SEXTA-FEIRA, 21-07-2017, ANO 18, N.º 6383
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«Tudo o que é excessivo é insignificante» (artigo de Manuel Sérgio, 183)
16:04 - 19-02-2017
A crítica, no nosso País (e portanto no desporto português) confunde-se, muitas vezes, com enxovalho, com facciosismo, com inveja, com despiques polemicantes. Mas, se a transplantarmos para o mundo do futebol, ela espelha e resume o manifesto parentesco entre o mais fervoroso clubismo e a irracionalidade mais exaltada. O Paul Ricoeur, n’O Conflito das Interpretações, ensinava que “são os símbolos do mal o verdadeiro lugar do nascimento do problema hermenêutico”. Embora a minha insignificância diante da grandeza do filósofo francês, é meu pensar que só em muito poucas situações o ser humano pode dispensar a mediação linguística e a sua explicitação. Com efeito, uma explicitação o mais cabal possível comporta uma análise de disciplinas várias e até de transferência de conceitos de umas disciplinas para outras que uma análise apressada, obsessiva, unilateral não permite. Gilbert Durand relembra-nos: “Os sábios criadores do fim do século XIX e dos dez primeiros anos do século XX, esse período áureo da criação científica em que se perfilam nomes como os de Gauss, Lebochevsky, Riman, Poincaré, Becquerel, Curie, Pasteur, Max Plank, Niels Bohr, Einstein, etc., tiveram todos uma larga formação pluridisciplinar, herdeira do velho trivium (as humanidades) e quadrivium (os conhecimentos quantificáveis e portanto também a matemática) medievais, prudente e parcimoniosamente organizados pelos colégios dos jesuítas e dos frades oratórios e das pequenas escolas jansenistas do novo humanismo liberal” (in E. Portella (org.), Entre Savoirs. L’Interdisciplinarité en acte: Enjeux, obstacles, perspectives, Unesco, 1991, p. 35). Portanto, ao contrário do que hoje se pensa, muitos dos grandes cientistas dos séculos XIX e XX não foram os hiperespecialistas, confinados nos limites das suas especialidades, mas especialistas que sabiam que a sua especialidade radica numa cultura e exige, para desenvolver-se, interdisciplinaridade, multidisciplinaridade, transdisciplinaridade.

O desenvolvimento desportivo deve ter a pessoa humana como seu principal objetivo – e pessoa preparada para responder aos múltiplos desafios que a sociedade atual lhe levanta. De facto, a história da humanidade significa, antes de tudo, a história do ser humano, superando e superando-se, por outras palavras: manifestando um anseio imparável de reencontrar muitos dos valores que, por vezes, o nosso tempo, de catadura agressiva, vem rejeitando, principalmente a transcendência. Todos sabemos que a vida é uma propriedade emergente da matéria, uma espécie de transcendência inscrita no próprio seio dos seres inanimados. Há, de facto, continuidade entre a matéria inanimada e os seres vivos, pela transcendência de inúmeros obstáculos. Francis Crick, prémio Nobel da Biologia e portanto um nome vivaz e sonoro desta província do saber, escreveu maravilhado: “Um homem sensato, armado de todo o saber à nossa disposição hoje, teria a obrigação de afirmar que a origem da vida parece atualmente dever-se a um milagre, tantíssimas são as condições necessárias a reunir, para viabilizá-la”. A matéria transcendeu-se, no nascimento da vida. E a vida transcendeu-se para que o ser humano pudesse despontar e dilatar a alma, na linha infinda dos horizontes? Teilhard de Chardin situava o Homem no cume da evolução material e biológica. O mesmo Teilhard, na linha do élan vital de Bergson, encontra uma energia espiritual, no cerne da realidade. A sua cosmologia é um evolucionismo histórico, temporal e dinâmico, em direção ao Espírito, ao Homem. Muitos autores dizem mesmo que a filosofia de Teilhard é um personalismo. Para este autor, há um itinerário evidente, em todo o universo: matéria-vida-espírito e, chegando ao espírito, ou seja, à pessoa humana, o evolucionismo continua, em comunidade, no âmbito cultural.

