QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Manuela Hasse
Espaço Universidade
Desporto. A vida verdadeira (artigo de Manuela Hasse, 8)
13:07 - 29-03-2017
Manuela Hasse
Eu, por acaso, gostava mesmo de saber, afirma Ricardo com um sorriso, meio envergonhado. A turma não reforça o interesse, a vontade de saber. Partem do princípio que já se sabe, é algo adquirido, ou que não interessa assim tanto conhecer. O que parece estranho é que estar num curso de desporto subentende que a génese do desporto constitui um conhecimento indispensável, obrigatório para qualquer estudante universitário pois, na realidade, antes de chegarem à Universidade não houve interesse ou oportunidade para conhecer como se desenvolveu este fenómeno social fundamental da sociedade moderna.

Há 40 anos que estudamos o desporto. Esse estudo não começou connosco, começou antes, com os mais velhos que me precederam, que passaram o testemunho assim como o exemplo, o interesse e o respeito pelo conhecimento, pelo saber. Voltarei a esta questão. Por agora, centremo-nos na dificuldade de compreender que sempre acompanha o que consideramos adquirido ou, também, quando se acredita que basta perguntar para conhecer – por mais boa vontade que haja, apenas podemos traçar em linhas gerais a génese de algo que é a sociedade que conhecemos. A par da desorientação em que por vezes caímos, dificuldade em compreender o fenómeno em estudo, em penetrar aquilo que se esconde sob a aparência do óbvio, impõem-se o pasmo diante daqueles que sabem tudo, perceberam tudo e, com imenso à vontade, um sorriso e uma compreensão inesgotável, dispõem-se a explicar-nos tudo mas, verdadeiramente, tudo aquilo que não entendemos – o que se oculta por trás do óbvio. Acontece, no entanto, esses apenas nos levam a compreender que, em estado mais lastimável do que o nosso, julgam ter compreendido tudo e, sem saberem, não perceberam grande coisa.

Não nos referimos à sensação de total perplexidade quando, decididos a iniciar uma nova experiência no domínio do desporto se avança, por exemplo, pela prática da vela - depressa compreendendo que tínhamos de aprender tudo, absolutamente tudo: a terminologia técnica, a nomenclatura, a análise e a leitura da situação, as técnicas básicas de aparelhar e desaparelhar a embarcação, atender às velas, o estai, o leme, as espias, as adriça, a retranca, a temida retranca, as escotas, bombordo e estibordo, as mareações, os ventos, as manobras de orçar e de arribar, etc., etc. O equilíbrio, a velocidade, a coordenação, a força, a aplicação da força, o jogo de forças entre membros superiores (braços), os membros inferiores (pernas) a flexão, a flexão total, a atenção permanente ao movimento permanentemente variável, para não voar borda fora, a noção de equipa e a questão fundamental da liderança. Quem manda é o skipper e não há discussão. Mesmo porque, provavelmente, não haverá tempo para isso mal se levante um pé de vento que a todos obriga a uma concentração máxima – de movimentos, da atenção. Se tudo isto, e já não é pouco, se passa sobre a embarcação, há que aprender ao mesmo tempo a ler, interpretar, procurar todos os sinais no exterior, no mar, no céu, à superfície da água. A isso tudo se prende a tomada de decisão, sempre em movimento, na mais vertiginosa das velocidades pois 34 nós podem parecer duas vezes mais se a maré está a encher ou a vazar, se estamos junto à costa ou a meio do nada, se vamos a favor (ao largo) ou contra o vento (bolina) se pretendemos entrar na marina, amarar, manobras que também reclamam nervos de aço e enorme sangue frio para saltar para a o cais e amarrar, sem demora, 8 toneladas de embarcação. Após os momentos iniciais, não já aqueles em que caímos à água no rio Tejo, nadamos para escapar ao barco em si, no golpe certo do corpo procuramos escapar ao velame, aprendemos a virar o casco, ...até os momentos em que começamos a tentar velejar mais a sério, compreendemos que, na verdade, não sabemos nada. Que a especialização nos desportos, que a competição, a alta competição parece impôr, longe de nos preparar para ‘tudo’ limita-nos, afinal, através da repetição, da delimitada variação dos exercícios, na ideia assente que a mera circunscrição deste ou daquele aperfeiçoamento, desta ou daquela correcção do gesto técnico, da biomecânica propriamente física e mecânica do gesto, seria a forma correcta de actuar, de executar, de fazer.

