SEXTA-FEIRA, 28-07-2017, ANO 18, N.º 6390
Ética no Desporto
Carlos Lopes: grande entre os grandes!(artigo de Manuel Sérgio, 184)
16:28 - 24-02-2017
Manuel Sérgio
No jornal A Bola, de 2017/2/18, sob o título CARLOS LOPES faz 70 anos, o jornalista António Simões, um jornalista de talento com a invulgar sobreposição dos traços de um crítico literário, entrevista Carlos Lopes, o nome maior, ao lado de Mário Moniz Pereira, do atletismo português. Campeão Olímpico da Maratona; Vice-Campeão Olímpico dos 10 000 metros; três vezes campeão do Mundo de corta-mato; medalha de bronze por equipas, no mundial de corta-mato; recordista da Europa dos 10 000 metros; recordista da Europa e do Mundo da Maratona; vencedor da São Silvestre de São Paulo; três vezes vencedor individual da Taça dos Campeões Europeus de Corta-Mato; 10 vezes campeão de Portugal de corta-mato; 9 vezes campeão de Portugal de pistra: 1500 metros (2 vezes), 5000 metros (2 vezes), 10 000 metros (2 vezes), 3000 metros obstáculos (1 vez), e 4x1500 metros (2 vezes). Não há dúvida: “Carlos Lopes acumulou vitórias sobre vitórias e, na área das suas especialidades, não tem par, nem em Portugal, nem no Mundo” – assim mo disse várias vezes o Prof. Mário Moniz Pereira. Nasceu, há 70 anos (em 1947/2/18) num aldeia do distrito de Viseu. Começou a correr no Lusitano de Vildemoínhos, Com 6 irmãos, era filho de gente monetariamente muito pobre, mas rica, riquíssima, dos valores da lealdade, da honestidade e da honradez. Mas foi no Sporting Clube de Portugal e sob a orientação de Mário Moniz Pereira que alcançou o seu inigualável currículo. Um dia, no Centro de Medicina Desportiva de Lisboa, onde trabalhei 3 anos, perguntei as razões dos êxitos de Carlos Lopes a uma atleta do Sporting. Levantou para mim um olhar húmido, aciganado e cansado e descarregou: “Porque é o melhor de nós todos”. Prossegui: “É tudo o que tem para me dizer?”. Assentiu com a cabeça e virou a cara…

Mas foi o Mário Moniz Pereira a encontrar o essencial das suas vitórias, em palavras que muitas vezes lhe escutei: “A confiança inabalável em si mesmo e, daí, uma calma impressionante, antes de qualquer competição”. A referida entrevista n’A Bola diz isto mesmo. À pergunta do António Simões: “Nem por uma vez sentiu medo da maratona?”, Carlos Lopes sorriu triunfante e, vagamente tocado de fraternidade, respondeu: “Nada, nada. Quinze minutos antes do tiro de partida, tinha 46 pulsações por minuto. Ao medir-me o pulso, o professor Moniz Pereira ficou de boca aberta e disse para a Teresa, a minha mulher: “Como é que isto é possível? Nós aqui numa pilha de nervos e este gajo parece que está como se fosse para uma festarola”. É que, dentro da minha cabeça, só havia uma ideia: não me preocupar com nada, antes dos 37 quilómetros, pois que, a partir daí, é que eu tinha de dar forte e feio”. O Dr. Marcos Barroco, médico especialista em Medicina Desportiva e que acompanhou, com inapagável talento, as carreiras de Carlos Lopes e Fernando Mamede, observou, em conversa havida comigo: “Do ponto de vista físico-funcional, o Fernando Mamede é incomparável. Só que o Carlos Lopes nasceu psiquicamente para ser campeão. Ele tem um tal controlo sobre o seu sistema nervoso e uma tão indestrutível força de vontade que, antes da competição começar, ele já a ganhou”. E prosseguiu, se bem me lembro: “Nunca fui um enfardador de livros, mas um médico tem que ter sempre uma pontinha de intelectual. E, por isso, acrescento: este Carlos Lopes, psicologicamente, intelectualmente, é um caso de estudo. Apetece dizer: tem alma de campeão. Eu sei que só o espírito não chega. Mas é pelas qualidades anímicas que ele se superioriza a todos os outros concorrentes”.