“Hoje começa a haver uma tomada efectiva de consciência de que o défice principal com que nos confrontamos a nível social é o do pensamento, da inteligência, ou melhor, um défice de capacidade de invenção de outros modos de vida, de um mundo onde valha a pena viver e é neste domínio que se criam as primeiras diferenças sociais, com alguns, os eleitos, a serem motivados desde meninos”. É que “a inteligência é um músculo que se treina desde sempre ou então, tal como acontece com os músculos que não são utilizados, atrofia-se, perde as suas funções vitais, levando a que hoje muita gente tenha os neurónios atrofiados, sem funções efectivas, não consiga nem queira pensar. É o grande drama do nosso tempo: é que podemos passar uma vida inteira sem tomarmos consciência desta incapacidade porque, por um lado, não é visível à vista desarmada e, por outro, porque no quotidiano somos muito pouco incentivados a ter ideias, a utilizar os mecanismos do pensamento” (Carlos Fragateiro, in Carlos Pimenta (org.), Interdisciplinaridade, Humanismo, Universidade, Campo das Letras, 2004, p. 71). Aprendi eu, na Faculdade de Letras de Lisboa, nas aulas do Padre Manuel Antunes que “a cultura é a aliança do saber e da vida”. Até a genialidade, na sua exata dimensão intelectual e humana, não se manifesta unicamente por um discurso expositivo e inflamado, mas também por uma prática e teoria constantes, em plena identidade entre a vida e o discurso. Ora, no futebol, pessoas há que (sem os crimes de Goebbels, devo salientar) diriam, se pudessem, como Goebbels, “sempre que ouço falar de cultura, puxo pelo revólver”. E, no entanto, um futebol (ou uma qualquer outra modalidade desportiva) sem cultura, propicia os mais lamentáveis aproveitamentos ideológicos. E perde muitas oportunidades para evoluir…

Por vezes, a crítica desportiva (e nela me incluo eu também) não passa, aqui e além, de uma mitocrítica, onde realidade e mito e aparelho psíquico do crítico se tornam indissociáveis. No tempo em que vivemos, há, no Desporto, muita gente instruída e pouca gente culta. Também por culpa dos “curricula” escolares onde este fenómeno cultural se estuda, com esquecimento do essencial – a pessoa humana! Jean Lacroix, no seu Panorama da Filosofia Francesa Contemporânea, observa: “Nenhum homem se confunde com Deus, mas todo o homem é a manifestação, a epifania da altura em que Deus se revela”. Portanto, nem o Cristiano Ronaldo, nem o Messi, fazem “jogadas do outro mundo”; nem o Rui Patrício, nem o Ederson são do outro mundo também – Cristiano Ronaldo, Messi, Rui Patrício e Ederson são 4 jogadores superdotados e supertreinados. E beneficiando de um treino de que os “cinco violinos” e os “cinco mágicos” que foram o José Augusto, o Eusébio, o Águas, o Coluna e o Simões, não puderam usufruir e, no país vizinho, poderíamos recordar Kubala, Di Stéfano, Puskas, Gento, etc., etc. É evidente que o futebol destes artistas-futebolistas não pode reduzir-se ao discurso lógico, rigorosamente científico. Perante a sua arte, o sentimento estético, a admiração, o culto, o “coeur” pascaliano nascem, inevitavelmente, autónomos, paralelos e marginais, em relação à vocação estruturante, matematizante, conceptualizadora da razão. O discurso que noticia, ou relata, ou investiga o Desporto movimenta-se numa perene confrontação entre a ciência e a arte, entre a razão e o sentimento, entre uma abordagem analítica e uma abordagem (digamos o nome sem medo) religiosa. Mas a razão e o sentimento completam-se. Quem estuda Filosofia conclui que ela é uma das manifestações da insanável carência humana de mostrar, explicar e compreender o Todo. O seu esforço permanentemente questionante assim o atesta. Em todos os outros tipos de conhecimento, acontece o mesmo. Um jogador de futebol de muito bom nível é constantemente mitificado, em monólogos e diálogos arrebatados e arrebatadores. E, quando colhe os loiros da popularidade, ele sabe, melhor do que ninguém, que não passa do “caniço pensante” de Pascal. Ele sabe que muito do que dizem dele é excessivo e, por isso, insignificante.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
Manuel Sérgio

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