É também por isso que é nas idades mais baixas que se deve dar a oportunidade a que cada criança, cada jovem, tenha a possibilidade de experimentar vários desportos e, depois, então, escolher. Seria bom que todos fossem obrigados a aprender a velejar – disciplina obrigatória a nível nacional, formação fundamental de vida, de compreensão da multiplicidade de factores que fazem não só um bom velejador mas um bom cidadão, um bom ser humano e social, a aprendizagem do valor do trabalho em comum, de equipa, do respeito pelo outro, da importância e da necessidade do outro, do ser amigo. Recordo Alfredo, do Algarve, jovem adolescente que não hesitou em lançar-se à água para salvar a velejadora em formação que acabara de sair borda fora – no entanto, exímia nadadora! A par de uma formação o mais rica possível, a possibilidade de escolha das actividades desportivas de lazer, a dedicação posterior a uma possível especialização, a competição. Nada disto é novo. Terá ficado esquecido? Nada disto é novo e as gerações mais velhas, aquelas que nos vão deixando no trabalho, na vida, sabiam-no bem. Talvez por isso tivessem mantido aquele ar de meninos, já depois de vidas feitas, quando se juntavam e riam e brincavam a meterem-se uns com os outros, por causa dos jogos que haviam jogado, a simplicidade ligada ao facto de não terem de parecer aquilo que não eram - até porque todos se conheciam demasiado bem. Que o desporto tem destas coisas, não há hipóteses de andar a fazer de conta por muito tempo, de se levar a si próprio a sério. Observá-los nestas situações, em profundo divertimento, alheios aos outros, àqueles que não pertenciam ao círculo mágico, será para sempre uma das imagens mais ricas, mais vivas, mais profundas de uma geração de autênticos pioneiros da área profissional onde, por escolha ou acidente, acabaram por construir as suas carreiras, as suas vidas. Não serão, decerto, heróis, mas viveram sem qualquer dúvida tempos heróicos. Tempos em que era preciso fazer tudo pois pouco, muito pouco, havia sido feito antes deles. Estamos nos fins dos anos 40, 50, 60, 70. Todos da mesma escola, o INEF, todos formados na mesma cultura, entre a higiene e a moral, o desporto e a rebeldia. Não brinquem com eles. Observem como actuam, como falam, como riem, o que dizem – o que escreveram e escrevem ainda.

Referimo-nos – sim – à necessidade de conhecer e de compreender, acessíveis através de estudos cada vez mais rigorosos e exigentes, um fenómeno cuja complexidade emerge desde as manifestações mais antigas e que é indispensável aos que pretendem desenvolver uma actividade profissional nestes domínios. E que qualquer pode desenvolver nos extensos campos dos desportos. Contudo, se tiver estudado o fenómeno nos domínios que a história, as ciências sociais em geral aprofundam, terá uma compreensão mais precisa desse fenómeno social e humano e, diante da tomada de decisão que tiver de concretizar, estará melhor preparado para o fazer de forma mais correcta, isto é, com maior adequação, com melhor resultado – caso se pretenda que através do desporto a qualidade de vida seja melhor.

