QUARTA-FEIRA, 26-04-2017, ANO 18, N.º 6297
João Marreiros
Olimpismo
O Estádio na Antiguidade (artigo de João Marreiros, 3)
22:39 - 03-04-2017
João Marreiros
Olímpia está situada no Sudoeste da Grécia, no vale do Rio Alfeus, que desagua no Mar Jónico, a 18 quilómetros deste lugar. A Oeste das ruínas de Olímpia aparece o leito do Rio Claudeus. A margem Norte do Rio Alfeus é uma planície emoldurada por colinas cobertas de bosques, atrás das quais se deslumbra cumes nevados de montanhas, nascendo o Sol por detrás das montanhas da Arcádia.

Centro religioso e cultural da Antiga Grécia, Olímpia encontra-se situada na Élida, no Peloponeso, onde no arvoredo sagrado de Altis, cresciam plátanos, ciprestes e oliveiras.

A montanha de Olimpo, situada no centro da Grécia, a Oeste do Golfo de Salónica, fica entre a Macedónia e Tessália, tendo 2.917 metros de altitude, ficando a uma distância de 270 quilómetros em linha recta de Olímpia, sendo o cume mais elevado do país, possuindo grande riqueza florestal, onde na antiga mitologia grega, era considerada a morada de 30 mil deuses.

Denominada pelos deuses, em memória ao monte Olimpo, Olímpia transformou-se a partir do primeiro milénio a.C. num dos santuários gregos mais importantes do culto a Zeus. A partir de 776 a.C., ano dos primeiros Jogos da Antiguidade, todos os gregos uniam-se numa grande competição desportiva.

Olímpia foi descoberta em Maio de 1829, quando foram encontrados restos arqueológicos de uma ocupação contínua, desde o período heládico (2.800 a 1.100 a.C.) até à época bizantina (Século V d.C.).

O Estádio na Grécia e em Roma era o lugar público onde se efectuavam práticas desportivas. Este tipo de construção destinava-se a corridas a pé. Constituído por uma pista estreita, construída entre duas inclinações naturais ou entre terreno plano (Delfos), acabava em semicírculo e o seu comprimento era variável: 192,27 metros em Olímpia, 182 metros em Atenas e 181 metros em Epidauro.

Os Estádios gregos foram geralmente construídos nas vertentes das montanhas, escavadas na rocha, para aproveitar os desníveis do terreno. De planta retangular, mediam entre 181 e 215 metros de comprimento. Os extremos eram quadrangulares ou de forma arredondada. De entre os mais notáveis, sobressaem os de Atenas (Século IV, desenhado por Licurgo no ano de 350 a.C.), Delfos (177,5 metros), Epidauro (181,3 metros), Mileto, Priene e Olímpia.

Em Olímpia, a Nordeste do arvoredo sagrado encontrava-se o Estádio. Palavra de origem grega «Stadion» e do latim «Sadium». Estádio é hoje definição moderna. Encontra-se o Estádio ligado a Altis, por uma passagem subterrânea de 32 metros de comprimento, 3,65 metros de largura e 4,40 metros de altura.

A entrada oficial do Estádio era a Cripta, (Século III a.C.) que se encontra a Norte, depois do pórtico de Eco. Foi chamada Cripta (que em grego significa oculta), porque no século I a.C. foi recoberta por um arco, que hoje está, parcialmente restaurado.

O Estádio em Olímpia era em terreno semioval, estendido de Oeste para Leste com cerca de 215 metros de comprimento e cerca de 30 metros de largura, cercado por um aterro, de pequena altura em que acomodavam os espectadores, em número que atingia os 30 a 35 mil.

Diante da Cripta do lado de Altis, havia um Propileu (entrada monumental) com colunas de estilo Coríntio. Continuando pela Cripta, encontra-se o Estádio. Quando das escavações também se encontrou em boas condições, um canal de pedra que contornava todo o Estádio. Servia para a distribuição de água, havendo espaçadamente uma série de pias em pedra, onde se depositava a água para que os espectadores que presenciavam os Jogos debaixo de um Sol abrasador pudessem beber.

Foi este sistema construído entre os anos 141 e 157 d.C. e estava ligado ao aqueduto de Herodes Ático (Filósofo e orador da Maratona), vindo a água para esse aqueduto de uma distância de três quilómetros, existindo hoje um matagal, no Monte de Kronios.