O inglês Dan Abrahams, psicólogo desportivo, escreveu, no seu livro Soccer Tough: Simple Football Psychology Techniques to Improve Your Game (há tradução portuguesa da editora Sinais de Fogo, Lisboa, 2013): “Os campeões são campeões porque têm uma excelente autoconfiança. São possuidores desta indispensável qualidade mental, porque são muito bons física e tecnicamente mas sobretudo intelectualmente muito fortes”. Segundo o célebre neurologista Viktor E. Frankl, um judeu que sobreviveu a Auschwitz, “a saúde mental está fundada num certo grau de tensão, aquela tensão entre o que já realizámos e aquilo que ainda queremos alcançar, ou o espaço entre o que somos e aquilo que pretendemos vir a ser. Uma tal tensão é inerente ao ser humano e, por conseguinte, indispensável ao seu bem-estar mental (…). Em minha opinião, é uma ideia perigosamente errada da higiene mental presumir que aquilo de que os seres humanos precisam, antes de mais nada, é de equilíbrio, ou homeostasia, como se diz na biologia, isto é, um estado isento de tensão. No meu pensar, aquilo de que um ser humano necessita não é de um estado isento de tensão, mas antes do esforço e da luta por um objetivo que se quer alcançar (…). Aquilo de que o Homem necessita não é de homeostasia mas daquilo que eu chamo noodinâmica, ou seja, a dinâmica existencial de um campo de tensão, no qual um polo é representado pelo sentido da vida e o outro pelo sujeito que o persegue. Quem tem força psíquica e psicológica para criar e alcançar o sentido da vida é um vencedor, como o não são os homens fortes fisicamente mas que vivem num vácuo existencial, ou seja, sem grandes objetivos ou sem força para alcançá-los”. Quando li o texto de Viktor Frankl, logo me ocorreu a genialidade de Carlos Lopes: fisicamente dotado, psicologicamente um superdotado. Está aí, felizmente vivo e são, o Dr. Marcos Barroco. Ele poderá esboçar o perfil do Carlos Lopes, como eu o não sei fazer.
Nas décadas de 70 e 80, ainda era “moda”, no treino desportivo em Portugal, estudar fisiologia e, nela só, fundamentar cientificamente a prática desportiva. O paradigma biomédico era, então, o dominante, sem o contributo de qualquer trabalho interdisciplinar. À totalidade de pensamentos, perceções e valores, que forma uma visão particular do desporto, não se lhe dava lugar relevante, na preparação de um jogador, de um atleta, ou de uma equipa. E, na esmagadora maioria dos treinadores (Mário Moniz Pereira era uma das exceções, dado que era um artista e um poeta) a chateza e a trivialidade de meia-dúzia de conceitos, de cariz biológico, era o que se ouvia nos treinadores e no treino. Contra este reducionismo, contra esta monotonia e repetição, me rebelei eu, através de uma tese de doutoramento (em que os Profs. João Evangelista Loureiro e Henrique de Melo Barreiros foram os orientadores) que via no desporto um dos aspetos de uma nova ciência social e humana e adiantava portanto uma perspetiva pós-moderna desta área do conhecimento e até os princípios estruturantes de uma nova metodologia do treino. Estou a ouvir a interrogação acompanhada de um riso de troça: “Os princípios estruturantes de uma nova metodologia do treino?”. Assim o penso, de facto. Ao tentar desnudar o síndroma cartesiano persistente, na ciência e no desporto contemporâneos; ao passar do corpo-objeto ao corpo-sujeito; ao aproximar a cultura científica da cultura humanista; ao defender que o conhecimento científico não é objetivo e universal, pois que é mediado socialmente e portanto a incerteza não é típica das humanidades e das ciências ditas “moles”, dado que chega às ciências ditas “duras”; saudando o advento da complexidade e da sistémica, onde a “rede” tem um papel de relevo; rejeitando uma epistemologia positivista e aproximando-me de uma epistemologia construtivista – adiantei uma base sistémica para o treino e desvalorizei o treino, com métodos absolutos e rígidos, pois que é um homem (ou uma mulher) que se treina. É a partir destes princípios (discutíveis, porque são meus) que considero o Carlos Lopes o maior atleta português de todos os tempos e com lugar seguro entre os melhores da História do Atletismo.

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