Uma introdução tão grande para quê? Para dizer que sabemos pouco, ou quase nada, mas sabemos alguma coisa, talvez o essencial. É que para compreender o desporto, há que fazer desporto e, ao mesmo tempo, estudar o que é o desporto para os homens, as mulheres, as crianças, os mais velhos. Desse modo, o que se conhece por meio do estudo de ordem mais teórica e o que se conhece através de uma experiência prática completa-se, consolida-se, de alguma forma, faz sentido. Praticar desporto, cair e levantar-se, magoar-se e prosseguir, aguentar a dor, o esforço, persistir, resistir, ganhar e perder, sentir a vergonha e o embaraço e superar essas e outras limitações, descobrir e enfrentar os limites e ultrapassá-los, descobrir a cooperação, a generosidade, a iniciativa, a escolha. É olhar o perigo, medir o risco, sentir o medo e seguir em frente. Na verdade, atirar-se para a frente. Tudo isto, com os outros, diante dos outros. Mas estaremos a falar de guerra ou de desporto? É necessário lembrar que o desporto, no desporto, se trata da representação de um combate, de um confronto, de um combate simbólico, uma coisa a que as crianças chamariam ‘um fazer de conta’. Aí, a coisa começa a complicar-se: o que é exactamente isso da representação, isso do simbólico, isso do ‘fazer de conta’? Isso é uma parte do que é preciso estudar e que só se procura, só se encontra se já se tiver passado por isso. É que só encontramos o que procuramos. Quanto a isso, não há nada a fazer. É a vida. O homem, enquanto ser vivo, tem necessidade natural, biológica, de movimento. Enquanto ser vivo de relação, ser humano e social tem necessidade de movimento segundo formas, ritmos, estruturas que se organizam consoante as culturas em que estão inseridos, de que fazem parte. O jogo, a arte, as diversas maneiras de assegurar a sobrevivência, são manifestações dessa necessidade básica e profunda. Contudo, tão profunda quanto a necessidade de movimento biológico, físico, propriamente dito, há a necessidade de avançar, de compreender, de aceder a um sentido para a sua existência e que a prática do desporto pode oferecer. É importante sublinhar isto. Embora o desporto não seja uma solução para tudo, nem para todos os problemas do homem e do mundo, este é o domínio em que actuamos, pelo estudo, pela formação, pela especialização – a diferentes níveis. Além do mais, este é um elemento de cultura comum a todos, uma língua que a maioria entende, logo, um meio de comunicação excepcional.

O desporto constitui-se numa oposição. Representa uma oposição. Uma oposição contra um adversário, um adversário que pode ser um único oponente, uma equipa, um elemento da natureza ou o próprio indivíduo. De facto, sempre o próprio indivíduo. Contudo, cada um de nós não existe, não teria qualquer hipótese de sobreviver, de crescer, de reproduzir-se, de um viver de relação – sem os outros. Cada um de nós precisa de cada um dos outros para ser gente. O desporto é uma das maneiras em que tudo se organiza de modo a estar com os outros, a aprender com os outros. Aprender os outros? Sem dúvida. Mas através dos outros, nessa proximidade, nessa intimidade pública, social, aprendermos-nos a nós próprios. Sempre nós e sempre outros. Há várias definições de desporto. A de Coubertin, muitas vezes ainda citada, corresponde a uma outra época, a um outro desporto, um desporto que começava a ser tomado em conta como algo importante e necessário. Esta noção, do sociólogo alemão Elias, parece-nos suficientemente alargada e clara. Pode então tudo ser desporto? Quando se chega aqui, é o momento de indicar que é preciso estudar, que não chega descobrir isso pois o isso (abreviemos) não existe sem aquilo. E aquilo é o quê? Bom, aquilo pode ser muita coisa, mas realmente muita coisa, alguma da qual que já se começou a estudar há muitas décadas. E para que ‘muita coisa’ tenha começado a ser estudada, teve de haver quem se interessasse por ‘alguma coisa’, concentrasse a sua atenção e o seu tempo nessa matéria, a estudasse. Como cada indivíduo não existe isolado, essa é uma impossibilidade que a sociologia vinca (e que dá razão de existir à própria sociologia), algo houve em torno daqueles que se dedicaram ao estudo de certas coisas para que certas coisas fossem estudadas – por exemplo, o desporto. Logo que estas práticas (comportamentos regulares) desportivas são assinaladas por um conjunto de indivíduos interessados na educação dos mais jovens e atentos, ao mesmo tempo, às diferentes necessidades da sociedade, foi preciso encontrar uma legitimidade social e fundamentá-la. Tudo isso levou tempo, muito tempo.

