TERÇA-FEIRA, 28-03-2017, ANO 18, N.º 6268
Eduarda Veloso
Espaço Universidade
A importância da natação no desenvolvimento da criança (artigo de Eduarda Veloso, 1)
17:28 - 16-03-2017
Eduarda Veloso
Com início nos anos 60 e em Portugal desde 80, a «natação para bebés» apresenta ainda um vazio de conhecimento de suporte quer às práticas que se têm vindo a desenvolver, quer aos benefícios e aos riscos que normalmente se apregoam.

Tendo crescido de forma dramática nos últimos 30 anos, esta indústria motivou o interesse de investigadores Australianos que procuraram examinar os possíveis benefícios da participação de crianças menores de 5 anos em aulas de natação. Durante 3 anos, aplicaram um questionário em larga escala (7000 participantes) no qual os pais identificaram, de uma lista que compreendia indicadores internacionais (ou marcos), as habilidades dos seus filhos praticantes de natação. Como resultado os pais reportaram que os seus filhos atingem esses marcos bem antes do que seria a expetativa padrão.

Para resolver a possível tendência de sobrestimação das capacidades (os pais podem sempre achar que os seus filhos são melhores do que na realidade são), aplicaram individualmente testes de desenvolvimento reconhecidos a 177 crianças de 3, 4 e 5 anos de idade. Visitaram ainda várias piscinas para que uma observação sistematizada permitisse caracterizar o contexto pedagógico, tentando definir as melhores práticas.

Os resultados apontaram para a existência de diferenças significativas (para melhor) entre a população em geral e as crianças que praticam natação desde cedo:
1) Ao nível do desenvolvimento motor – alcançam competências-chave mais cedo;
2) Ao nível da linguagem – habilidade de falar e expressar ideias;
3) Ao nível da cognição – incluindo literacia e pensamento matemático.

Os autores do estudo consideraram que as aulas de natação de qualidade apresentam um potencial considerável para adicionar capital (para além do estritamente motor), pelo que devem ser proporcionadas a todas as crianças. Atendendo à variabilidade de resultados entre escolas de natação, recomendaram que os pais devam ter acesso à informação e aconselhamento necessários a uma adequada seleção do programa onde inscrevem os seus filhos.

Na nossa opinião, a natação para bebés deve ser mais do que uma genérica familiarização com o meio aquático. O bebé é um ser competente – mesmo na piscina – e os pais devem ser informados disso. Nesse sentido, desde há 10 anos atrás, iniciámos, em Portugal, uma série de estudos sobre o comportamento motor do bebé no meio aquático, visando contribuir para colmatar o vazio existente.

Quisemos descrever as aquisições motoras que realiza nesse ambiente e verificar a existência de relação entre essas aquisições, a sua idade e a quantidade de prática a que é aí submetido. Para tal, desenvolvemos e validámos sistemas de avaliação de dimensões como o controlo da respiração, a orientação subaquática, o equilíbrio do bebé em meio aquático e, mais recentemente, um instrumento que irá proporcionar a avaliação da sua capacidade de deslocamento. A sua aplicação na avaliação de mais de três centenas de bebés, permitiu confirmar o esperado: à medida que idade e o tempo de prática aumentam, aumenta a competência da criança. Apenas a flutuação dorsal não seguiu esta tendência, havendo um período de regressão dos 7 aos 24 meses. Para além disso, concluímos que as habilidades mais complexas dependiam, em muito, de um elevado tempo de prática, só possível em bebés assíduos, que frequentaram a piscina desde cedo, pelo menos 2 vezes por semana.

A identificação de alguns marcos de desenvolvimento chave, como a capacidade de o bebé permanecer imerso 3 ou mais segundos, de se orientar debaixo de água, ou recuperar sozinho a vertical, permitiram orientar professores e pais na piscina. Para além de todos os benefícios apontados pelo grupo de investigação Australiano, o nosso contributo permitirá saber o que esperar da criança em cada idade, veiculando a afinação da estimulação e respeitando o seu ritmo de aprendizagem. Permitirá ainda aos pais anteciparem os comportamentos de risco, promovendo a segurança junto de ambientes aquáticos.

Eduarda Veloso
Professora Assistente Convidada do Departamento de Desporto da Universidade Europeia

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