TERÇA-FEIRA, 27-06-2017, ANO 18, N.º 6359
Azerbaijão
Miguel Lourenço e a aventura de um defesa português no Azerbaijão
20:20 - 02-01-2017
Miguel Lourenço, defesa português de 24 anos, está pela primeira vez longe de Portugal. Por sinal bem longe, já que Baku, capital do Azerbaijão, dista mais de seis mil quilómetros de Portugal.

Produto das escolas do V. Setúbal, Miguel Lourenço decidiu «cortar o cordão umbilical» e partir à aventura. Está, desde o início da época, no Zira FC, emblema que atualmente ocupa o quinto lugar do campeonato azeri.

«Falaram-me da hipótese de ir para o Azerbaijão, mas numa primeira fase as negociações com o V. Setúbal não correram bem e o negócio caiu por terra. Umas semanas depois houve novo contacto e então tudo correu bem. Acabei por aceitar e não estou nada arrependido», conta, a A BOLA, o jogador que, atualmente, está em Portugal a recuperar de lesão do calcanhar direito: «Não é nada de grave.»


«Nem sabia onde era o Azerbaijão!»

O início foi «complicado», admite Miguel. «Nem sabia onde era o Azerbaijão [risos]! Não sabia de nada sobre o país, sobre o povo, os costumes, a cultura, a alimentação. Pesquisei na internet e percebi que não seria um bicho de sete cabeças. Mas, confesso que estava de pé atrás. A adaptação não foi fácil. Nos primeiros meses estive sozinho, agora tenho a companhia da minha namorada [n. d. r.: Cláudia] desde novembro. Felizmente, ela conseguiu um trabalho que faz em casa. Tem sido uma preciosa ajuda», observou Miguel Lourenço.

Sobre Baku, enaltece os contrastes: «É uma cidade muito desenvolvida, iluminada e com vários prédios altos. Existe muito luxo, muita riqueza. Porém, é uma cidade de contrastes: os ricos são mesmo muito ricos, os pobres são mesmo muito pobres. Fui muito bem recebido e felizmente tenho sido opção com regularidade. Cheguei com muito calor, agora, quando vim para Portugal, estava um frio de rachar. Também o clima é de contrastes», destacou.

País muçulmano, mas não muito

Confessando que não estranhou muito a alimentação — «há muita oferta de restaurantes internacionais e eles comem muito frango, o que para mim é bom» —, já o idioma foi, e é, um problema, embora não dos mais graves: «A grande maioria fala russo. Eu falo inglês e no clube temos um tradutor. Mas já vou dizendo algumas coisas, as mais básicas.»

Já sobre a cultura, não se confirmou o pior receio: «Ao início preocupou-me a ideia de ser um país muçulmano. Estava com receio das restrições e pouca liberdade que poderiam dar às mulheres, mas afinal isso não se verificou e acabam por ter muita liberdade. Contudo, o povo é mais fechado do que o português, o que não é propriamente uma surpresa.»

Com apenas um treino por dia, como é que Miguel Lourenço ocupa os tempos livres? «De manhã vou dar uma volta com a minha namorada, tomar o pequeno-almoço ou fazer umas compras. Caso não esteja bom tempo, durmo até mais tarde. Depois, como o local onde treinamos fica a 45 minutos de carro de Baku, saio de casa pouco depois das 14 horas e costumo regressar pelas 18. Lanchamos, damos uma volta e jantamos.

Em Baku também está o Sérgio Carneiro [mais conhecido por Serginho, avançado de 25 anos que já representou, entre outros, o Trofense e o Arouca, sendo que agora joga no FC Kapaz, também em Baku] e muitas vezes jantamos com ele e a mulher. É bom ter mais alguém que fale a nossa língua», salientou.

«Futebol é muito diferente do nosso»

Clube fundado em 2014, o Zira FC terminou a última época no segundo lugar e na atual ocupa o quinto lugar, com 15 pontos (em 14 jogos), já a 17 pontos do líder, o Qarabag, «um dos grandes do Azerbaijão, a par do Qabala [2.º lugar, com 30 pontos]».

E como é o futebol na primeira república democrática (independente desde 1918) cuja população é maioritariamente muçulmana? «É muito diferente do português. Muito menos tático e técnico que o nosso. O futebol deles é arcaico, tirando o dos dois principais clubes, o Qarabag e o Qabala. O Zira FC tem procurado imitar as coisas boas deles», observou Miguel Lourenço, «nada arrependido» da aposta.

«Está a ser muito positiva. Tenho jogado com regularidade e isso é o mais importante. Fiz uma boa primeira parte de época. Também queria sair do conforto do lar, estava a precisar de cortar o cordão umbilical, de novas vivências.»

As rezas ao intervalo

Emprestado pelo V. Setúbal ao Zira FC até ao final da temporada, Miguel Lourenço encontrou uma realidade diferente da que estava habituado e também nos relvados foi surpreendido.

«Na primeira vez que joguei, mal o árbitro apitou para o intervalo, a grande maioria dos jogadores da minha equipa foram a correr para o balneário. Quando lá cheguei só estava eu e os estrangeiros. Achei estranho e só depois percebi que os outros estavam numa sala à parte a rezar! Achei estranho, o intervalo costuma ser para acertar a estratégia para a segunda parte… Mas agora já estou habituado e acho perfeitamente natural, ao início é que estranhei», contou, bem-disposto, Miguel Lourenço.
Paulo Jorge Santos

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