A mudança na vida colectiva não ocorre de um dia para o outro. Para tanto, era indispensável conhecer bem profundamente o que se identificava como algo interessante. Estas práticas não foram criadas pelos jovens. Estes reproduziam o que haviam visto os mais velhos fazerem. E os mais velhos faziam aquilo que era tradicional fazerem, que haviam encontrado nos hábitos e nos costumes da sua região, da sua vida familiar, da rede de relações em que se encontravam inseridos desde que se lembravam de existir. Um fenómeno da dimensão que conhecemos, da natureza que descobrimos, das mudanças que vai introduzindo, não pode fixar-se numa definição que se imponha. Qual a perspectiva que pretende conhecer? O domínio do jogo, a expressão social, a representação, o drama, a tensão? Como separar cada uma destas expressões da vida de relação e manter o respeito, o rigor, por aquilo que se procura conhecer tal como é – e não como gostaríamos que fosse – mais simples, mais controlável, menos extraordinário, imprevisto? Além do mais, não acontece sozinho, nem por acaso. Nem foi inventado por ninguém que tenha decidido um dia, em que acordou bem disposto (desejamos nós!), e tenha lançado mãos à obra e decretado: ‘eis a minha obra: o desporto!’. Ou decidido: ‘Hoje eu vou inventar o desporto!’. Nada disso. O desporto é um fenómeno histórico em curso, é uma construção de todos, em todos os momentos em que corrigem aqui, decidem que vai ser assim, que a partir daqui os limites passam a ser estes, um processo que se encontra estabilizado mas prossegue, está longe de estar encerrado. E longe de acontecer isolado.

Parece que o desporto avança por aí, na sociedade, no tempo, no espaço europeu, sem jamais se cruzar com a ginástica, a educação física, a higiene. De acordo com os nossos estudos, estudos que não começaram agora (isto é, hoje, ou agora, ou connosco), o movimento, o exercício, a actividade, associavam-se a algo benéfico, positivo, favorável ao equilíbrio geral daqueles que a ele se dedicavam por razões de necessidade ou de divertimento, algo bom para a saúde. Este era um facto observado, um dado empírico, um conhecimento construído através da experiência. Aliás, a palavra desport encontra-se em França a partir do século XI, antes disso não existia, assim como o verbo desporter. Significa recreações ao ar livre. Todo o tipo de recreações efectuadas ao ar livre, mesmo aquelas que eram utilizadas para preparem os mais jovens da nobreza nas lides da vida militar futura – a guerra como a única ocupação digna da nobreza. Para além da equitação, jogos diversos a cavalo e a pé, com lança, com a preocupação de aprenderem a defender-se, a defender e a atacar. Mas, também, a participação em jogos populares, os jogos em que parte da população masculina participava em momentos particulares do ano, da vida local, da vida familiar. Ou danças, populares ou corteses, brincadeiras e jogos como, por exemplo, a péla, a crosse, a bilharda e outros. Guerra e lazer, para a nobreza, trabalho e ócio, para a população em geral. Porém, a oposição, o confronto presente. E a vontade de todos de invadir outros campos do viver e transformar aquilo que se encontra impregnado do que é corrente, comum, sem chama. O rastilho para a explosão de um prazer que se situava no âmbito do real, o outro lado. O mundo do risco, do drama, da tensão e da vida verdadeira. Dedicar algum tempo à leitura sem pressa do ensaio de Johan Huizinga, holandês, e reitor da Universidade de Leyde. Homo Ludens é um clássico fundamental, de 1938. Trabalho editado em português no ano de 2003, pelas Edições 70. Ler, reler Huizinga, jamais será tempo perdido. Não o ler, sim. Um desperdício.

