SEGUNDA-FEIRA, 29-05-2017, ANO 18, N.º 6330
José Pinto Correia
Espaço Universidade
Governação do Sistema Desportivo de Elite (Artigo de José Pinto Correia, 2)
16:05 - 19-04-2017
O modelo de governação e financiamento do desporto de elite português tem apresentado resultados internacionais fracos ao longo de muitos anos, cuja expressão mais categórica tem sido demonstrada nas recentes participações nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, de Londres 2012 e do Rio 2016.

No sistema desportivo português há muito que se reconhecem as suas debilidades de governação, liderança e gestão, que se traduzem em falhas de organização e de afirmação de estratégias e planos de melhoria qualitativa e quantitativa, insuficiência de disseminação social do valor do desporto e a correspondente falta de projecção da capacidade de mobilização de patrocínios privados financiadores das diferentes modalidades, bem como a tendência para a burocratização das relações entre as entidades desportivas de base e a administração pública tutelar e financiadora. E a tudo isto acresce, com ainda maior incidência, uma continuada ausência de pensamento estratégico e prospectivo sobre o próprio desenvolvimento do desporto, a qual já dura há bem mais de uma década, e tem atravessado continuadamente as principais instâncias do poder político e do sistema desportivo.

Assim sendo, embora a mera transposição hipotética de um modelo estrangeiro de organização e financiamento do desporto de elite não possa ser a solução das nossas incapacidades permanentes em estudar e pensar teórica e praticamente o desenvolvimento desportivo durante tantos anos, o estudo entre nós do modelo de governação e de orientação estratégica continuada do desporto de elite do Reino Unido poderia constituir uma etapa de inestimável valia para a análise comparativa referencial, num processo vulgarmente denominado como de “benchmarking estratégico” (dada a fantástica progressão de resultados que aquele Reino conseguiu nas três últimas edições dos Jogos Olímpicos).

O desenvolvimento desportivo português é algo que se terá de fazer continuamente, tendo como horizonte uma determinada visão e um processo de planeamento estratégico, os quais partam do diagnóstico da realidade presente e fixem objectivos a atingir num determinado prazo de tempo. Mas a consecução desses objectivos tem de obedecer a um plano de acção que envolva as diferentes entidades concretas nas suas respectivas responsabilidades e com calendários definidos na obtenção de determinadas metas. É o respeito escrupuloso por esta metodologia de aperfeiçoamento ao longo de um determinado horizonte temporal que permitirá também que sejam devidamente escrutinados os resultados e as responsabilidades aos diferentes níveis do sistema desportivo.

A governação das organizações desportivas deve ser sempre entendida como o sistema que contém os elementos respeitantes à definição das respectivas estratégias de desenvolvimento e aos modelos da direcção, controlo e regulação dos diferentes componentes organizacionais. Em todas estas organizações desportivas os modelos e os processos de concretização de uma governação eficaz e rigorosa são determinantes para o seu funcionamento efectivo e para a concretização dos seus objectivos e nível de desempenho.

Por outro lado, a avaliação do desempenho destas organizações desportivas é apenas uma parcela desta governação, estreitamente associada à função de controlo, e possível de realizar com eficácia se existir a definição prévia de um determinado quadro de desenvolvimento estratégico que incluirá, obviamente, os correspondentes objectivos essenciais a prosseguir num determinado horizonte temporal de planeamento.

A teoria da gestão das organizações também considera que o desempenho de um qualquer sistema organizacional depende, nomeadamente, do seu acesso aos recursos em geral e aos financeiros em especial. Esta abordagem da relação das organizações com o seu ambiente, denominada de “dependência de recursos”, afirma que as organizações serão tanto mais capazes de se afirmarem competitivamente quanto maiores forem as suas habilidades internas de manipularem em seu benefício os ditos ambientes envolventes, e desta forma aproveitarem a possibilidade de mobilizarem em seu favor os valiosos e inúmeros recursos disponíveis naqueles mesmos ambientes circundantes.

Os recursos financeiros são, por isso, apenas um dos diversos meios de realização da estratégia e dos respectivos objectivos de cada organização ou sistema, havendo então que saber também se a capacidade de governação e liderança e a eficiência no uso dos respectivos recursos são impulsionadoras ou constringentes da consecução dos respectivos resultados de desempenho organizacional ou sistémico. E é esta mesma capacidade de governação e liderança que permite que a organização ou sistema possam ser eficazes no manipular do ambiente envolvente, onde se movem os demais agentes detentores dos recursos, no sentido de que estes atribuam aquelas organizações ou sistemas os recursos que interessam à respectiva afirmação competitiva nacional ou internacional.
Pode dizer-se então, em tese geral, que o desenvolvimento do desporto depende do seu nível de financiamento, uma vez que este possibilita graus de realização diferenciadores do seu desempenho. Mas deve também afirmar-se que não é suficiente para um dado sistema que se lhe aumentem os meios financeiros para que ele seja imediatamente conduzido a um mais elevado nível de desempenho, uma vez que este nível depende do sucesso da governação geral do sistema.

Assim sendo pode concluir-se que uma melhor governação do sistema desportivo de elite português deve considerar que:

(1) Um dos factores que determina o sucesso internacional do desporto é a abordagem integrada à política de desenvolvimento do desporto de elite. Os resultados em competições internacionais são os resultantes do grau de aperfeiçoamento e de profundidade das respectivas políticas desportivas aplicadas ao nível dos praticantes de elite;

(2) Num sistema desportivo de elite a eficácia do sistema depende, desde logo, do estabelecimento de um quadro de relações e funções claras entre as diversas entidades ou “agências” que intervêm activamente na concretização dos objectivos e nos resultados dos atletas/desportistas competidores a nível internacional. Ao que acresce o facto de que cada vez mais se reconhece que a capacidade de gestão e de definição de estratégias de desenvolvimento de cada desporto se tornam determinantes para o alcance do sucesso competitivo internacional dos atletas/desportistas respectivos;

(3) Também é determinante que os meios financeiros públicos possam estar efectivamente ao serviço da concretização dos objectivos e metas desportivas devidamente fixados em processos racionais de planeamento e estratégia de desenvolvimento, que no caso da preparação olímpica possam envolver pelo menos dois ciclos (oito anos).

(4) Finalmente, Portugal pode e deve fazer escolhas estratégicas sobre o modo como vai financiar o seu desporto de elite, que instrumentos organizacionais vai escolher para canalizar de forma eficaz e eficiente os recursos de que consegue dispor, e sobre que desportos vai fazer incidir os seus investimentos e competências científicas e técnicas especializadas, para com isso poder vir a obter melhores resultados competitivos a nível internacional e afirmar mais competentemente o valor do seu desporto de elite no concerto das nações.

José Pinto Correia, Mestre em Gestão do Desporto

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