. E nunca são as pedras que nos atropelam, mas somos nós que tropeçamos nelas…

A queda só nos derruba, não quando ela é grave, mas quando desistimos de nos levantar. Qual capitão em águas revoltas, o Rui Vitória, através de um tom de voz pausado e sereno, envia, com notória eficácia, uma mensagem a todos – grupo de trabalho, direcção e adeptos – de serena autoconfiança, e todos sabemos como “a crença gera biologia” (Norman Cousins), isto é, a fé gera seguramente a nossa própria realidade. Mostrar serenidade e confiança nas dificuldades parece ser um dos traços de Rui Vitória e que, em muito, ajuda a explicar o seu consistente sucesso, pois, como dizia Epicuro, “os grandes navegadores devem a sua reputação a tempestades e temporais” – e o comandante deve ser sempre o último a abandonar o navio: não para testemunhar, qual notário, a morte dos passageiros, mas como verdadeiro capitão da esperança.

O segredo do Vitória, que o é da vitória, está numa certeira e permanente atenção ao que de dentro se constrói e nunca ao que, de fora, pareça ameaçar de destruição: assim se constrói o sucesso – baseado numa motivação endógena, lá de dentro, no íntimo de todos e de cada um. Isto sim, um grupo realmente blindado. Com um olhar fixado no presente afectuosa e intensamente abraçado e fruído – e seguramente, quando se é feliz naquilo que se faz as coisas boas jorram em abundância.

E fica-se livre para criar o seu próprio sucesso!

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
José Antunes de Sousa

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