Muito bem, em termos muito gerais. E a ginástica? E a higiene? Como se impõem como uma realidade, um fenómeno social? É essa uma outra história? Depende do ponto de vista, da perspectiva – como dizemos: depende da pergunta inicial. Segundo aquilo que temos vindo a estudar, a investigar, os dados e os estudos que temos vindo a reunir e o que temos vindo a pensar ao longo destas quatro décadas, a ginástica, a higiene, e o desporto, a medicina, são parte da mesma história. Ou seja, estas manifestações da vida social, da realidade materializada em factos que são justamente a ginástica, parte da higiene, o desporto, parte da vida natural e colectiva, a medicina, logo, a vida social – partilhada, de todos e entre todos, vão ao encontro das mesmas questões: melhorar as possibilidades de estar vivo e viver, resistir aos limites impostos pelo carácter temporário da vida, dar às sociedades a capacidade de fortalecerem as suas forças para se manterem vivos. Como estes são fenómenos humanos e sociais, o movimento associado à ginástica inspira-se no conhecimento médico grego antigo, toma como referência, e legitimação, o modelo grego. A ginástica é parte da higiene – na Grécia Antiga como nos países europeus que a desenvolvem desde os fins do século XVIII. Através da ginástica, aliás das diferentes propostas de ginástica desenvolvidas, o que se visa é activar o movimento, (soa a pleonasmo!) conduzido e moderado, em crianças enfermiças, crianças cujas vidas eram dominadas pela fraqueza, atreitas à doença, numa palavra: frágeis. Até poderem atingir a idade de fazerem qualquer tipo de actividade, fosse ela laboral ou desportiva, caso desejassem entregar-se a práticas de lazer inovadoras, havia que promover condições de assegurar a sobrevivência, havia que ganhar forças, aguentar-se nas pernas, organizar os movimentos e os gestos, descobrir o corpo próprio, aprender a estruturar-se no tempo (o ritmo) e no espaço (o próximo e o distante), a coordenação das maneiras de fazer, isto é, as diferentes formas de encadeamento do movimento, dos diferentes modos de movimentar-se no tempo e no espaço. Havia que promover, em primeiro lugar, a vontade de agir. O exercício dessa vontade. E se as crianças eram, em geral, enfermiças, os adultos, os pais e as mães, não seriam muito saudáveis certamente. Uns por umas razões, outros por outras – em comum, um quadro de vida colectiva feito de grandes necessidades.

