SEGUNDA-FEIRA, 29-05-2017, ANO 18, N.º 6330
Espaço Universidade
Do Índice de Desenvolvimento Humano às Medalhas Olímpicas
(artigo de Francisco Fernandes, 1)
19:54 - 18-04-2017
Redação
O objetivo do olimpismo é colocar o Desporto ao serviço do desenvolvimento harmonioso do Homem, favorecendo o estabelecimento de uma sociedade pacífica e comprometida com a manutenção da dignidade humana (cf. Princípios Fundamentais do Olimpismo, 3.º §)

Sendo o desenvolvimento humano o conjunto de procedimentos através dos quais uma comunidade melhora a vida dos cidadãos, proporcionando os bens com que satisfaz as suas necessidades elementares e garantindo o respeito pelos direitos individuas e coletivos, a medição deste indicador permite aferir a qualidade de vida individual e avaliar o nível de desenvolvimento humano em cada país ou região.

Por sua vez, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), conceito desenvolvido pelos economistas Amartya Sen e Mahbud ul Haq (1990), vem sendo usado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) desde 1993, e é a medida que permite categorizar os países do ponto de vista do desenvolvimento humano, resultando da conjugação de três parâmetros – vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e um padrão de vida apropriado.

Concretizando, o IDH procura conjugar uma vida longa e saudável, medida pela esperança de vida à nascença, com o conhecimento, medido pela taxa de alfabetização de adultos (com ponderação de dois terços) e pela taxa de escolarização bruta combinada do primário, secundário e superior (com ponderação de um terço), e com um nível de vida digno, medido pelo BIPpc (dólares PPC).

Há, portanto, uma relação próxima entre o desenvolvimento do Homem e a manutenção da dignidade humana, que estão na génese do Olimpismo, tal como o concebeu Pierre de Coubertin, e o conceito de desenvolvimento humano que estrutura o quadro conceptual subjacente ao IDH, o qual centra no ser humano e no seu bem-estar o foco de todo o desenvolvimento.

Ora, sendo o Medalhário Olímpico a principal referência que permite avaliar os resultados desportivos à escala do planeta e à dimensão de cada país, importa descobrir a existência de uma relação entre os dois indicadores, a fim de aferir se os resultados desportivos correspondem efetivamente a uma retaguarda constituída por uma política de desenvolvimento humano ou se, simplesmente, resultam da existência de um conjunto de medidas circunstanciais, designadamente financeiras, das quais advêm resultados desportivos que não representam desenvolvimento humano, modelo que geralmente condiciona o `país organizador` ou é utilizado para uma afirmação internacional, integrada em objetivos políticos distantes do desenvolvimento humano.

Em setembro de 2000, 189 países emitiram e adotaram a histórica «Declaração do Milénio» que integrava oito objetivos essenciais, que iam desde a redução para metade da pobreza existente à escala do planeta, até travar a propagação do HIV/SIDA, bem como assegurar a matrícula no primeiro ciclo do ensino básico a todas as crianças nascidas até 2015.
Um pouco por toda a parte no Mundo, os Governos e a sociedade civil reorientaram o seu trabalho em torno destes objetivos.

A determinação anual do Índice de Desenvolvimento Humano, tornou-se um critério inultrapassável para medir o grau de cumprimento dos objetivos do Milénio. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), propriamente dito, é uma medida-resumo que considera, como se referiu, três dimensões do desenvolvimento: Longevidade, Educação e Rendimento.

Seguindo a metodologia de Ball (1972), se atribuirmos 3 pontos à medalha de ouro, 2 à de prata e 1 à de bronze, resultará um ranking de medalhas do Rio-2016 que, para os primeiros vinte lugares, assim se apresenta:
Estados Unidos-250; Reino Unido-144; China-140; Rússia-112; Alemanha-86; França-80; Japão -73; Itália-56; Austrália-56; Coreia do Sul-42; Holanda-42; Brasil-39; Espanha-35; Nova Zelândia-35; Hungria-34; Canadá-33; Quênia-31; Jamaica-26; Croácia-23 e Cuba-23.

