DOMINGO, 28-05-2017, ANO 18, N.º 6329
Espaço Universidade
A febre amarela (artigo de José Antunes de Sousa, 78)
19:00 - 09-05-2017
José Antunes de Sousa
Há dias, numa rotina semelhante à que se instalara nos campos do horror e extermínio e denunciando uma pérfida familiaridade deste nosso tempo com um descarado tráfego das humanas emoções, foi anunciado através de três linhas de um frio comunicado que o histórico A C Milan tinha passado de mãos de sequestradores: de Sílvio Berlusconi para as, e aqui a novidade, de um magnata chinês – não dos Emiratos Árabes Unidos, da Rússia ou de Angola – mas da inefável China! Nome do Magnata? Que importa? Um Xi Yang qualquer. Sim, o seu nome é absolutamente irrelevante, pois é apenas o sinal camuflado, o mero expediente protocolar, para encobrir a identidade do verdadeiro dono: a República Popular da China que, num serôdio acesso de febre imperialista que obsidia os seus dirigentes desde o parto político de 1949, não pára de se revoltear nos braços predadores do sonho unificacionista: primeiro foram os territórios cujo estatuto jurídico lhe facilitava o gesto, Hong Kong e Macau. Mas, qual espinha na garganta, a verdadeira obsessão tem um nome: Taiwan. E, já agora, algumas das razões que ajudam a explicar tão persistente e gulosa obsessão:

Taiwan é um pequeno estado insular, mas tem, no cotejo com a China Continental, a inestimável vantagem do primórdio político, tendo sido inclusive um dos membros fundadores da ONU, vindo a ser substituído no seio dos cinco membros do Conselho de Segurança, em 1971, justamente pela República Popular da China. Taiwan evoluiu de um regime unipartidário com mundial reconhecimento e plena jurisdição sobre TODA A CHINA para uma Democracia com reconhecimento internacional limitado, com competência apenas sobre a Ilha Formosa e algumas outras ilhas de menor importância, apesar de usufruir de relações de facto com muitos outros países. Taiwan: uma pequena-grande espinha na garganta do colosso continental!

O desafio que Taipé constitui para a China funciona paradoxalmente como um acicate expansionista no plano global: já não é apenas Taiwan que é percepcionado como espúria separação, mas o mundo inteiro que é alucinadamente entendido como extensão descontínua da sua imensidão continental e o gigante, tomado dessa febre voraz, já nem disfarça o apetite, um apetite que ora se manifesta sob a doce e inocente oferta de ubíquas lojas ao dobrar de cada esquina, ora através da manápula glutona nos recursos hidroeléctricos de um país, como a linda borboleta que se dá em gratuito alimento ao crocodilo de mandíbulas escancaradas, garrotando países como o nosso na sua incauta obnubilação, ora ainda através de felino lance, confiscando e capturando a grandeza, a história e a emoção associada a um grande clube de futebol, um dos maiores da Europa, como é o caso do A C Milan.
Bem vistas as coisas e como ficou implícito, uma tal operação estava à partida bem facilitada – era só transitar das mãos de um captor para as mãos de um outro. E, a propósito de mãos: o A C Milan tinha de facto sido já capturado, num golpe de mão empreendido por raposa ladina que dá pelo nome de Sílvio Berlusconi, um aventureiro atiçado por muitos milhões de euros, símbolo descarado das mãos sujas, mãos que deixam dedadas imundas na Economia, na Política, na |Justiça, mãos, enfim, que se impuseram, quando uns juízes mártires (Giovanni Falcone e Paolo Broselino, ambos impiedosamente eliminados pela máfia siciliana) tentaram impor uma Ética das “Mãos Limpas”que pudesse promover a regeneração da pútrida vida pública em Itália.
Mas voltemos ao apetite predador da China: além da avidez pelos clubes de futebol, também jogadores e treinadores de futebol, como que picados pelo mosquito da febre amarela (aedes egypti), formam, qual formigueiro, fila nesta nova rota amarela de refulgentes e imprevistas especiarias – agora sem passagem por Antuérpia!
Quando se esperaria que a rota do ocidente, decrépita, cansada e falida, fosse substituída por uma outra, do oriente e portadora de novidade, eis que esta se empenha em copiar e replicar os vícios que as práticas ocidentais tão obscenamente evidenciam.

Mas da China nem isso é propriamente uma novidade: quando os seus dirigentes, do alto de um histórico topete, proclamam: “Um território e dois sistemas” estão a usar algo que infelizmente caracteriza o desporto moderno e, em particular, o futebol – eles estão fazendo jogo duplo, eles estão fazendo batota!

A duplicidade, a ambiguidade, a hipocrisia – tudo epítetos que abundantemente adornam a real politik internacional, mas que assentam como uma luva no proverbial riso amarelo dos chineses: um sorriso que disfarça uma real ameaça e que denuncia um generalizado estado de icterícia!

Quando se esperaria a aurora de um novo mundo eis que os chineses se aplicam em apropriar-se de velhos e trágicos modelos.
A esperança deixou de percorrer os caminhos do sol: terá que vir de algum outro lado.

Entretanto, por estes lados, continuamos galhardamente a insistir no famigerado modelo das SAD, esse engodo artificioso, esse retardador cosmético da falência dos clubes: diferida, iludida e luxuosa para os grandes, impiedosa, súbita e dramática para os pequenos – a União Desportiva de Leiria, Os Belenenses, o Beira-Mar estão aí para uma dolorosa confirmação: a de que afinal “o Rei vai nu”!


Brasília; 9 de Maio de 2017

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