Tanto o desporto quanto a ginástica desenvolvem-se numa sociedade europeia marcada pela fraqueza física e psíquica, a debilidade, a doença. A miséria generalizada – conhecemos bem o que se verificava em Portugal, através do trabalho de Jorge Crespo, A História do Corpo (1992). O que se verificava em Portugal, agravado pelo atraso, não era muito diferente do que se encontrava noutros países europeus, nos países nórdicos, na Rússia, entre a própria população inglesa, britânica. Desporto e ginástica: ambos procuram, em momentos simultâneos, a ritmos diferentes, em lugares diferentes, buscam os mesmos fins, fortalecer, agregar, desenvolver a iniciativa, a vontade de actuar. Se conscientemente os ingleses se entregam aos desportos nos seus tempos de lazer, na base e na tradição desses desportos está a necessidade de desenvolverem actividades que contribuam para o encontro com os outros, o enfrentar das más condições atmosféricas, a determinação em vencer a inércia, a valorização da acção. Revestem-se de cultura, são os costumes, a ética associada à vida activa, ao trabalho físico. No caso da ginástica, na verdade, das ginásticas, elas provêm dos esforços de médicos e de pedagogos, muitos destes filósofos e, também, físicos (isto é, médicos) para pensarem em formas de contribuir para o fortalecimento das crianças em sociedades com níveis de mortalidade infantil assustadores e formas essas concebidas, por via intelectual, enquanto parte integrante da educação. Toda esta edificação teórica (explicação dos benefícios em bases científicas ou empíricas, justificação social e educativa) era estabelecida, na verdade possível, com base nos conhecimentos da tradição cultural grega onde a ginástica, parte dos recursos de prevenção da medicina grega, era comum na educação em geral e, em particular, dos jovens efebos (em idade de prestarem o que equivalia ao serviço militar, de se prepararem para defenderem a sua cidade-Estado). Esse era o modelo primeiro, a referência tomada como ponto de partida. Filósofos e físicos, homens dedicados ao pensar da vida e da existência, da doença e da morte, implicados no mundo do vivido e constrangidos pelas limitações da medicina, uma ciência feita de saber empírico – de uma maneira geral, por toda a Europa.

O desporto, os jogos, jogam-se nos campos, progressivamente nos territórios limitados das Public Schools (equivalente grosso modo às escolas secundárias mais recentes). A ginástica, nos espaços interiores, no projecto e nas tentativas de concentrar a atenção num campo reservado, privado, da vida e da morte mas fechado ao acto, ao movimento conduzido pelo conhecimento médico comprovado – o corpo. O lugar da doença, dos males, dos medos, da morte. Um conhecimento que não se confrontava apenas com os limites da própria medicina, das próprias técnicas, dados suficientes para não confiar com facilidade nas propostas médicas higiénicas e educativas de salvação. O corpo, tomado no seu território privado, verdadeiramente político (a única propriedade, a única ferramenta, a única possibilidade de assegurar o viver pelo labor, a labuta conhecida) opunha igreja e ciência, poderes que se sobrepunham na luta pela sobrevivência daqueles em que a fragilidade, a par da debilidade, deixava homens, mulheres e crianças, entregues a si mesmos. Campo da vida, do prazer, da dor e do sofrimento, as mentalidades e as barreiras sociais, onde a igreja havia semeado e fertilizado o universo do medo, haveria que apresentar provas da validade, da garantia das propostas médicas e higiénicas materializadas nos diferentes ginásticas propostas. Enquanto isso, em Inglaterra, rapazes e homens arrojavam-se pelos campos em jogos viris dominados pelo divertimento, a afirmação das supremacias masculinas, a confrontação socialmente controlada de forças e de rivalidades, endurecia corpos e vontades, avançava sem outras dificuldades para além da argúcia e das capacidades de uns e de outros. Um outro jogo de forças, frontal, lugar onde a imortalidade desafiava a morte.

Perante a impossibilidade de encontrar um conhecimento terapêutico sólido na ciência médica, a higiene era o recurso que se impunha. A arma de prevenção mais acessível, possível, contra a lentidão no avanço dos estudos de uma medicina adequada às necessidades de populações e de sociedades bastante mais complexas do que aquelas em que as teorias médicas gregas – tratados de Hipócrates e de Galeno – vigoravam em geral na Europa ainda nos finais do século XVIII. Enquanto demoravam as descobertas, os avanços, as propostas e os fundamentos cientificamente seguros, só restava aos médicos, à medicina, o caminho da higiene e, dentro desta, a ginástica. Uma forma médica e educativa de remediar os males, de melhorar o que se possuía. Era pouco, muito pouco. Era, no entanto, o possível. Interessante é assinalar, por agora, que estes dois domínios da vida social, médica-científica e económica se encontram entrelaçados desde os seus inícios, uma génese radicada numa visão do mundo comum.

Manuela Hasse é Professora Agregada da Universidade de Lisboa, Faculdade de Motricidade Humana

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