Por outro lado, se olharmos o IDH destes países, verificamos o seguinte:
Austrália-0,939; Alemanha-0,926; Holanda-0,924; Estados Unidos-0,920; Canadá-0,920; Nova Zelândia-0,915; Reino Unido-0,909; Japão-0,903; Coreia do Sul-0,901; França-0,897; Itália-0,887; Espanha-0,884; Hungria-0,836; Croácia-0,827; Rússia-0,804; Cuba-0,775; Brasil-0,754; China-0,738; Jamaica-0,730 e Quênia-0,555.

Uma simples comparação destes indicadores denuncia, desde logo, algum distanciamento entre as medalhas obtidas e o IDH dos respetivos países, o que pode revelar a existência de um investimento específico na preparação olímpica, sem que haja correspondência direta com o desenvolvimento humano desses países. Vejamos, por exemplo: a) A China, sendo o terceiro país a figurar no ranking de medalhas, apresenta-se no 18.º lugar no IDH, e b) O Brasil, país organizador, sendo o 11.º no ranking das medalhas, surge em 17.º no IDH.

Todavia, e uma vez que o indicador de IDH se encontra subdividido em vários patamares, a saber, IDH Muito Elevado, Elevado, Médio e Baixo, constata-se que, entre os vinte países mais medalhados, quinze são considerados de Desenvolvimento Humano Muito Elevado, enquanto apenas quadro são de IDH Elevado e um de IDH Médio, o que não deixa de aparentar a existência de uma relação inequívoca entre o desenvolvimento humano e os resultados desportivos olímpicos.

Esta conclusão fica igualmente corroborada pelo facto de que, no conjunto dos 209 países concorrentes, apenas quatro países com IDH Baixo obtiveram medalhas: Nigéria (1-Bronze), Costa do Marfim (1-Ouro), Etiópia (1-Ouro, 2-Prata e 5-Bronze) e o Burundi (1-Prata), e ainda, a Coreia do Norte (2-Ouro, 3-Prata e 2-Bronze) país do qual se desconhece o IDH.

Estas breves considerações permitem-nos concluir que nos Jogos Olímpicos Rio 2016 participaram 209 países, dos quais 122 não obtiveram quaisquer medalhas; Três países (Estados Unidos, Grã-Bretanha e China) dividiram entre si 99 medalhas de ouro (32% do total) e, no seu conjunto conquistaram 258 medalhas; analisando o ranking dos vinte países com mais medalhas olímpicas, verificamos que: a) Os Estados Unidos, 1.º no ranking de medalhas, são o 4.º em IDH; o Reino Unido, 2.º em medalhas, é 7.º em IDH; a China, 3.º em medalhas, é 18.º em IDH; a Rússia, 4.º em medalhas, é 15.º em IDH e a Alemanha, 5.º em medalhas, é 2.º e IDH
Por outro lado, entre os menos medalhados do grupo considerado, temos que o Canadá, 16.º em medalhas, é 5.º no IDH e a Nova Zelândia, 14.º em medalhas, é 6.º no IDH

Não se pode, com razoável margem de certeza, concluir por uma relação direta entre o IDH e as medalhas olímpicas obtidas. Tal só se poderia afirmar perante os resultados de vários JO’s e a evolução anual do IDH.
Procurou-se, igualmente, construir rankings alternativos, envolvendo outras variáveis, a saber, a população, a dimensão da missão olímpica e o PIB, tendo-se chegado a algumas conclusões, que importaria desenvolver noutro contexto de investigação. Vejamos: a Jamaica, 18.º no ranking das medalhas, obteve o maior número de pontos p/milhão de habitantes (9,6); a Croácia, 19.º no ranking das medalhas, obteve o maior número de pontos face ao PIB (0,27); e a Austrália, 9.º do ranking de medalhas, obteve o maior número de pontos face ao número de participantes (0,79).

Como conclusão final julgamos ter apenas iniciado uma análise que deverá ser ampliada com o cruzamento de diversas variáveis e com uma mais longa série de resultados que permitam descobrir eventuais relações entre essas variáveis.

Francisco Fernandes
Doutorado em Motricidade Humana/Ciências do Desporto e presidente do Conselho Geral da Universidade da Madeira

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