No cortejo em direcção ao Estádio, à frente marchavam os helanódicos, vestidos de vermelho; depois a Sacerdotisa Deméter Claminé, a única mulher com direito a assistir aos Jogos, secreta e austera no seu peplo branco, de que uma das abas lhe cobria a cabeça, sendo considerada deusa da terra, do trigo, e da fertilidade, a qual presidia à abertura das competições. Seguiam-se as grandes personagens, chefes políticos, ou chefes de guerra.

Em seguida, as deputações das cidades e as embaixadas estrangeiras, cujos trajos bárbaros, rutilantes, bordados de pérolas e dourados, contrastavam por vezes com as túnicas ou os mantos de lã branca dos gregos que usavam um chapéu de palha de grandes abas, o Pétaso, para se defenderem do Sol. Caminhavam por fim os atletas em túnica de linho, que dentro em breve despiriam no Bosque Sagrado.

Um batalhão de corredores de velocidade, músculos delgados e compridos, o corpo untado de azeite misturado com terra, para aderir melhor, o rosto já marcado pela exaltação do espaço e das próximas lutas.

Após as competições, tiravam o azeite e a terra com um raspador de metal, o estrigilo e banhavam-se no Rio Alfeu, onde a sombra dos choupos estremecia.Trabalhando desde 1958 a 1961, o Instituto Arqueológico Alemão, conseguiu pôr a descoberto toda a extensão do Estádio, ou seja, a pista, restaurando também os lados desse Estádio tal como era na Antiguidade.

O primeiro Estádio construído em 776 a.C. situava-se ao pé do Monte Kronios. Construído na época Arcaica encontrava-se no espaço que há entre o grande Altar de Zeus e a linha de chegada do actual Estádio.

Perto do Século V a.C. (450 a.C.), este Estádio foi transladado para junto do atual, mas no ano de 426 a.C., ordenado por Teodósio II, foi incendiado. Finalmente as necessidades do Santuário, provenientes do aumento das ofertas e dos peregrinos, impuseram uma nova e definitiva deslocação.

Assim, o Estádio que se encontra nos nossos dias nas ruínas de Olímpia tal como o vemos hoje, data do Século IV a.C. (350 a.C.). Além dos melhoramentos que se faziam periodicamente até à época Romana, foi renovado nos anos de 1961 e 1962, tendo um comprimento de 212 metros e 29,30 metros de largura. É o terceiro Estádio que se construiu em Olímpia, o qual sofreu uma inundação no ano de 551 d.C.

No espaço livre deixado pelo anterior Estádio, colocaram-se novos monumentos e construiu-se o Pórtico de Eco, que separava Altis do novo Estádio. Mais tarde os estádios multiplicaram-se por toda a Grécia, em Epidauro, Corintos, Delfos, Istmo, Némea.

Curiosamente no Líbano, os vestígios do mais antigo Estádio do mundo, situa-se em Amrith, que data da época Fenícia (15 Séculos a.C.), mas é incontestavelmente no período grego mais recente que se dispõe de elementos de informação mais precisos. Em 776 a.C., Iphitos, rei de Elide reorganiza os Jogos, que se realizariam de quatro em quatro anos. Em 600 a.C., o Santuário com uma radiação Pan-Helénica alcança o seu apogeu no meio do século V a.C.

Das grandes competições Pan-Helénicas, destacam-se os Jogos Ístmicos, que se disputavam de dois em dois anos a partir de 586 a.C. na antiga Corinto, em honra de Poseidón, deus do mar. Foi durante os Jogos Ístmicos de 196 a.C., que o romano Flaminino anunciou a libertação da Grécia do domínio da Macedónia. A sua maior importância coincidiu com o máximo esplendor de Corinto.

Os Jogos adquiriram rapidamente uma grande importância, de forma que os gregos começaram a contar o tempo baseando-se nos mesmos, a partir dos celebrados no ano de 776 a.C. Anteriormente utilizava-se a guerra de Tróia como ponto de partida. A importância era tamanha que os vencedores das corridas passavam a receber pensões vitalícias e ficavam isentos de qualquer tributo.

A partir do Século III a.C., dá-se o declínio dos Jogos com a participação nas competições de atletas profissionais, perdendo a sua característica sagrada, sendo o Atletismo uma das modalidades privilegiadas da Grécia Antiga, que se confunde com a origem do Estádio.

João Marreiros é Professor Auxiliar no Ensino Universitário

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