QUINTA-FEIRA, 27-07-2017, ANO 18, N.º 6389
José Augusto Santos
Espaço Universidade
Vitor Frade - uma forma especial de pensar o futebol (artigo de José Augusto Santos, 2)
17:10 - 17-05-2017
José Augusto Santos
Vitor Frade terminou uma longa vida de professor na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, mas continua e continuará indelevelmente ligado a ela. Está na altura de fazer o primeiro balanço do seu múnus profissional que tantos alunos marcou em quase 40 anos de lecionação.

Sem a responsabilidade de preparar as aulas com que cumpria as suas responsabilidades de professor continuo a vê-lo mergulhado nos livros que são as suas muletas existenciais.

Há homens que nunca se retiram da incessante luta pelo conhecimento, e ele é um deles. Uns anos antes, Vitor Frade (VF) entregou-me a súmula das suas aulas, feita por um dos seus alunos da Opção de Futebol. É um documento fundamental para entender os alicerces concetuais da Periodização Táctica, forma original, criada por ele, de entender o treino e jogo do futebol. A essa nova concetualização voltarei noutra ocasião.

Fiquei sensibilizado pela atitude de confiança que VF me outorgou e, com a profundidade heurística possível, lancei-me a desbravar aquelas 350 páginas que evidenciam a dimensão de Professor que é apanágio do VF. A prolongada leitura do documento permitiu-me o renovado prazer de reencontrar o Professor que tanto me marcou no meu tempo de estudante. Vítor Frade foi para mim, e para um grande número dos meus colegas de curso, um Professor tocado pela centelha da inovação científica enriquecida por um saudável inconformismo pedagógico que o evidenciou entre todos os meus professores. Acabado de terminar a sua segunda licenciatura – Filosofia – bombardeou-nos com matérias esotéricas que nos provocaram, em manifesto sinal de auto-defesa, um repúdio generalizado. De que é que ele está a falar? Que coisa é essa de Teoria Geral dos Sistemas, Cibernética, Teoria Geral da Informação? De que forma a lógica da Complexidade nos poderia ajudar na coisa desportiva? De que nos servirão os conceitos das Neurociências na nossa futura actividade profissional?

Foram tempos de angústia para muitos de nós, mas para aqueles que aceitaram o desafio de penetrar em campos novos e desconhecidos até ali, foi uma angústia generativa que nos obrigou ao esforço hercúleo de penetrar em saberes para os quais não possuíamos as ferramentas científicas e filosóficas suficientes. Sim, porque a leccionação de VF foi um constante e recorrente vaivém entre Ciência e Filosofia que, embora nos permitisse uma frutuosa ginástica mental, determinava-nos uma tensão crescente proveniente da consciência de impenetrabilidade em matérias tão “esotéricas”, pois o tempo de assimilação para tanta novidade era curto. O domínio integrado dos conceitos, apanágio do saber Universitário, não é compatível com as pressas lectivas decorrentes do mero cumprir de programas. Aí perdemos algo na sedimentação dos conceitos, mas a fagulha da curiosidade foi lançada e criou alguns incêndios. Só muito mais tarde, alguns de nós, tiveram a coragem de tentar decifrar o mestre.

Pouco a pouco, alguns vislumbraram alguma luz ao fundo do túnel e paulatinamente começaram a dominar alguns conceitos básicos que, no meu caso pessoal, foram não só importantes para o desporto e educação física, mas também para uma melhor compreensão da vida e do Homem como zénite da evolução filogenética global.

Num ensino estereotipado, marcado pelo positivismo das discorrências dos mestres, VF deu-nos asas para voar por cima dos constrangimentos e insuficiências da nossa formação anterior. Deu-nos asas para voar sós, solidão essa, que é apanágio daqueles que têm a coragem intelectual como estímulo existencial.

Qual o valor acrescentado que VF constituiu para mim e para o meu curso? Crescimento intelectual, radicalidade e profundidade de pensamento, justeza reflexiva, recusa de certezas, constante procura de novos desafios.

VF motivou-nos para a recusa da ortodoxia do vulgar e das verdades estabelecidas, lançando-nos no profícuo mas angustiante caminho da procura livre.

VF não consegue parar. VF está sempre à procura, desculpem-me o plebeísmo, de “sarna gnosiológica para se coçar”. Tem uma biblioteca excepcional em tamanho e qualidade que diz bem da sua constante procura de respostas para o recorrente estado de pergunta que o caracteriza.

Através de VF encontrei os alicerces científicos para justificar que o acto desportivo é, antes de mais, um acto de inteligência. Que o acto motor deve ser sempre precedido pela concepção mental que o controla e justifica. VF colocou a razão antes do pé ou da mão o que propicia, não a menorização destes órgãos efectores, mas a sua elevação a órgãos de sensibilidade, geradores de acções inteligentes.

Ao abrir-nos novos campos de conhecimento, VF despertou-nos pulsões heurísticas, empenhamentos epistemológicos, reflexões filosóficas que rápido ganharam asas de autonomia. Essa autonomia reflexiva pode levar-nos, aqui e ali, a discordar dele, mas mesmo que pontualmente dele discordemos permanece indelével a gratidão ao mestre que nos permitiu caminhar, com os nossos próprios pés, na senda do conhecimento.

Nietzsche dizia que o verdadeiro mestre é aquele que prepara o discípulo para o negar. Também reconheço que honra pouco o mestre aquele que permanece discípulo toda a vida. Em vários momentos da minha vida académica tentei negar o mestre e anular em mim a condição de discípulo. Esforço debalde pois VF vai sempre à frente, qual farol continuamente renovado no seu fogo interior, e não nos permite veleidades. Quando nós, orgulhosamente, acendemos as nossas velas no altar do conhecimento, verificamos sempre que VF já lá colocou a sua.

A pulsão pelo saber faz dele um mestre incontornável que tem no Futebol o seu campo experimental. VF deu ao futebol uma dimensão superlativa. Espero que continue essa missão por muitos e longos anos. Tentar decifrar as suas conceções inovadoras sobre o futebol é missão a que me proponho em próxima oportunidade.

José Augusto Santos
Professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

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